A CASA DO ESCRITOR

A CASA DO ESCRITOR
O Copyright by Petit Editora e Distribuidora Ltda. 1993
1a Edio/impresso: outubro/93 - 20.000 exemplares
2a Reimpresso: setembro/94 - 10.000 exemplares
3a Reimpresso: novembro/94 - 10.000 exemplares
4a Reimpresso: fevereiro95 - 1 5.000 exemplares
5a Reimpresso: junho/95 - 15.000 exemplares
6a Reimpresso: dezembro95 - 20.000 exemplares
7a Reimpresso: agsto/96 - 15.000 exemplares
8a Reimpresso: maro/97 - 5.000 exemplares
9a Reimpresso: junho/97 - 20.000 exemplares

Capa; criao, arte final e foto
Flvio Machado

Fotolito da capa
Stap - Stdio Grfico

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
133.9 Patrcia (Esprto)
P341c A Casa do Escritor/pelo Espirito Patricia;
psicografado por vera Lcia Marinzeck de Carvalho.
- So Paulo: Petit, 1993.
I S B N - 85-7253-001-0
1. Espiritsmo 2. Romance medinico
I.Carvalho, Vera Lcia Marinzeck de. II.Ttulo
CDU: 133.9
ndices para catlogo sistemtico:
1. Romance medinico: Espiritsmo 1 33.9
Direitos autorais reservados.  proibida a reproduo total ou parcial. de qualquer
forma ou por qualquer meio, salvo com autorizao da editora. Ao reproduzir
este ou qualquer livro pelo sistema de fotocopiadora ou outro mcio.
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prejudicando: a editora, o autor e a voc mesmo. Existem outras
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caso voc no tenha recursos para adquirr a obra. Informe-se.  melhor do que
assumir dbitos.
Impresso no Brasil na Primavera de 1997
A CASA DO ESCRITOR
PSICOGRAFIA DE
Vera Lcia Marinzeck de Carvalho
PETIT EDITORA E DISTRIBUIDORA ITDA.
Ruo Rtuo, 383 - V. Esperono - Penho - fone: (O1 1 ) 684-6000
CEP 03646-000 - So Paulo - SP
Correspondncia p~re:
Caixa Postal 67545 - Rg. Rlmeido limo - CEP 0310Q-970
So Paulo - SP

Outros livros psicografados pela medium
Vera Lcia Marinzeck de Carvalho:
Com o Esprito Antnio Carlos:
- Reconciliao
- Cativos e Libertos
- Copos que Andam
- Muitos so os Chamados
- Filho Adotvo
- Reparando Erros
- A Manso da Pedra Torta
- Palco das Encarnaes
- Aconteceu
- O Talism Maldito

Com o Esprito Patrcia:
- Violetas na Janela
- Vivendo no Mundo dos Espritos
- O Vo da Gaivota

Com Espritos diversos:
- Valeu a Pena
- Perante a Eternidade


INDICE
PREFCIO
A COLNIA DE ESTUDO
COLNIA TRINGULO, ROSA E CRUZ
RECORDANDO O PASSADO
A CASA DO ESCRITOR
O JORNALISTA
A REUNIO
APRENDENDO SEMPRE
A BIBLIOTECA
NO MBRAL
TRABALHANDO COM A EQUIPE
EXCURSES
FATOS INTERESSANTES
MEU PAI
A HISTRIA DE LORETA
NO TRMINO

 sempre um prazer termos em mos uma obra de encantos
mil.  com orgulho carinhoso que prefacio esta obra. A Casa do
Escritor  meu lar, amo o trabalho que ela promove.
Patrcia, com sua linguagem simples ejovem, descreve-a to
bem que nos comove.  deveras A Casa do Escritor como foi
narrada.  um plo positivo da Literatura Brasileira e, principalmente,
da Esprita, que tanto bem e tantas instrues tem
semeado.
Ajovem escritora, que por algum tempo abrilhantou com sua
presena nossa adorvel Colnia, soube bem aproveitar todos os
instantes aqui presente e at nas simples conversas soube aproveitar
a oportunidade para conhecer. Com os trabalhos de equipe soube
ser til. E em todos os eventos soube aproveitar o mximo para
depois escrever este livro.
A Casa do Escritor  uma realidade que nossa Patrcia to
bem expe aos seus leitores. Espero que este livro seja um incentivo
a todos que trabalham com a Literatura edificante. E tambm aos
que possam vir a trabalhar.
Felizes os que se instruem e fazem dos seus conhecimentos
alimentos saborosos para aqueles que anseiam por conhecer.
Caros leitores, aqui est uma obra fantstica, um bocadinho
de frutos do Saber sobre o Plano Espiritual. E que to bem Patrcia
nos descreve.
Alegria!
Antnio Carlos
So Carlos - SP - 1993

I
A COLONIA DE ESTUDO
Como foi diferente o estado de alegria que senti quando
chegou o momento de iniciar nova etapa de estudo. Um profundo
jbilo preencheu toda minh'alma  revelia do meu controle mental.
Veio-me  memria o dito do grandioso Nazareno aos seus discpulos.
Trechos que tirei para meditar do Evangelho de Joo, dos
captulos XIV e XV. "Eu vos dou a minha Paz, vos dou a alegria,
para que completa seja vossa Paz, repleta a vossa alegria."
Que paz e alegrias eram estas? Pois foram dadas por um
homem que no possua nada, no desfrutava de bens mundanos. E,
mais, ainda foram ditas antecedendo horas de muitas dores e
tristezas, fatos e dificuldades que Ele iria enfrentar.
A paz e a alegria que Jesus distribua no estavam ligadas ao
nosso modo de ver e viver. E, no entanto, eram vividas por um
homem de carne, osso e esprito como ns.
Quando encarnados, nossa alegria est ligada a sensaes e
prazeres dos sentidos, e at  satisfao de uma conquista mental,
seja de fora ou de erudio. A felicidade que buscamos no plano
fisico  sinnimo de ociosidade, prazer e ausncia de dificuldades.
No conseguimos compreender que as dificuldades, quando no
criadas por ns mesmos, so por via de regra instrumentos da
natureza que no nos deixa cair na inatividade, pois a monotonia 
a prpria morte. A natureza  vida que se renova incessantemente.
Como num acender de luzes, compreendi que a alegria perene
no pode estar ligada a pessoas ou coisas. No pode depender de

10 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

estmulo nenhum para que acontea.  um estado de ser em ventura,
sem limites, por saber compreender.  viver a vida pela vida e no
para ganhar alguma coisa ou atingir um fim.
Conheci a felicidade real.
Dois anos se passaram, nos quais fiquei a estudar na Colnia
de Estudo: a Casa do Saber. Foi um perodo maravilhoso em que
muito aprendi, fiz novos amigos, amadureci espiritualmente. Recordo
que, ao chegar  Casa do Saber, me emocionei at as lgrimas
e exclamei comovida:
- Esta Colnia  linda! Que lugar de encantos e sonhos!
De fato, a Casa do Saber  um lugar que para os encarnados
s se poderia comparar a encantadores sonhos.
Antno Carlos, meu amigo querido, acompanhou-me. Volitamos
tranqilos.
- Patrcia, vamos agora devagar. Observe a Colna,  ali,
naquele ponto radiante.
Vi um ponto luminoso branco e logoj distinguia os prdios
e jardns. A Colnia no  cercada.  fantstico v-la, volitando.
Meu amgo me esclareceu:
- A Colnia de Estudo no tem sistema de defesa. Todos que
nela habitam vibram numa mesma intensidade que a sustenta. E s
consegue v-la quem vibra igual.
A Colnia est suspensa no ar, como que em cma de uma
grande e slida nuvem. Para os encarnados, no lugar no existe
nada, no  perceptvel  viso dos encarnados e dos desencarnados
que no sintonizam com suas vibraes.
Descemos no crculo que est em sua volta. Para que me
entendam, nesta parte slida em que est a Colnia h um beiral de
alguns metros e logo esto seus prdios e ptios.
Sorri encantada e atendi ao convite do meu cicerone.
-Vamos entrar, Patrcia. Primeiramente iremos cumprimentar
o diretor da casa.
Caminhamos. No h diferena do solo das outras Colnias.
A Casa do Saber  uma Colnia pequena, est dividida em ruas.

A casa do Escritor 11

Andamos tranqilos, nada de desconfiana. As pessoas que encontramos
sorriam cumprimentando-nos. Olhava tudo curiosa. Tudo
to lindo! O ar  perfumado, a brisa  suave. Os prdios, harmoniosos.
 uma Colnia encantadora, na qual poderia passar horas
s olhando o conjunto, a Colnia em si.
Paramos em frente de um prdio e entramos. Numa porta,
com uma placa eserita Diretoria, meu amigo bateu e logo ela foi
aberta. Antnio Carlos abraou efusivamente um senhor de agradvel
aspecto, que em seguida veio at mim.
- Esta  Patrcia de quem lhe falei.
- Sou Alfredo. Encantado por t-la conosco. J escutei falar
muito de voc. Ento, gostou da nossa Colnia?
- Oh, me parece encantadora. O prazer  meu de estar aqui,
sou grata pela acolhida. Amo aprender. Estar aqui  tudo que almejo
no momento.
Alfredo  muito agradvel, olhar inteligente e sorriso amvel.
Por alguns momentos, os dois amigos passaram a trocar notcias de
amigos comuns. Enquanto isso, observei a sala da diretoria. Tudo
ali  paz, ela  espaosa, com mveis claros, bonitos quadros na
parede e vasos com flores. Bem atrs da eserivaninha estava
bordada a orao de So Francisco de Assis, to conhecida de todos
ns. Em todos os lugares onde h equilbrio, onde se cultiva a paz
e harmonia, h um encanto especial, tudo se torna maravilhoso. E
por toda a Colnia reina a alegria de se estar bem consigo mesmo.
- Patrcia - disse Alfredo, gentil -, vou pedir a Rosely para
acompanh-la numa excurso pela Colnia para que a conhea.
Tocou uma suave campainha e uma moa loura, muito
bonita, sorriso franco, entrou na sala.
- Oi, sou Rosely.
- Eu, Patrcia.
Sorrimos, foi como se a conhecesse h muito tempo. Antnio
Carlos me elucidou.
- Patrcia, aqui ter sempre esta sensao de conhecer todos.
 uma unio por vibrao. Estou contente, pois vejo que est a
vibrar em harmonia com todos aqui.

12 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

- Venham comgo, terei um enorme prazer de mostrar
a Colnia a vocs.
Despedimo-nos de Alfredo e emoconados acompanhamos
nossa jovem cicerone.
A Colnia no  grande. Conhecemos sua parte externa
meia hora, mnutos que passei extasiada. Acompanhava as explicaes
de Rosely.
- Este prdio  o da Orientao. Aqui esto os gabinetes dos
professores e a diretoria. Este outro  o das salas de aula, da
biblioteca e das salas de vdeos. A esto as salas de palestras.
Devido s muitas palestras que podem ocorrer ao mesmo
tempo so vrias as salas, tendo uma bem grande para maior
nmero de assistentes e que serve tambm para o teatro. Este prdio
 simples, bem decorado, tendo lindos quadros e muitas flores. As
cadeiras so giratrias, tudo muito confortvel.  tudo harmonioso,
convidando  meditao e  prece.
- Este aqui  o prdio destinado aos alunos. Venham, vamos
entrar.
 um prdio de quatro andares todo dividido em gabinetes.
Tudo muito limpo e claro. No posso mais denominar este espao
particular a cada um de quarto. Aqui no se dorme e nem se
alimenta.  um cantinho seu, onde se estuda, medita, ora, ete.
Rosely nos levou ao que me foi destinado.  uma sala grande,
arejada, que chamarei de gabinete.
- Que lugar encantador! - exclamei comovda.
Emocionei-me e fiquei alegre por ser ali o lugar em que
passaria horas no longo periodo que permaneceria na Casa do
Saber. Ali estava uma eserivaninha toda trabalhada, linda. Uma
estante, dois sofs e uma mesinha com um lindo vaso com florzinhas
azuis. A janela dava para o ptio todo florido. Estranhei por
no haver abajures, lustres, algo que demonstrasse ter luz artificial.
Antnio Carlos, como sempre lendo meus pensamentos, sorrindo,
tratou de me esclarecer.
- Aqu no escurece. A luz do sol brilha sempre. Colnias
nesta dimenso no seguem a rotao da Terra. Esto fixas e
recebem os raios benficos do nosso astro rei o tempo todo.

A casa do Escritor 13

- Ento, no  como a Colnia So Sebastio que est
sempre no espao da cidade de So Sebastio do Paraso?
indaguei curiosa.
- No, colnias de estudo, como algumas outras, no esto
vinculadas a lugares na Terra, esto no espao da Terra, no todo.
Aqui existem algumas colnias que so para servir o povo brasileiro,
logo depois esto as de outros pases; muitas so para todos os
terrqueos, que se comunicam pelo esperanto e pelo pensamento.
- Sensacional! No verei a noite! - exclamei.
- A noite tem seu encanto - disse Antnio Carlos. - Mas a
ver sempre que visitar a Terra, familiares e as Colnias de
Socorro.
- E como saberei quando  noite l na Terra? - indaguei
novamente.
- Para ter um controle no calendrio, a Colnia segue o
horrio, como dia e hora do Brasil. Temos tambm aqui a sala do
Relgio, neste local h o horrio de todos os pases da Terra.
- Antnio Carlos - quis saber curiosa -, como achou a
Colnia entre tantas? Veio to fcil!
- Pela sintonizao. Mentalizei a Casa do Saber e vim pela
vibrao. Logo aprender a usar este processo, porque ir se
locomover muito e ir s. J  bem grande e auto-suficiente para
sair sozinha.
Rimos com a brincadeira.
Trouxe poucos objetos que deixei em cima da eserivaninha.
Aps, ao estar a ss, organizei-os. Coloquei alguns livros na
estante, cadernos de anotaes na eserivaninha e as fotos de meus
familiares na parede e na minha mesa de trabalho. No trouxe nada
de pessoal. No trocava mais de roupa. Visto calas compridas
largas e camiseta azul-clara. Sinto-me bem assim.
Fomos conhecer o restante da Colnia.
- Aqui  a parte mais bonita - disse Rosely.
Parei deslumbrada com a encantadora paisagem. Tudo
parecia brilhar, como se o local fosse pontilhado com centenas de

14 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

estrelinhas. Sentia-me leve, como uma nuvenzinha a bailar com a
brisa suave.  minha frente estava o harmonioso e fenomenal
jardim da Casa do Saber. Muitas rvores, todas perfeitas, sadias e
floridas. As variedades so tantas que no h duas rvores da
mesma espcie. Esto sempre floridas. Suas flores de diversas cores
e perfumes do  viso total uma combinao de cores que encanta.
As rvores parecem desfilar tranqilas, ensinando-nos a ser equilibrados
e harmoniosos para o bem de quem nos v. Muitos so os
canteiros entre as rvores, so formados de flores delicadas,
coloridas, que brilham. Os canteiros formam frases, figuras convidando
a reverenciar o Criador. Muitos bancos esto espalhados por
todo ojardim e so confortveis, alguns de balano, outros em baxo
de caramanches floridos.
-Aqui, tambm, costumamos ouvir palestras de convidados
de outras esferas, que sempre nos brindam com seus ensinamentos
- disse Rosely, chamando-me de volta  realidade, porque, diante
de tanto encanto, me pareceu por instante que fazia parte da prpria
natureza, comunguei por momentos com as belezas que ali via.
Antnio Carlos sorria ao me ver embevecida.
-  to bom estar em um lugar de Paz, heim Patrcia?
Sorri, concordando. Qualquer opinio dada era pouco para
descrever tanta harmonia.
- Neste recanto - disse Rosely, mostrando a ala direita -
esto o lago e a cascata.
Um pequeno rio brota do solo, corre uns cinqenta metros e
forma um pequeno lago. Suas guas claras e cristalinas deixam ver
no fundo suas pedras de diversos tamanhos e cores. No resisti e
coloquei minhas mos n'gua. Sua temperatura  como o ambiente,
agradvel,  to leve que no nos molha; levei-a aos lbios e no
posso compar-la  mais pura das guas do planeta Terra,  bem
melhor. Dei um suspiro, que fez meus companheiros sorrirem e
exclamei extasiada:
- Que beleza!
Do outro lado do lago est a cascata, a gua desce entre
plantas e flores, aps entra no solo desaparecendo.

A casa do Escritor 15

- Aqui  o lugar predileto para as meditaes e o preferido
dos pensadores - disse Rosely. - Agora vou lev-la a sua sala de
aula, onde sua turma est tendo a primeira aula.
- Despeo-me de voc, Patrcia - disse Antnio Carlos.
- Agora voc j conhece sua nova morada.
- Estou encantada e agradecida, Antnio Carlos. Obrigada
por tudo.
Abraamo-nos com carinho.
Entramos, Rosely e eu, no prdio das salas de aula, estava
emocionada. Atravessamos corredores e paramos diante de uma
porta na qual minha cicerone bateu de leve. A porta abriu e um
senhor de agradvel aspecto nos cumprimentou, sorrindo.
- Boa tarde! Sou Leonel.
- Boa tarde! Sou Patrcia.
Uma nota curiosa, na Casa do Saber usa-se muito o cumprimento
"A Paz esteja convosco" ou "A Paz seja convosco!" s
vezes, costuma-se dirigir-se ao outro com um oi ou um ol. Como
no escurece, no se usa nunca o boa-noite, mas, s vezes, costuma-se
ouvir os cumprimentos tradicionais da Terra de bons pressgios
como bom-dia e boa-tarde. Realmente, se desejados de corao,
recebemos com os cumprimentos votos de harmonia.
- Entre, por favor.
Leonel dirigiu-se a mim gentilmente e virando-se para a
turma me apresentou. Esta  mais uma aluna. Seu nome  Patrcia.
Fique  vontade, logo conhecer todos. Acomode-se.
Acomodei-me numa eserivaninha. Olhei a sala, era grande,
espaosa, tinha quarenta alunos que me olharam sorrindo. Senti-me
 vontade.
Logo no primeiro intervalo me enturmei. Todos eram excessivamente
agradveis. J no se conversava mais sobre desencarnaes
ou o que era ou o que foi quando encarnado. O assunto
preferido era sobre estudos. Encantei-me com todos.
Assim, os dias sempre calmos, horrio todo preenchido,
o tempo passou rpido, como sempre acontece quando estamos
felizes.

16 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

A Casa do Saber foi meu lar por dois anos consecutivos. A
maior parte do tempo passei nas salas de aula, nas salas de palestras
e no Recanto da Paz, como  chamado o jardim da Colnia. Ali,
vendo as flores, a cascata, muito pensei, meditei no que aprendia.
Amadureci muito, era uma nova Patrca, equilibrada, mais feliz
ainda, s no mudara minha sede de saber, de conhecer.
Tive, neste perodo, muitos mestres que foram verdadeiros
amigos e dos quais guardo as melhores recordaes e sentimentos
de gratido.
Aprendi muito dos Evangelhos e do Plano Espiritual. Passei
a falar corretamente o Esperanto e a me comunicar pelo pensamento,
no final do curso s nos comunicvamos assim. Visitamos outras
Colnias de Estudo na mesma rea, eram todas um tanto parecidas,
cada qual com seu encanto. Fomos a muitas Colnias de outros
pases, onde treinamos o Esperanto e a comunicao pelo pensamento.
Estas excurses nos maravilharam,  sempre agradvel
conhecer e fazer novos amigos.
O estudo nesta Colnia  tambm uma complementao do
estudo que fiz anteriormente e que descrevi no livro "Vivendo no
Mundo dos Espritos". Muito vi e aprendi. Mas maravilhava-me
cada vez mais com os conhecimentos que adquiria e ansiava por
continuar sempre aprendendo.
Tnhamos muitas horas de estudo por dia, completvamos
com muitos trabalhos que fazamos em grupos. Fiz muitas amizades,
todos os habitantes da Colnia eram e so meus amigos, mas
sempre h alguns que nos completam mais, so mais afins. Entre
eles, un-me com sincero carinho a Lcia, Ins e Murllo.
Reunamo-nos em grupinhos nos gabinetes, ora de um, ora de
outro, para trocar idias. No comeo, conversvamos, aps o grupo
ficava em silncio e se comunicava pelo pensamento. ramos
alegres sem ser alvoroados. Reunamo-nos tambm no jardim,
sempre debaixo de algum caramancho, sentados nos seus bancos
confortveis, tendo por companhia as frondosas rvores que nunca
deixei de admirar.

A casa do escritor 17

Tnhamos momentos livres, nos quais tanto podamos receber
visitas como sair a visitar. Aprendi logo a me locomover nesta
esfera e a achar com facilidade a Casa do Saber. Nas minhas horas
livres, ia  Colnia So Sebastio rever amigos, visitar, na Terra,
meus familiares e sempre ditava mensagens a eles.
H sempre muitos estudantes nestas Colnias. Todos unidos
pelo objetivo de aprender, so espritos afins. A turma dos veteranos
se une em conversao sadia com os novatos e o assunto preferido
 o que se estuda no momento. Freqentvamos muito a biblioteca
e amos sempre s salas de vdeos. No eram somente meus lugares
preferidos, mas de todos. Nestas salas, acha-se de tudo, seus
assuntos so completos. No s freqentvamos para fazer os
trabalhos, como tambm amos nas horas de lazer para ver ou rever
fitas ou livros de nosso agrado.
Nesta Colnia ou em Colnias assim, no h mais o to
comentado bnus-hora. Bnus-hora  uma forma de pagamento de
trabalhos prestados como um incentivo para ser til.  usado nas
Colnias de Socorro. Tudo o que se faz numa Colnia de Estudo 
por prazer, por vontade. E  sentida a imensa gratido por ali estar.
S quem almeja o Saber, ama o aprender, realiza-se numa Colnia
de Estudo. Para mim, foram dois anos de imensas alegrias, em que
tive o prazer de desfrutar a harmonia desta Colnia encantadora.

II
COLONIA TRIANGULO, ROSA E CRUZ

Lembrei dos ensinos que ouvi de meu pai e que s vim a
compreender agora, aps tanto estudo.  um ensinamento sobre
sintonia e unidade.
A lagarta, na sua estafante peregrinao pelo solo e galhos
 caa de folhas, no se descuida um segundo sequer da sua unio
com a natureza. No trmino do seu tempo como lagarta, procura um
local adequado, fecha-se em si mesma e entrega-se ao Criador.
Findo o tempo necessro, renasce como borboleta com vida e ao
completamente diferentes da sua vida anterior. Que fantstico! Que
exemplo nos d esta filha da natureza.
Com os homens, os acontecimentos se tornam complexos. A
maioria tem contornos de dor e sofrimento. Perdemos a sintonia.
No sabemos mais confiarno Criador. Afastamo-nos, e desta forma
ficamos fragmentados, separados do centro comum, que  Deus.
Conseqentemente nos agarramos  forma atual, impermeveis
a modificaes naturais. S  custa da ajuda de irmos dedicados
conseguimos pouco a pouco atingr estados que poderiam ser
atingidos quase de imediato.
Com a morte do corpo fisico, se socorridos em Postos de
Socorro, levamos conosco costumes, vcios, condicionamentos de
comida e bebida, at supersties e sectarismo religioso. O que
a lagarta faz inconscente, temos que realizar conscentes. Aos
poucos, vamos abandonando as necessidades de alimentao,


A casa do escritor 19

depois aprendemos a nos comunicar atravs da lngua universal.
Ultrapassando, no necessitamos de smbolos da linguagem. Comunicamo-nos
com vibraes mentais, chegando assim bem prximos
do silncio verbal e mental, quase prontos para neste silncio
ouvir o que Deus tem a nos dizer.
Foram feitas vrias excurses durante o curso a outras
Colnias, Postos de Socorro, no Umbral, hospitais, lugares que j
descrevi no livro "Vivendo no Mundo dos Espritos". Encantei-me
de modo especial com as excurses a outras Colnias de Estudo e
as do Plano Superior, onde passamos horas de agradvel convvio
e inebriados com tantas belezas.
Foi enorme alegria para o meu corao visitar a Colnia
e Tringulo, Rosa e Cruz. Esta Colnia  intermediria entre o
riente e o Brasil.  uma Colnia habitada por orientais e brasileiros,
visando um aprendizado maior entre as duas culturas, principalmente 
a sabedoria que une a Deus.
No  fcil descrev-la para os encarnados.  algo deslumbrante, 
belezas que encantam. Est no espao ao centro do Brasil
no muito longe da Colnia Nosso Lar, um pouco mais acima para
o Norte. Esta Colnia  localizada pela vibrao. Quando se quer
encontr-la, concentra-se e se  atrado para ela.
Samos para visit-la, ns, os quarenta alunos, um instrutor
e um morador oriental da Tringulo que viera para nos acompanhar.
Fomos volitando um ao lado do outro. Ao aproximar-nos, volitamos 
devagar para melhor apreciar o local. No espao onde est a
Colnia, o cu  mais azul, o ar mais puro e rarefeito. De longe, a
Colnia parece um enorme castelo sobre as nuvens. Um encanto! O
castelo  branco e brilha como uma delicada estrela.
- Parece que estou vendo um castelo de contos de fadas -
disse Hrcules, um colega.
Concordamos com ele.  medida que nos aproximvamos a
viso do castelo ficava mais linda. Tringulo, como  chamada, no
tem muro, as paredes so as divisas. No tem nenhuma proteo e
nem aparelhos de defesa.  que esta Colnia s  vista, encontrada,

20 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

pelos que vibram muito bem e sabem concentrar-se para se gui
pela sua vibrao.
Seu formato  de um tringulo, tendo em cada lado um
porto. Esta Colnia parece de cristal, tendo o brilho e a brancura
que do reflexos de muitas cores suaves. Nas paredes do lado de
fora, h desenhos em relevo e inseries. So desenhos de figuras
humanas em atitudes de orao e adorao ao Pai. Esta Colnia 
cpia das antigas, porm  uma das mais atuais Colnias do Oriente.
Colnias que existem h milnios. As inseries so orientais,
algumas frases so em Portugus. Frases que glorificam a Deus.
- S por ter visto isto me sinto realizada. Que maravilhaf
 - exclamou Lcia, outra companheira.
Tem sete torres arredondadas, sendo trs mais altas. Seus
telhados so em trngulo e so de tonalidades azul-clarinho,
parecem ser tambm de cristal. Paramos na frente do porto
principal.
- Vamos, por favor, ficar observando mais um pouquinho
- pediu extasiado Fbia.
Era a vontade de todos. Passei a mo devagarinho na parede,
senti o slido da construo e pude observar de perto a delicadeza
e a perfeio de seus desenhos. O porto  diferente dos quej vira
no mundo espritual,  muito bonito. No  feito de nenhum metal
que encarnado conhece,  dificil compar-lo.  grande e tem um
enorme emblema de formas perfeitas idealizado por um excelente
artista. O emblema  de um branco puro um pouco diferente do
branco que enxergava quando encarnada. Este emblema sobressai
de tal forma que, ao v-lo, parece que s o vemos. Um encarnado,
ao v-lo, pensaria que  feito de pedras preciosas.
O oriental que nos acompanhava aguardou tranqilo que
observssemos a parte externa da Tringulo. Quando nos agrupamos
de novo, ele mentalizou por segundos e o porto foi aberto.
Certamente que sabiam que estvamos l fora, mas s foi aberto o
porto quando o oriental mentalizou. E a nossa primeira lio sobre
a Tringulo foi dada pelo nosso acompanhante.

A casa do escritor 21

- O porto s abre ou fecha por sintonia da mente de um dos
seus moradores.
- Genial! A mente aqui  como um controle remoto -
exclamou Hyolanda.
- Um controle de alta preciso que no falha - disse nosso
instrutor sorrindo.
- Aqui no escurece? J era para ser noite. Daqui d para ver
a noite logo ali. Esta Colnia no est vinculada  rotao da Terra?
- indagou Miriam, outra componente do grupo.
- Sim - respondeu esclarecendo nosso instrutor. - Tringulo
est na esfera que segue a rotao da Terra. De fato, daqui de fora
podemos ver o sol e a noite com suas estrelas. Mas a claridade na
Colnia  sempre amena, parece estar sempre numa manh de sol
de clima perfeito. No h iluminao artificial. Seus construtores
tambm fizeram a iluminao, que  sustentada continuamente
pelos seus habitantes.
Fomos convidados a entrar. Atravessamos um hall ou um
espao grande coberto, todo em tons de azul. O piso com azulejos,
ou mosaicos, algo parecido, que formavam lindos desenhos. Nas
paredes, inseries e desenhos em relevo de flores e animais.
Paramos para olhar. Peo desculpas aos leitores por no conseguir
descrever tantas belezas que o crebro fisico desconhece e no tenho
para certos objetos nem como comparar.
- Que verdadeiras obras de artes! - exclamou lnes encantada.
- Damos muito valor ao Belo,  harmonia perfeita da arte que
vem inspirada do Criador, para que todos ao contemplar possam
reverenciar o Pai a quem tudo devemos - falou respeitoso o oriental.
Dali, passamos a um ptio ao ar livre, com lindos canteiros
redondos, com flores que eu desconhecia. O piso entre os canteiros
parece ser de estrelas pequeninas, cintilantes, a brilhar ora uma, ora
outra. Nunca vira um jardim to lindo e nem flores de tamanho
encanto. Aproximei-me de uma flor que nos d leve lembrana da
nossa rosa. Uma flor brilhante, azul-clara, que exala um suave
perfume.
- Que delicioso perfume! - exclamei admirada.

22 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

- Esta flor, Patrcia- disse nosso instrutor-, exala o perfume
predileto de quem a cheira. Est aqui linda deste jeito, como todas
as outras, desde a inaugurao desta Colnia h muitos anos.
- Que maravilha!
Exclamei e tentei passar a mo na flor, que se afastou, seu
galho se ergueu para o outro lado.
- Oh! - disse baixinho a ela. - No quero lhe fazer nenhum
mal. Queira me desculpar, ia atrever-me a passar meus dedos nas
suas delicadas ptalas.
A flor voltou ao seu lugar, afastara-se pelo seu instinto mais
apurado. No me atrevi a aproximar-me mais dela. Flores so para
admirar, no para pegar. Por mim, no sairia mais daquele jardim,
encantada com suas plantas. Admirava cada flor com seus formatos
diferentes e cores harmoniosas. Mas o instrutor nos convidou a
entrar.
- Vamos visitar as salas de audincia.
Os sales so de rara beleza, simples, com lindos quadros,
nas paredes, de Jesus ensinando. Embaixo dos quadros, trechos dos
Evangelhos, principalmente de Mateus, do Sermo da Montanha.
Vasos de flores brancas esto sempre presentes, encantando o
ambiente. Os sales so amarelo claro. Em um deles, fomos
convidados a sentar nas confortveis poltronas e um dos orientadores
da casa veio nos abrilhantar com suas explicaes.
- Sejam bem-vindos  Tringulo, Rosa e Cruz, prezados
convidados.
Deu uma pausa e nos olhou sorrindo. Era oriental, fisionomia
tranquila, transmitia uma Paz que o tornava lindo. Vestia uma
tnca branca com emblema no peito, o mesmo que vimos no porto.
Muitos ali se vestem assim. Outros vestem roupas ocidentais, mas
predomina a roupa de cor branca.
- Primeiramente, quero lhes informar que esta Colnia no
est vinculada a religio nenhuma na Terra. Tem este nome porque
tringulo  o seu formato. A rosa, nome de uma flor que tiramos da
natureza numa linda manifestao de Deus. A cruz porque ns, os
orientais, queremos nos aprofundar nos ensinamentos cristos.

A casa do escritor 23

Aqui estamos com o objetivo de trazer nossos melhores e reais
conhecimentos  raa brasileira e com ela aprender cada vez mais.
Aqui estamos para servir, trabalhar entre os encarnados e os
desencarnados. E tambm preparar os ocidentais brasileiros para
reencarnar no oriente, levando a pases orientais ensinos cristos.
Agora, se quiserem fazer perguntas, estejam  vontade.
- Senhor, por favor, como devo dirigir-me a sua pessoa?
 - indagou Marystela. - Devo me dirigir ao senhor por mestre? Pai?
- Mestre  aquele que ensina, pai  o que orienta. Aqui
empregamos muito estas duas formas de tratamento. Minha cara
convidada, sinta-se  vontade para dirigir-se a mim como quiser.
Meu nome  Chuan.
- Mestre - disse Marystela sorridente -, est aqui h muito
tempo? Pretende reencarnar? Onde? No Brasil ou no Oriente?
- Estou h bastante tempo aqui e devo ainda permanecer por
muitos anos. No tenho data para reencarnar e devo retornar ao
corpo fisico no Brasil.
- Os moradores permanecem muito tempo aqui? - quis saber
Laura.
- S ficam mais tempo os orientadores. A maioria faz
rodzio, ficam aqui e em Colnias no Oriente. Muitos, aps um
curso, reencarnam.
- Os construtores desta Colnia foram somente orientais?
Esto ainda aqui? - indagou Ins.
- Sim, foram os orientais que a planejaram e construram. A
maioria veio somente para este evento e voltou ao Oriente. Alguns
ficaram e trs ainda esto conosco.
- Tem dado resultado este intercmbio? - indagou Murilo.
- Sim, tem dado. Embora nosso trabalho seja considerado
como uma grande plantao que no futuro dar doces e sbios
frutos.
Como ningum indagou mais, Chuan concluiu.
- Aqui temos tentado nos despir de todos os preconceitos.
Devemos ser todos iguais e esforar-nos para nossa melhoria.
Tanto que a orientadora geral desta casa nos tem dado inmeros

24 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

exemplos de bondade e dedicao. Esta Colnia foi construida
o intercmbio das duas raas e para tirar o melhor que h
para o Bem de todos ns. Os orientais que desejam reencarnar
no Brasil, aqui fazem cursos de lngua e costumes para melhor
orientao. Tambm orientamos os brasileiros que querem reencarnar
no Oriente. Nosso principal objetivo  nos realizar interiormen te,
levar com nossos exemplos outros a faz-lo. Somos todos irmos,
devemos aprender a nos amar como tais.
- Que agradvel palestra! - exclamou Lcia. -  to simples
e cativante, poderia ficar a ouvi-lo por muitas horas.
Concordamos com ela, mas nossa excurso tinha que seguir
o horrio j organizado. Fomos ver outro salo, o de msica. Uma
suave e delicada melodia se ouvia. Muitos dos moradores
estavam desfrutando de suas horas de lazer a escutar to encantadoras
melodias.  uma sala diferente, agradvel, com lindos
quadros na parede exaltando a msica. S se escutam canes do
mundo Espiritual.
Ao passarmos pelo ptio, vimos um grupo de encarnados
entrando no salo. Admramo-nas, surpresos. Uns estavam extasiados
com tantas belezas, outros, talvez acostumados, estavam
normalmente, uma minoria parecia um pouco alheia. O oriental que
nos acompanhava esclareceu.
- So encarnados filiados a nossa Colnia. Seus corpos :
Bsquicos esto dormindo. Sempre estamos recebendo grupos de
encarnados. Aqui so trazdos para receberem orientaes e ,
incentivos.
- Todos os filiados da Tringulo conseguem xito nas
encarnaes? - indagou Murilo.
- Gostaramos que todos fossem bem sucedidos. A luta 
igual para todos. Infelizmente h os que fracassam diante das
dificuldades do plano fisico.
O silncio desta Colnia  divino. No se faz barulho ao
caminhar. Pouco se fala. Quase sempre se ouvem conversas de
grupos de visitantes. Entre os moradores s se usa a telepata, a
comunicao pelo pensamento.

A casa do escritor 25

Fomos visitar a biblioteca da Colnia. Grande, espaosa e
silenciosa. Nada se escuta, com a nossa presena o silncio foi
quebrado com algumas expresses de surpresa e com algumas
perguntas. Suas estantes so trabalhadas, so do mesmo material de
que  construda a Tringulo. Parece cristal. So poucos os livros
de literatura brasileira. A maior parte dos livros so religiosos e de
cultura geral. O restante dos livros so orientais. Alguns so
traduzidos. H livros raros, uns grandes, outros em papiros. So
cpias de livros que se encontram nas Colnias Orientais. Infelizmente
no teramos tempo para l-los, s observamos.  a biblioteca
da Tringulo um lugar encantador.
Subimos em algumas torres. So to lindas! Pudemos
ampliar nossa viso, vimos a Terra de longe e de perto como se
estivssemos num avio, voando mais baixo. Para subir na torre
volita-se devagar.
Aps, fomos conhecer, ao lado direito, uma ala que se chama
Lar de Repouso.
- Aqui esto os recm-desencarnados que so filiados 
Colnia do Tringulo. Onde se hospedam por determinado tempo.
- Todos os filiados so socorridos e trazidos para c logo
aps a morte do corpo? - indagou Jorge Lus.
- No. Infelizmente s os que tm merecimento so socorridos
aps a morte do corpo e recolhidos no Lar do Repouso. H os
fracassados, estes tm por afinidades lugares a que fizeram jus. Mas
todos os filiados recebem nossa ajuda. Logo que possvel estes
filiados so orientados, s vezes, por certo tempo, em outras
Colnias. Quando aptos, trazemo-los ao Lar.
Esta parte nos faz lembrar as acomodaes das muitas
Colnias de Socorro. Tudo  simples e com muitas flores. Ali vimos
gua. Um pequeno e encantador chafariz que, alm de embelezar,
serve aos hspedes de alimento fludico. Nosso acompanhante
esclareceu.
-  o nico alimento que temos na Colnia. E est aqui no Lar
do Repouso porque os alojados necessitam desta nutrio. O resto

26 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

dos habitantes da Colnia no faz uso d'gua, nem de plantas.
Sustentam-se com o fluido vital do Criador.
A gua  igual  da Colnia de Estudo. No molha,  limpida.
O chafariz  de cristal ou algo que se pode comparar a esta pe
para os encarnados terem uma idia.  verde claro, tem fonna
simples. Os recm-chegados gostam de sentar-se a sua volta. Um
deles nos disse:
- S de ver o chafariz sinto-me alimentado.
Esta ala tem alojamentos onde os abrigados descansam.
Ficamos quarenta e sete horas visitando a Colnia, ouvindo
palestras e encantamo-nos com tudo. Observamos desde o teto, suas
paredes, o piso, suas flores, quadros, tudo nos maravilhava.
S podem visitar Colnias assim espritos que esto em
Colnias de Estudo. Indivduos mais esclarecidos e totalmente
edificados com o mundo dos Espritos. Fora do Lar do Repouso
ningum se alimenta e nem faz exerccios para se nutrir, pois isso
ocorre automaticamente. No se necessita descansar. Aprendemos
na Colnia de Estudo estes detalhes. Logo nos primeiros meses de
estudo, nem aps as excurses no Umbral necessitvamos de
descanso ou de nutrio.
Chegou a hora de nos despedirmos. As saudaes de Paz
foram mentais, olhamos sorrndo, fazendo reverncia com a cabea.
Ao atravessarmos o porto, volitamos perto um do outro. Olhei ;
para trs, a Tringulo realmente parece com um castelo de fadas. ..
Foi maravilhosa a excurso. Quarenta e sete horas de sublime
encantamento que ficaro guardadas para sempre na minha memria
perispiritual. Alegra!

III

Um RECORDANDO O PASSADO

Frederico, meu amigo desde os primeiros tempos de desencarnada,
vinha sempre me visitar. Conversvamos tranqilos pelos
jardins da Colnia de Estudo. Sabia que ramos amigos de outras
encarnaes. Somos espritos afins e  sempre agradvel t-lo por
companhia. Meu passado, a vivncia de outras encarnaes, visso
me  mente, primeiro em pequenos lances, depois em pedaos
maiores at formar um complicadojogo de quebra-cabeas. Numa
destas conversas com ele, pedi:
- Frederico, tenho recordado momentos de minha encarnao
anterior da qual sei que voc faz parte. Gostaria de record-la
toda. Voc me ajudaria?
- Quem recorda sozinho est apto a faz-lo. O passado a ns
pertence. Cada encarnao  uma caixinha fechada no nosso
crebro espiritual. Basta abri-la para recordar. Muitos o fazem
sozinhos, sejam encarnados ou desencarnados, outros necessitam
de ajuda. De fato, Patrcia, fao parte do seu passado. Vou ajudar
a completar seu quebra-cabea.
Olhou-me tranqilo, mas profundamente. As recordaes
vieram em seqncia como num filme que passava na minha prpria
mente.
Vivia feliz com minha famlia numa pequena e singela
cidade. Tinha por me o mesmo esprito de Anzia que  minha
genitora nesta. ramos pobres mas trabalhadores. Romntica,
sonhava com meu prncipe encantado. Um dia, ao visitar meu
padrinho, um senhor rico da regio, dono de propriedades, conheci

28 Vera Lcia Marinzeck de CARVALHO

Frederico, um jovem mdco, muito bonto, louro com traos
delicados, sorriso franco, que residia na cidade vizinha. Ele estava
hospedado na casa do meu padrinho, eram conhecidos, viera para
visit-los. Eu completara na poca dezesseis anos e nunca havia
namorado. Quando olhei para ele, ao sermos apresentados, meu
corao disparou, o amor antigo de outras existncias ressurgiu
forte. Frederico tambm me amou assim que me viu. Ficamos
conversando, depois ele me acompanhou at minha casa. Combinamos
encontrar-nos no dia seguinte  tarde. Aps uma semana de
encontros escondidos, Frederico foi  minha casa e pediu permisso
ao meu pai para me namorar.
- Voc  linda, Rosela! - dizia ele, enamorado. Chamava-
me Rosela na existncia anterior, Curiosamente. tinha os mesmos
traos que tive nesta encarnao e que tenho agora. Era loura, alta,
magra e com olhos azuis.
Dias depois, Frederico teve que voltar a sua cidade, mas
vinha sempre me ver. Apaixonados, resolvemos casar. Mas problemas
surgiram, eu era pobre e ele, rico e filho nico. Seu pai era um
abastado fazendeiro e no aceitou o nosso namoro.
- Rosela - disse Frederico -, meus pais no querem que eu
case com voc. Desejam para mim umajovem do nosso nvel social.
Mas amo voc e insisti. Concordaram, s que exigiram que voc se
afaste de sua familia e aps nosso casamento fiquemos morando
com eles.
- No posso, Frederico, afastar-me da minha famlia. Eu os
amo.
- Se quisermos ser felizes, necessitaremos fazer algum
sacrificio. Seno, nosso amor torna-se impossivel. Sou filho nico,
voc tem muitos irmos, seus pais no sentiro tanta falta de voc.
Diga a eles a proposta dos meus pais, sinto que entendero. Neste
mundo, sempre temos que renunciar a alguma coisa para sermos
felizes.
- Mas esta "coisa,"  minha famlia - falei indignada.
- Vocs podero se corresponder, trarei voc uma vez por
ano para v-los. S que eles no podero nos visitar.

A casa do escritor

o fato  que amava Frederico e no queria perd-lo. Falei
com os meus pais e eles, embora tristes, concordaram. Fui conhecer
os pais de Frederico. Eles no gostaram de mim nem eu deles, mas
tudo fiz para agrad-los. Os pais de Frederico eram instrudos,
ricos, moravam numa manso enorme que at me assustou. Amavam
demasiadamente o filho e no sabiam negar nada a ele, por isso
concordaram com nosso casamento. Casamos na capela da casa
deles, numa cerimnia simples que no foi assistida por nenhum
dos meus familiares. Frederico e eu estvamos felizes, estvamos
juntos, era tudo o que queramos. Estava bonita, no dia do
nosso casamento, vesti uma roupa que minha sogra mandou fazer
para mim.
Tivemos por dormitrio um belssimo quarto, era o lugar da
casa onde me sentia  vontade. Sentia-me encabulada perto dos
meus sogros, at dos empregados, era para todos uma estranha que
ali estava para educar-se. Tudo fiz para conquist-los, eles apenas
me toleravam. Perto de Frederico eles ainda eram educados, longe
do meu marido eram irnicos e estavam sempre me criticando,
lembrando da minha condio social inferior.
Isolava-me cada vez mais em nosso quarto. Para no ficar
sozinha e sem fazer nada, passei a ajudar Frederico como enfermeira.
Aprendi rpido e tornei-me uma boa ajudante. Animei-me mais
com o tempo preenchido. Gostava de ajud-lo. Frederico era bom
mdico, estudara Medicina na Frana, era atencioso e carinhoso
com todos. Sempre me tratou com carinho. s vezes, chateava-se
com a indiferena dos pais para comigo, mas acreditava que
acabariam por me aceitar, to logo tivssemos filhos.
Durante o tempo que estive casada s vi meus familiares duas
vezes em visitas rpidas, mas nos correspondamos regularmente.
Dois anos aps meu casamento, minha sogra desencarnou.
Pensei que minha vida fosse melhorar, porque era ela quem mais me
ofendia e tinha cimes de mim, mas no. Meu sogro, Sr. Nicsio,
queria netos. E comeou a nos cobrar diariamente. ele queria a
continuao da famlia, queria herdeiros. Porque, se Frederico no
tivesse filhos, a fortuna iria para parentes indesejveis. Frederico e

30 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

eu tambm queramos filhos. A cobrana era tanta que esta
desesperada e no conseguia engravidar.
Ajudando Frederico, vi o quanto ele era bom, caridoso;.
cuidava dos pobres e ex-eseravos sem cobrar e at lhes dava
remdios e alimentos. Amava-o muito, mas no era feliz. Sentia
falta de minha famlia, de minha casa, no me sentia bem naquela
enorme manso. Tinha um medo terrvel de no engravidar e,
tambm, porque Frederico era muito ciumento no gostava que eu
conversasse com ningum.
Aps quase quatro anos que estvamos casados, ia completar
vinte e dois anos, fatos novos aconteceram. Vieram nos visitar
e conosco ficaram hospedados os padrinhos de Frederico, com um
casal de filhos. A filha mais velha, Hortncia, era uma moa muito
educada, instruda e muito bonita. Logo que chegaram, o casal ficou
doente. No comeo parecia uma gripe forte. Porm, Frederico
constatou apavorado que era crupe. A difteria no tinha cura
naquela poca e quase sempre levava  morte. Frederico isolou-os
numa parte da casa e exigiu que eu e sua ama Maria fssemos cuidar
deles. Mara era uma preta, ex-eserava que sempre cuidou dele, os
dois eram muito amigos. Eu no quis ir, Frederico insistiu, eram
os doentes nossos hspedes e seus padrinhos. Era a pessoa indicada,
j que aprendera muito trabalhando com ele. Meu sogro intrometeu-se
na conversa e disse com ronia:
- Voc no serve nem para me dar netos, v se faz algo til.
Fui, contrariada. Maria e eu tomamos todas as precaues
devidas para no contrair a doena. O filho, um menino de dezesseis
anos, tambm ficou doente. Depois de alguns dias enfermo, o casal
acabou morrendo. Hortncia estava triste e Frederico dava muita
ateno a ela, fiquei com cimes. Estava cuidando do mocinho,
quando senti, apavorada, os sintomas da doena. Adoeci. Maria
cuidava com o carinho de sempre de mim e do menino. Frederico
vinha me ver vrias vezes ao dia, sempre preocupado. Meu sogro
no me visitou. As vezes, Hortnciavinha ver o rmo. Estava triste,
chorosa e Frederico a consolava. Odiei-a. Ela sim, pensava, era a
nora desejada, a esposa que um mdico merecia. Achei que

A casa do escritor

Frederico se arrependera de ter casado comigo, mandara cuidar dos
doentes para que adoecesse e ficasse livre. Estava magoada com
meu esposo, culpava-o por ter adoecido. Senti muitas dores fisicas,
mas a dor moral e a raiva eram maiores. Sentia-me desprezada e
sozinha. Desencarnei com muita agonia, com dio de Hortncia e
de Frederico.
Fui atrada para o Umbral por vibrar igual. Estava revoltada
por ter desencarnado jovem, no lembrei de Deus, nem de orar.
Durante muitos anos vaguei com rancor pelo Umbral. At que um
dia um homem me falou:
- Voc no  Rosela, a nora do Nicsio, aquele carrasco?
- Sou.
- Por que est aqui? Gostava do seu sogro?
- No.
- Voc no quer ir a sua casa terrestre? As coisas mudaram
por l.
- Posso ir para casa? No sei como.
- Levo voc, mas se prometer ajudar a nos vingarmos de
Nicsio.
- Prometo.
Assim, fui levada por ele a minha antiga casa. Quando
vagava perdi a noo do tempo, s vezes achava que fazia muito
tempo, outras, meses somente.  horrvel vagar pelo Umbral. Tive
uma grande surpresa ao ver minha ex-famlia. Frederico estava
casado com Hortncia e tinham trs filhos, o mais velho, um menino
de nove anos chamado Nicsio, igual ao av, e duas meninas de sete
e cinco anos. Pareciam todos muito felizes. Frederico e meu ex-sogro
adoravam o pequeno Nicsio. Odiei a todos.
- Ento foi mesmo para que morresse que mandou que
cuidasse dos doentes! - queixei-me rancorosa. - Queria casar com
Hortncia e ter filhos.
Os outros espritos que ali estavam, oito, queriam vingar-se
do meu ex-sogro. Este no foi boa pessoa, fez muitas maldades que
Frederico desconhecia. Incentivada por eles, resolvi vingar-me.
Escolhi o filho de Frederico para obsediar, este era sensvel, um

32 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

mdium. Escolhi porque achei que, fazendo o menino sofrer, meu
ex-sogro, Frederico e Hortncia sofreriam juntos. Tinha razo.
Comecei logo a executar meu plano de vingana. Colei-me a
ele. Logo o pequeno Nicsio foi prostrando, adoentou. Frederico
preocupado no achava a causa de sua fraqueza. O menino foi
piorando. Levaram-no a outros mdicos, a cidades maiores, tomou
muitos remdios e piorava sempre. Por dois anos ali fiquei sem me
afastar um segundo. Trocando energias com o garoto, sentia-me
melhor e mais animada. Tinha o objetivo de me vingar e era
incentivada e aplaudida pelos outros, que tanto como eu queriam a
infelicidade dos moradores da casa, principalmente do Sr. Nicsio.
Para aumentar minha revolta, narraram com detalhes as infelicidades
que padeceram por causa do av do menino. Ali estavam
somente alguns a quem ele havia feito terrveis maldades, muitos o
perdoaram. Eram ex-eseravos, colonos, pequenos proprietrios de
terra, at uma mulher que foi seduzida e abandonada por ele. Nossa
permanncia tornou-se fcil porque naquele lar no havia religio,
no se costumava orar, se oraes eram feitas, eram decoradas sem
serem sentidas.
Ria, ramos com a preocupao de Hortncia, com a tristeza
de Frederco e com o desespero do meu ex-sogro que tanto me havia
desprezado. Tudo me parecia normal, quando o pequeno Nicsio
contraiu crupe. Assustei. Tinha verdadeiro horror a esta doena. Vi
desesperada Frederico angustado examinar o filho e dizer:
-No, de novo! Crupe, doena ingrata que leva meus afetos.
Primeiro a esposa adorada, agora meu filho!
Sa de perto do garoto, mas no da casa. Apavorei-me pela
primeira vez, raciocinei sobre o mal que estava fazendo. Fiquei
arrependida. Pedi auxlio aos espritos que ali estavam. Queria
curar o menino. No queria sua morte e nem a de ningum.
- Ajudem-me, por favor! No podem deixar que ele morra!
Piedade! - exclamei a chorar.
- Ora, que pensa voc que somos? - disse-me um deles. - S
Deus pode fazer o que nos pede. Voc pensa que o matou? No 
nada para isto. Todos morrem porque tm que morrer.

A casa do escritor

S Deus" - pensei. "S Deus para ajudar Mas como ach-lo?
Como pedir a Ele?
O menino piorou e desencarnou tranqilo. Estranhei, porque
ele no ficou ali. Vimos, os espritos obsessores e eu, uma luz
maravilhosa lev-lo.  que foi socorrido ao desencarnar.
Sofri muito. Sa daquela casa, retornei ao Umbral. Gritava
sem parar: "Sou assassina! Sou assassina!" Como me arrependi de
ter retornado quela casa. Fiz sofrer um inocente e ele desencarnou.
Pensava nisto o tempo inteiro. Como sofri. O remorso  como um
fogo que queima sem descanso. Andava de um lugar a outro no
Umbral sem descanso, chorando desesperada e repetindo: "Sou
assassina!
Como compreendo agora os que sofrem e vagam pelo
Umbral. Sofre-se tanto que no posso comparar com nenhum
sofrimento que se tem quando encarnado. Naquele tempo, quando
vagava, no lembrava de Deus, no queria, sentia imensa vergonha.
Achava que era indigna at de pronunciar Seu nome. Encontramos
quase sempre dois tipos de sofredores no Umbral. Um, como fiquei,
com remorsos destrutivos, achando-me indigna, merecedora de
castigo e envergonhada. Outros que se revoltam, acham que no
merecem o castigo, blasfemam e odeiam. Todos so infelizes e
carentes de auxlio. Os que sofrem, mas lembram de Deus, pedem
perdo, estes so mais fceis de serem socorridos.
Um dia, quando andava desolada, escutei:
- Senhora, por favor!
H muito no escutava algum se referir a mim em termos to
suaves e educados. Virei e observei. Vi uma suave luz, prestei mais
ateno, vi um vulto, sem distinguir quem era.
- Quero conversar com a senhora, venha aqui, por favor,
perto de mim.
Fui, sentamos numa pedra. Parei de gritar, aquieci como por
encanto.  que naquele momento sentia os fluidos de harmonia que
me doava o visitante. Conversei em tom normal e indaguei.
- Conhece-me?
- A senhora no quer falar um pouco de si? Por que est to
triste?

34 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

- No sei se devo... No estou triste, estou desesperada,
Sofro tanto!
Ele pegou a minha mo. Pela primeira vez desde que
desencarnei senti um pouco de paz.
- Fale-me da senhora. Que lhe aflge?
Comecei a falar, como o vulto parecia interessado narrei toda
minha vida. Chorava s vezes, mas meu choro desta vez era calmo
e sofrido. Por momentos, o vulto passou a mo, com imenso
carinho, na mnha cabea. Percebi que o vulto era de pequena
estatura. Uma criana talvez. No omiti nada, falar tudo me deu um
certo alivio. Quando acabei, ele me disse:
- Por que se atormenta assim? Sabe que no  possvel um
desencarnado matar um encarnado. Voc o obsediou, mas foi
porque ele aceitou. Teria o pequeno Nicsio como lio passar por
tudo isto. Por que voc no pede perdo a Deus e a ele? Tenho
certeza de que, se for sncera, ambos a perdoaro.
- Tenho vergonha. Como posso pedir perdo a Deus to bom
e justo pelo meu crime to feio? E Nicsio, como ach-lo? No me
perdoaria.
- Perdoaria sm.
- Como sabe?
- Porque eu sou o Nicsio.
Foi ento que o vi. O pequeno Nicsio lindo, risonho e
tranqlo. Olhava-me sereno. Quis fugir, mas ele segurou forte
minha mo.
- No fuja! Fique comigo. Quero tanto continuar conversando
com a senhora.
- Tenho vergonha.
Fez-se um silncio. Abaixei a cabea, mas fui olhando
devagar para ele. Continuava a me olhar sorrindo.
- No est com do de mim? - atrev-me a perguntar.
- No. No tenho dio, prefiro cultvar o amor.  bem
melhor.
- , deve ser - disse com voz baixa. E pensei: "Enquanto eu
odiava e sofria, ele amava e era feliz".

       A casa do escritor 35

- Por que no perdoa a si mesma? Voc no faria nada do que
fez de novo, no ?
- No! No faria! - comecei a chorar.
Nicsio esperou que me acalmasse para depois dizer:
- Voc foi imprudente, mas no foi m. Nada tenho contra
voc. Quero ajud-la.
- No mereo ajuda, sim, sofrer.
- J sofreu e muito. Permite que eu a abrace?
Ele me abraou com carinho. Senti
seu fluido. Ajoelhei a seus ps.
- Nicsio, pelo amor de Deus, me perdoe!
- Perdo-a! Venha comigo.
Levantou-me com carinho. Segui-o de mos dadas. Levou-me
a um Posto de Socorro. Como me senti bem neste local de
auxlio. Grata, era obediente, no gritei mais, s chorava de
arrependimento. Nicsio vinha me ver sempre, seu afeto sincero e
sua bondade me ajudaram muito. Logo melhorei. Quando tive alta
do Posto de Socorro, fui para uma Colnia aprender e trabalhar. Um
dia, Nicsio me levou ao meu antigo lar.
L nos esperava Hortncia que tambm havia desencarnado
dois anos aps o filho. Ao v-la envergonhei-me. Como  triste ter
de enfrentar os que prejudicamos. Mas ela me abraou com tanto
carinho que logo me senti  vontade. Sentamos na varanda para
conversar.
- Rosela, seu dio, seu rancor no teve razo de ser, se
tivesse procurado entender, compreender, tudo teria sido mais fcil
a voc. Frederico sempre a amou. O remorso muito o tem castigado.
No fez por mal ou com inteno de prejudic-la. Pensava que voc
com os conhecimentos de enfermeira e sendo to forte no adoeceria.
Sofreu tanto com seu desencarne! Tempos depois casamos por
convenincia. Fomos, somos somente amigos. Sempre fui apaixonada
por outro homem. Adolescente, apaixonei-me por um moo
pobre, e nos encontrvamos escondidos. Meu pai, ao saber, mandou
mat-lo. Sofri muito. Quando meus pais e meu irmo desencarnaram
fiquei sozinha. Frederico e eu nos consolvamos mutuamente.

36 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

Casamos para ter filhos. Tivemos uma vida tranqila e falvam
sempre dos nossos amores. Mas, Rosela, sofri muito com tudo
por todos.
Chorei baixinho. Agora no estava perturbada, mas o remorso
no me abandonou. Vi o tanto que fui imprudente. Hortncia
sofreu tanto e eu agravei seu sofrimento obsediando o filho.
- Perdoe-me, Hortncia.
Ela me abraou carinhosamente.
Rever Frederico me emoconou muito. Entendi que ele
sempre me amou. Estava vivo por duas vezes e no pensava en
casar novamente, de fato no o fez. Amava e dedicava-se cada vez
mais  Medicina. O poro da casa era um pequeno hospital cheio
de doentes pobres. O Sr. Nicsio estava louco com a morte do neto
que adorava, e os obsessores puderam atorment-lo. Quis ajud-lo
Incentvada por Hortncia e o menino Nicsio, me fiz visvel a eles
aos obsessores, pedi, implorei que o perdoassem e viessem conosco
Falei a eles o que ocorrera comigo e o tanto que era bom estar en
paz, das belezas dos Postos de Auxlio. Deram-me ateno, senti
que se interessavam, alguns vieram, outros no. Muitas vezes fui
at eles e tentei ajud-los como tambm auxiliar o meu ex-sogro.
pouco que fiz me deixou contente. Aps muitas conversas, todos os
obsessores vieram conosco. Mas o Sr. Nicsio tinha uma dolorosa
colheita, plantou muitos males. Quando desencarnou, o neto pde
socorr-lo. Demorou para se recuperar.
- Sabe, Rosela- disse uma vez o pequeno Nicsio. - Se voc
me obsediou foi porque eu aceitei. Por erro do passado, tinha como
colheita uma lio dolorosa. Por escolha minha, iria adoecer E
desencarnar jovem. Como obsediei desencarnado, queria passar
por uma obsesso para dar valor  tranqilidade alheia. Se no fosse
voc, iria ser um dos obsessores do meu av a me obsediar. Aprendi
muito nesta curta exstncia. Agora estou feliz. Como  bom estar
quites conosco mesmo, com nossa conscincia.
Frederico dedicou toda sua vida  Medicina e s duas filhas.
Desencarnou velho.
O tempo passou. Sentia vontade de reencarnar, estando apta,
pedi a reencarnao como bno para esquecer e para ter um

        A casa do escritor

recomeo. Minha me, reencarnada, ia engravidar. O Plano Espiritual
provocou um encontro entre ns duas. Pedi a ela que me
aceitasse por filha, falei que por aprendizagem ia desencarnar
jovem. Minha me aceitou, amava-me, ama-me.
Pela programao que escolhi, ia passar o que o pequeno
Nicsio passou. Reencarnaria num lar feliz, adolescente ia ficar
doente, ia passar de mdico em mdico, sofreria uma doena
incurvel e desencarnaria. Antes mesmo de Frederico desencarnar,
reencarnei. Hortncia e o pequeno Nicsio haviam reencarnado.
Mas no ia encontr-los, amos reencarnar em locais diferentes.
As lembranas findaram. Sequei as lgrimas do rosto,
recordaes sempre nos so penosas. Porm elas me deram um
alvio. Agora sabia de tudo. Olhei para Frederico que estava quieto,
acompanhando minhas lembranas. Olhou-me sorrindo e concluiu:
- Patrcia, depois que voc desencarnou, vivi de lembranas.
Casei com Hortncia, porque queria dar continuao  famlia,
sempre fomos amigos. Minha encarnao tambm no foi fcil.
Cuidei de minhas filhas, elas foram felizes, casaram-se e sempre
estiveram comigo. Trabalhei muito e fui bom mdico. Quando
desencarnei, fui socorrido e logo estava bem. Nunca deixei de estar
com voc.
- Frederico, no ia ficar doente? Desencarnei com sade.
- Patrcia, doenas so miasmas negativos que so queimados
pela dor ou pela bondade, pela sinceridade, pela transformao
interior para melhor. Voc queimou estes miasmas pela segunda
opo. Voc se transformou interiormente para melhor. E seu corpo
no adoeceu.
            - Frederico, quando pequena tive difteria. Sarei, a doena
no teve conseqncias.
- Voc trouxe pelo remorso os miasmas da doena no
perisprito que transmitiu ao corpo.
- Remorso por ter o pequeno Nicsio desencarnado com esta
doena. Tambm porque, quando a tive, no aceitei, sinto que
necessitava desencarnar daquela forma. Sofri com a doena, mas a

38 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

no aceitao no deixou que queimasse todos os miasmas que
trazia comigo.
- Voc, na encarnao anterior, como Rosela, ia desencarnar
jovem, amo-nos separar para um aprendizado necessrio pelos
erros cometidos anteriormente.
- J estivemos juntos mais vezes?
- Sim.
Naquele momento saber desta me bastava. Meditei sobre
tudo e indaguei a Frederico, tirando a ltima dvida.
-No fiquei doente, no poderia tambm ter ficado encarnada
por mais tempo?
- Voc no quis. Quem vai  Terra pela encarnao e volta
no tempo certo, pode se dar por feliz. O corpo lhe era uma priso
que voc abenoou e deu o devido valor. Com o tempo vencido era
justa sua absolvio.
Frederico me deixou no meu gabinete. Fensei muito em tudo
que recordei e desejei ver o pequeno Nicso. Na primeira oportunidade,
pedi a Frederico, que me atendeu. Marcamos dia e hora para
que pudesse rev-lo.
No dia marcado, voltamos para a Terra. Descemos numa
cidade do interior muito singela e agradvel. Entramos numa bonita
e confortvel casa.
- Aqui est Hortncia - disse Frederico. - Est casada com
seu eterno apaixonado, o rapaz que o pai mandou matar no passado.
Nossa Hortncia, que atualmente tem outro nome, est feliz e tem
por irmo o pequeno Nicsio que agora se chama Nelson. Venha,
vamos v-lo.
Para minha surpresa, entramos num simples mas agradvel
Centro Esprita. Reconheci logo que o vi.  um homem, jovem
ainda, muito bonito, fisionomia tranqila. Estava orando concentrado.
Aproximei-me dele, ajoelhei ao seu lado e beijei-lhe as mos.
Frederico segurou minha mo e me levantou.
- Vamos assistir  sesso. Fiquemos aqui. Nelson agora ir
trabalhar.  um mdico de profisso e dentro do Espiritismo um
mdium ativo.

    A casa do escritor

Envergonhei-me do meu rompante. Fiquei quieta no lugar
indicado. A reunio da noite foi muito bonita e proveitosa. No final,
Frederico incorporou ajudando, aconselhando os encarnados presentes.
Nelson emocionou-se. Amava aquele esprito, um mdico
chamado Frederico que ia regularmente ao Centro Esprita ajudar
a todos. No me atrevi mais a me aproximar de Nelson. Quando
terminou, Frederico foi abraado e cumprimentado pelo pessoal
desencarnado da casa. Logo em seguida, convidou-me a partir.
- Frederico- disse -, como gostaria de ajudar Nelson. Como
queria retribuir o que ele fez por mim.
- Patrcia, Nelson no necessita desta ajuda paternalista que
voc almeja lhe dar. Ele  esprito que cresce e progride. Depois,
Patrcia, quem perdoou no  carente de ajuda. Voc poderia, por
sentir-se devedora, o que no tem razo de ser, querer fazer o que
compete a ele fazer. Nelson  bom. correto, luta e cresce, talvez
porque os problemas que aparecem sejam por ele mesmo solucionados.
Poder, sim, seguir o exemplo que ele lhe deu e fazer o bem
para        aos que carecem de ajuda. Nem sempre  possvel retribuirmos o
bem recebido ao nosso benfeitor. Mas, como a ns foi feito,
devemos fazer a outros.
Compreendi.
Minha gratido pelo pequeno Nicsio, por Nelson,  grande.
Aprendi a reverter minha gratido em vibraes carinhosas que
remeto a ele todos os dias. ComNelson aprendi que sempre devemos
fazer o Bem, mesmo para aqueles que nos fizeram mal. Porque o
bem realizado a ns mesmos retorna, nos tornando auto-suficientes
e fazendo-nos teis cada vez mais.
O passado est em ns e no podemos mud-lo um pingo que
seja. Mas podemos, sim, tirar lies para o futuro e entender o
presente. As recordaes fizeram com que eu ficasse mais grata e
entendesse os que sofrem, principalmente os que vagam pelo
Umbral, os que se consomem pelo remorso. Motivaram-me a ser
melhor no futuro. Do passado, devemos tirar s lies que nos
ajudaro a progredir sempre.

IV A CASA DO ESCRITOR

Que prazer nos proporciona fazer algum trabalho sem
estarmos esperando ou condicionados a um pagamento, ou agradecimento
de outras pessoas.
At ento, desde o meu desencarne recebera incessantemente
amor, carinho, conhecimentos e uma oportunidade atrs da outra.
Sempre que terminava um curso, meus fraternos amigos j providenciavam
outro. Sentia-me feliz e desejosa de transmitir esta
felicidade a outras pessoas, de gritar ao mundo tudo o que eu sabia
e vivia, sonhando com a hiptese de que todos iriam aceitar o que
dizia, comungando comigo toda alegria e felicidade de que era
portadora.
O curso na Colnia Casa do Saber terminou com o mesmo
clima de alegria e harmonia que houve em seu decorrer. Cada um
de ns, agora, deveria fazer uma atividade diferente, muitos iam ser
instrutores nas Colnas de Socorro. Congratulamo-nos uns com
os outros, felizes por termos realizado mais uma etapa da nossa
vivncia espiritual.
Particularmente, estava radiante. A Casa do Saber estaria
sempre nas minhas recordaes e voltaria sempre l para rever os

 N.A.E. - Denominamos Colnias de Estudo aquelas onde h somente escolas.
Colnias de Socorro so aquelas onde h tambm os hospitais e onde so
internos
os recm-socorridos, como a Colnia So Sebasto que j descrevi em livros
anteriores e a to conhecida Colna Nosso Lar.

A casa do escritor

professores e a Colnia. Estvamos sempre reencontrando os
amigos. Os mais chegados trocavam informaes de onde estariam
para se reencontrarem.
Numa cerimnia simples, mas agradvel, ns nos despedimos.
Fui visitar a Colnia So Sebastio e fiquei na casa da vov.
Revi meus amigos. Como  gostoso estar com os que amamos,
trocar idias e informaes. Pude estar perto das minhas violetas
que continuavam lindas e floridas. Sempre sinto muita Paz ao estar
com elas. So um pedacinho de minha me perto de mim. Aproveitei
os dias livres que tive para tambm rever amigos e familiares
encarnados.
Logo ia comear uma nova atividade, recordei uma conversa
agradvel que tive anteriormente com meu amigo Antnio Carlos.
Ele estava sempre me incentivando para que me dedicasse 
Literatura.
- Patrcia, escreva aos encarnados suas experincias - dizia
entusiasmado. - Aprender muito com este trabalho. Com sua
narrao, brindar os encarnados que gostam da leitura edificante,
contando o que  a vivncia no mundo dos Espritos para uma
pessoa que, encarnada, foi Esprita fervorosa e praticante. Dar,
com seu exemplo, incentivo aos bons Espritos. Os encarregados na
espiritualidade da divulgao da Doutrina Esprita almejam mandar
para os encarnados relatos de um desencarnado que teve
conhecimentos do Espiritismo, quando no corpo fisico. Mostrar
nestes eseritos como  fcil a desencarnao e a adaptao dos que
retornam  Ptria Espiritual com conhecimentos verdadeiros e
isentos de erros. Os bons espritas esto necessitados de motivao
e da confirmao do ensinamento que est no Evangelho Segundo
o Espiritismo, no captulo XVIII - "Aos espritas, portanto, muito
ser pedido, porque muito recebem, mas tambm aos que souberam
aproveitar os ensinamentos, muito lhes ser dado".
- Bem, se voc acha realmente que devo tentar, necessito
aprender, porque sei que no basta boa vontade para fazer algo bem
feito.

42 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho I Patrcia

- Tem razo. Necessita aprender, estudar para realizar este
trabalho. No se deve fazer sem este preparo, nem sem autorzao
dos espritos encarregados deste setor. Treino j tem. Ao ditar
mensagens aos seus pais, neste tempo, treinou. Este treino  para o
melhor entrosamento entre o mdium e o desencarnado que ir
escrever ou ditar.
- Todos que ditam livros pela psicografia fazem este estudo?
- Devera ser assim. Quando o desencarnado quer, realmente ,..
ele faz sem o visto do pessoal encarregado do bom desenvolvimento
literrio.
- Os que querem se exercitar com a psicografia tm muito
trabalho?
- Patrcia, no se faz nada bem feito sem esforo, trabalho
e perseverana de ambas as partes, a encarnada e a desencarnada.
Veja o exemplo de sua tia Vera, estudou muito a Doutrina, treinou
nove anos para escrever o primeiro livro. Enquanto ela se preparava,
eu tambm me preparei, estudei, fiz e fao parte desta equipe
literria. Tudo que escrevo  passado pela censura desta casa, para
depois ditar  mdium. Este ditado  feito no mnimo trs vezes, para
que aps seja editado aos encarnados. Todos os que querem fazer
um trabalho edificante, de boa vontade, espontaneamente, se submetem
 apreciao desta equipe.
- So muitas as casas, Colnias, que se dedicam a este
trabalho?
- Muito se trabalha para ter uma Colnia deste tipo no
espao espiritual de cada pas. Temos uma que coordena o trabalho
de todas que se chama "Manso dos Intelectuais", da qual faz parte
Allan Kardec. Esta manso lindssima  mvel como todas as outras
que seguem sua orientao. J tivemos oportunidade de t-la muitas
vezes no espao brasileiro. Muitos bons escritores brasileiros
trabalham nela. O objetivo principal  incentivar os que queiram
fazer a Literatura que educa na boa moral e motivar todos a apreci-la.
Todos ns vibramos com as boas obras editadas. Aqui no Brasil
temos A Casa do escritor.

A casa do escritor

- A Casa do escritor?! Que bonito nome!
- Voc ir gostar dela. L estudar por dois anos. Dedicar-se-
ao estudo de como escrever, o que escrever e para quem
escrever.
- Esta casa  dedicada s aos escritores?
-Apesar de se chamar assim, dedica-se a toda boa literatura.
Quando foi criada, seu objetivo maior era formar bons escritores em
cursos que existem at hoje. Seus trabalhos foram aumentando.
Atualmente d assistncia aos seus pupilos, quando encarnados.
Orienta todos que querem educar, instruir, informar sobre o
cristianismo e sobre a boa moral. D assistncia s editoras que
trabalham com bons livros e estende esta ajuda a todos que se
dedicam a divulgar e vender estes livros.
- Certamente os livros Espritas fazem parte da assistncia
desta casa?
- Com carinho primordial. Desde que o Espiritismo surgiu,
tm seus livros educado, fazendo progredir inmeras pessoas.
Tratamos, na Casa do escritor, com toda ateno que merece a
Literatura Esprita e todos os que trabalham com ela.
Desde que tivemos esta conversa, ansiava por conhecer esta
Colnia que cuida com tanto amor da Literatura Esprita que
sempre amei. No tomei a deciso de ditar aos encarnados sem antes
pensar e ouvir amigos. Fui incentivada por todos eles. Matriculei-me
no curso. No foi preciso ir  Colnia para isto. Da Casa do
Saber mandei, por um aparelho, parecido com um fax dos encarnados,
meu histrico e pedido de matrcula. A resposta me aceitando
veio de imediato. Era s aguardar o incio. Tudo que se marca data
chega. Antnio Carlos fez questo de me acompanhar. Convite que
aceitei prazerosa. Contente, fui conhecer a to falada Colnia.
A Casa do escritor no tem sistema de defesa. Parece estar
flutuando no espao. Que viso maravilhosa  v-la cercada de
rvores e flores.
- A Casa no  atacada? - indaguei curiosa.
- Muito raramente. Quando  sentida a aproximao de
irmos ignorantes que vm com inteno de atacar e perturbar,

44 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

alguns moradores saem para o ptio e enviam ondas mentais que
neutralizam tanto os atacantes como as suas armas. Isto  possvel
porque na casa esto somente espritos equilibrados e harmoniosos.
- Que linda! - exclamei, ao descermos no seu ptio da frente.
Olhando-a pareceu uma imensa manso, onde a tranqilidade se faz
presente. Observei-a por um tempo me extasiando com tanta Paz.
Suspirei feliz.
Toda a Casa est rodeada de ptios com muitos canteiros
floridos e pequenas rvores, iguais s que vemos na Terra. Tudo me
encanta de um modo partcular. rvores e flores so sadias, bem
cuidadas, so respeitadas. Na Casa do escritor predominam as
flores brancas. Como  gostoso olhar um canteiro florido, sentir
a energia das flores. Observava suas formas, sentia o seu perfume.
Quem gosta da natureza, fica deslumbrado com os jardins do
Mundo Espiritual. Quem ama o local, sente o quanto ele  belo. 
s observar e achar as belezas, o encanto das coisas simples.
A manso  de uma beleza nca, apesar da sua simplicidade.
A sua viso nos induz  comunho de conhecimentos, trazendo-nos
lembranas das edificaes da Grcia antiga. A construo 
beginha clara, com inmeras colunas brancas de uns vinte centmetros
de dmetro. As colunas esto ao redor da construo toda,
dando um encanto especial  Colnia. O telhado  um tringulo
vermelho, lembrando realmente as casas bem cuidadas e bonitas na
Terra. Do ptio, sobe-se trs degraus at a rea com as colunas. Esta
rea tem dois metros e meio de largura, aps, as paredes. Subi os
degraus e no resisti: abracei uma coluna.
- Que lugar de encantos mil! - exclamei.
-De fato  cativante-disse meu acompanhante. - Identifico-me
plenamente com esta casa.
- Que desenhos magnficos!
Corri at as paredes para observar melhor. Nelas, desenhadas
em relevo, mas da mesma cor, gravuras que mostram trechos da
literatura antga. So quadros fascinantes que se pode passar horas

45 A casa do escritor

contemplando. Os mais interessantes para mim so os desenhos
sobre a Bblia, em especial os de Moiss escrevendo parte do Antigo
Testamento. O piso nesta rea entre as colunas e as paredes  de um
vermelho clarinho, brilhante e tambm contm gravuras maravilhosas
da histria antiga. Como  agradvel observar quadro por
quadro, analsando seus detalhes perfeitos.
- Aqui estamos - disse Antnio Carlos, sorridente. - No seu
novo lar.
- Mora aqui tambm?
- Sim, tenho minha sala onde escrevo. Amo a Literatura
Esprita e esforo-me para participar de sua divulgao. Gosto de
modo especial das reunies que a Casa promove.
Olhando de frente, vemos vrias portas. Algumas estavam
abertas.
- Estamos sendo aguardados nesta sala - disse meu amigo,
despertando-me do xtase da contemplao da casa.
Caminhamos para uma das portas abertas. Entramos. Defrontei-me
com uma sala agradvel, no muito grande, enfeitada
com quadros e vasos de flores. Os quadros no Mundo Espiritual so
realmente lindos, pinturas de artistas que se pode ficar horas
contemplando. Na Casa do escritor h quadros exaltando a leitura
e a eserita. Obras de arte encantadoras. As janelas so delicadas e
redondas, algumas, com vidros coloridos e claros, esto do lado
contrrio ao da porta. Na sala havia algumas poltronas confortveis.
Um grupo animado conversava em p. Antnio Carlos conhecia
algumas pessoas presentes, porque assim que entramos foram
cumpriment-lo e tambm a mim. Sentia-me  vontade e logo estava
conversando.
Com a chegada de todos, comeou a palestra. Havia na sala
trinta pessoas. Fomos convidados a sentar.
- Atualmente, sou diretor desta casa. Digo atualmente
porque, aps um acordo entre todos os moradores, fazemos rodzio
no cargo de orientao. Sejam bem-vindos! Aqui estamos reunidos,
professores, alguns convidados e os candidatos aos dois cursos que
logo iniciaro. O primeiro  para os que desejam ditar a encarnados,

46 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

por meio da psicografia. Como tambm h os que desejam inspirar,
sem serem notados, os encarnados nos seus trabalhos eseritos.
O segundo curso  para os que querem preparar-se e estudar para
encarnar e, quando encarnados, dedicarem-se  lteratura edficante.
Espero que gostem tanto da nossa casa como dos cursos
escolhidos. E sintam aqui como se fosse o prprio lar. Aqui esto-
os professores do primeiro curso, professor Aureliano e professora
Maria Adlia.
Que smpticos eram meus professores, gostei muito deles,
Aps apresentou os professores do segundo curso. Pediu que cada
um de ns se apresentasse. Fiz com alegria. ramos oito a fazer o
primeiro curso. Este s nicia quando termina o outro. Assim, s
de dois em dois anos tem incio. Sabemos tambm que nem todos
os que concluem o curso tm oportunidade de ditar a um
mdium. Alguns o fazem mais para ter experincias, por gostar, ou
at mesmo se preparando para serem mdiuns psicgrafos, ao
encarnarem.
Depois de o diretor ter falado sobre algumas normas da casa,
ele pediu a um dos professores que fizesse uma orao. As oraes
espontneas feitas por aqui so simples, normalmente curtas, mas
sinceras e comoventes.
Numa atitude de espontnea fraternidade, fomos convidados
a conhecer a Colnia. A Casa do escritor  considerada uma
Colnia pequena. As portas que do acesso  manso nos levam aos
sales, menos a do meio que leva ao interor da casa. As salas so
todas parecidas, muito agradveis, enfeitadas com lindos quadros
e flores brancas. Duas destas salas se destacam pelo seu tamanho.
- Estas salas so para palestras, encontros que a casa
promove com todos os seus filiados encarnados e desencarnados
disse o diretor.
- Pelo nmero de salas deve haver muitas reunies
- comentou um dos alunos.
- Tem razo. Estamos sempre trocando ideias, promovendo
eventos, organizando tarefas. Reunimo-nos com grande fraternidade
em conversas edificantes.

A casa do escritor 47

Adentramos um amplo corredor que nos levaria ao interior
da Colnia, ultrapassando as salas, e defrontamos com um agradvel
e delicado ptio para onde as janelas dos sales do acesso. Os
ptios se assemelham, todos tm muitos encantos. Seguimos pela
galeria.
Para melhor memorizao do leitor, diramos que as salas
de aula, a biblioteca e a sala de vdeos esto localizadas na
segunda ala.
Aps as salas, deparamos com um novo ptio, semelhante ao
segundo que vimos.
- Nesta parte, esto as salas particulares. Todos ns, moradores
da casa, professores, alunos e filiados desencarnados, temos
um lugar particular, um cantinho s para ns
- explicou bem-humorado o diretor.
Tanto a ala direita como a esquerda so providas de corredores
os quais do acesso s portas numeradas de ambos os lados.
Aps estas salinhas h outro ptio e o trmino da Colnia. Ela  toda
cercada com colunas brancas e suas paredes so desenhadas. De
qualquer ngulo que a observamos, vemos o telhado em tringulo.
- Agora, os alunos iro receber um caderno de orientao, no
qual est anotado o nmero da sala de aula e tambm o da sua sala
particular. Estejam  vontade para conhecer o que quiserem. As
aulas s tero incio dentro de cinco horas - falou, sorrindo, o
diretor, que entregou a cada um dos alunos uma caderneta com o
nome gravado na capa.
O diretor despediu-se de todos com um sorriso cativante.
Antnio Carlos aproximou-se de mim.
- Patrcia, quero lhe mostrar minha sala.
Enquanto caminhvamos pelo corredor, perguntei ao meu
amigo:
-Antnio Carlos, aqui terei muitas horas livres. Que poderei
fazer para preench-las?
- Esta casa segue o horrio da Terra. Aqui os moradores no
dormem nem se alimentam. Ningum fica sem fazer nada. Aqui 

48 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

muito movimentado. A casa recebe muitas visitas, h muitas
palestras das quais poder participar, com isto aprender muito.
Esto sempre organizando grupos de auxlio a encarnados filiados.
Tambm poder freqentar a biblioteca, poder ir mais vezes 
Terra, e em outras Colnias, alm da Colnia So Sebastio. Ter
muito o que fazer. Entre, por favor, aqui  minha sala.
Para este espao particular no plano espiritual damos muitos
nomes. Quartos, nas Colnias de Socorro, porque muitos ainda
dormem, mas chamamos tambm de gabinetes, salas, ete.
O cantinho de Antnio Carlos  bem agradvel. Umas cadeiras,
eserivaninha e uma estante repleta de livros.
- Aqui guardo exemplares que ganho!
- Mas h livros de escritores encarnados!
- Certamente. Livros bons de encarnados so plasmados
aqui. escritores bons tm acesso  casa. Conversamos muito, ns
e eles. Aqui fazemos at noite de autgrafos. Muitos destes livros
esto com dedicatria. Orgulho-me em t-los. Aqui tenho tudo o que
preciso. Amo meu cantinho. Agora, vamos conhecer sua sala.
Passamos para outra ala,  direita, no nmero indicado
paramos e entramos. A minha sala era como a de Antnio Carlos,
algumas cadeiras, uma eserivaninha e a estante.
- Voc pode decor-la como quiser.
Dias depois decorei-a com quadros e vasos de flores, coloquei
na pequena estante livros, cadernos de anotaes e as fotos de
meus familiares. Em destaque, as dos meus sobrinhos Rafael e da
pequena Patrcia.
- Que bonitos lustres! - exclamei.
Os lustres tm formatos delicados. A Colnia tem iluminao
artificial como nas demais Colnias que seguem o fuso horrio
da Terra.  noite a Colnia  linda, parece uma estrela de longe, de
perto  muito luminosa. Dentro da casa  claro como o dia.
Depois de ter visto minha sala, Antnio Carlos me convidou
para conhecer a biblioteca.  muito bonita e grande. Diferente das
outras que conhecia. Exerce um fascnio todo especial nos seus

A casa do escritor

visitantes e freqentadores. Nela encontramos mais livros sobre
Literatura, livros histricos e sobre variedades, livros espiritualistas
e Espritas. Nas salas de vdeos, o assunto se assemelha. Antnio
Carlos mostrava tudo com entusiasmo. Ama de modo particular
esta casa. As horas passaram.
- Patrcia, logo mais comea sua aula. No vamos nos
despedir, pois estou sempre por aqui e estaremos sempre nos
encontrando. Quero dizer-lhe que  bem-vinda a este Lar.
Sorri, agradecendo. Sentia-me bem ali e j amava aquela
casa. Preparei-me para a primeira aula.

O JORNALISTA
Que interessante quando as emoes nobres se repetem.
Sempre que isto acontece, temos a impresso de que no  a primeira
vez que vivemos estes fatos. Foi isto que me aconteceu quando
entrei na sala de aula para ter meu primeiro contato com este novo
curso que, pela bondade de Deus e pelos amigos, me foi proporcionado.
E no foi sem razo, pois a alegria que senti naquele
momento permanece em meu peito at hoje. Tenho a certeza de que
o contentamento achou por bem fazer morada em meu corao,
A perspectiva de poder anunciar aos encarnados pela via
medinica a bem-aventurana que eu vivia e de que era portadora.
me enchia de entusiasmo e nimo para este novo estado e treino
teleptico. Queria aprender para fazer bem. E, como acontece
quando estou muito feliz, sorria sem parar; foi neste estado de
satisfao que cumprimentei o professor e alguns alunos que
estavam na sala.
Nossa classe era pequena, as eserivaninhas estavam em
crculo.
- A Paz seja convosco! - respondeu o professor Aurelianoao
meu cumprimento. - Sente-se, Patrcia, escolha um lugar e fique 
vontade. Logo inicaremos a aula.
Sentei e observei tudo. Na parede, s havia uma lousa. O que
dava um toque especial eram as bonitas janelas redondas. Na sala,
havia as eserivaninhas e uma enorme estante. Logo chegaram todos
os alunos. Conversamos animados e aps alguns minutos j nos

A casa do escritor 51

conhecamos como se fssemos amigos de longa data. Todos
agradveis, instrudos e com vontade de aprender. Seus nomes j
estavam gravados na minha mente e no corao. A doce Ruth, o
Carlos Alberto, o mais velho em aspecto, a ruiva Adelaide, o
intelectual Henrique, o mais extrovertido Jos Luiz, Maria da
Penha, a que se tornou como me de todos, e Osvaldo, o contador
de histrias.
O professor Aureliano deu incio  aula.
- Como sabem, Maria Adlia e eu iremos dar este curso to
til a nossa Literatura Esprita. No  to simples assim intuir ou
ditar pela psicografia aos encarnados. Aqueles que fazem sem
preparo quase sempre no fazem o melhor que poderiam. O que 
mais importante: quando se intui na Literatura ou se dita pela
psicografia? A matria, sem dvida.  esta matria que iremos
aprender a fazer. Certamente aqui estou como coordenador, espero
que todos aprendamos juntos. Tanto que quero ser tratado como
amigo, sem ttulos, s pelo meu nome. Ficarei com as aulas de
redao. Maria Adlia dar aulas de Literatura. No seu histrico,
vamos conhecer como surgiu a idia de grafar os acontecimemtos.
Os primeiros eseritos, as primeiras histrias imaginrias, a Literatura
contempornea, a atual e a Esprita com todo o seu encanto e
ensinamento. Muito temos para aprender neste curso. Nas minhas
aulas aprenderemos a fazer uma redao, um artigo ou um livro.
Tambm aprendero a transmitir estes eseritos, porque no se pode
ditar qualquer coisa, para isto tem que se ter alguns critrios. Estes
eseritos tm que estar dentro da Doutrina e da codificao de Allan
Kardec e trazer ensinamentos bons e cristos, alm de ter-se o
cuidado de no fazer revelaes que ainda no so permitidas, ou
anunciar desgraas com datas marcadas, etc. As revelaes tm que
ser feitas com conhecimento e devem ser reais e otimistas. H tantas
coisas lindas para serem ditas. Todos os que so filiados a esta casa
tm que passar seus eseritos pela censura. E aqui aprendemos
tambm a censurar. Daremos especial ateno  parte do intercmbio
ao encarnado. No  fcil a um crebro que desconhece captar
certos fatos. Assim, teremos que escrever para ditar ou inspirar o

52 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

que o encarnado pode receber. Este curso  longo porque teremos
muitas exccurses, nas quais faremos uma coleta de hstrias com
muita ajuda, E tambm porque  grande a responsabilidade de todos
aqueles que deixam grafados seus pensamentos, principalmente
que querem fazer um bem com este evento. Particularmente ns que
iremos pela psicografia, em nome de uma religio, tentar
motivar, alertar, recordar os ensinos de Jesus a tantos irmos. Nos
ltimos seis meses do curso, vocs estaro aptos a realizar esse
trabalho sozinhos, mas ainda contaro com nossa orientao.
Para comear nossa aula de redao, quem de vocs quer
contar uma histria ou, se for interessante, a da prpra existncia
para que possamos comear o nosso trabalho?
Jos Luiz levantou a mo.
- Posso falar de mim.
- Sim - disse Aureliano. - Vamos ouvi-lo.
Jos Luiz sorriu.  magro, alto, cabelos crespos curtinhos
muito simptico. Sua voz  agradvel e forte, Comeou a falar.
- Nasci e cresci na grande cidade de So Paulo. Sempre
gostei de jornalismo. Quis ser jornalista. No foi fcil, meus pais
eram separados e minha me dava um duro danado para sustentar
os quatro filhos. Era o terceiro. No colegial, fiz um curso tcnico em
contabilidade  noite e passei a trabalhar durante o dia. Trabalhava
numa indstria. Meu sonho era conseguir emprego num jornal,
Uma colega tinha amigos em um grande e influente jornal, tanto
pedi a ela que acabou me atendendo. Levou-me l e me apresentou
aos seus amigos que prometeram me ajudar, Cumprram o prometido,
acabei empregado. Fiquei felicissimo, embora o jornal fosse
mais longe e ganhasse menos, Mas queria estar ali para aprender.
Sempre fui timo, na escola, em redao. Comecei a escrever
artigos, era muito dificil conseguir que publicassem, mas fazia
sempre na esperana de ser um bom jornalista um dia. Quando
terminei meu curso, passei a me dedicar mais ao meu trabalho e a
ter mais tempo para fazer as matrias. Um da, um dos diretores leu
o que escrevi, gostou, e acabou publicando o artigo. Aconselhou-me
a ter aulas de redao. Eram pagas e caras. Porm, este diretor

A casa do escritor 53

conseguiu que o jornal pagasse a metade do curso. Fiz o curso com
entusiasmo. Foi com perseverana que me tornei um jornalista.
Comecei a fazer crticas ao governo de maneira ftil. Estvamos
nos anos sessenta com a ditadura militar. Passei a usar um
pseudnimo para fazer estes artigos. Um grupo de idealistas que
queriam um Brasil melhor me procurou para que fosse assistir a
suas reunies. Fui e gostei. Eram pessoas honestas e idealistas.
Estes companheiros no achavam certo os meios que outros grupos
empregavam, porm entendiam que eram necessrios tanto para
chamar a ateno como para conseguir dinheiro. Aes
como
seqestros e roubos. Nosso grupo se ocupava mais em divulgar
nossas idias. Nestas reunies, conheci uma moa, Mrita, que
tinha uma filhinha. Seu companheiro fora morto num cerco com os
militares. Nesta poca, j ganhando mais, fui morar sozinho num
pequeno apartamento perto do jornal. Tanto escrevia com meu
nome verdadeiro artigos no comprometedores, como com pseudnimo
artigos contra a ditadura. Apaixonei-me por Mrita, tornamo-nos
amantes sem, porm, morarjuntos. Passei a participar mais das
reunies, fazer palestras e panfletos. Meus artigos tornaram-se
mais violentos. Seis anos se passaram. Deram uma batida nojornal
e prenderam muitas pessoas. Umas, torturadas, deram meu nome
verdadeiro. Fui preso. Confessei no interrogatrio tudo que fiz e
escrevi. Mas eles queriam mais, os nomes dos companheiros. Como
neguei, comeou a tortura. Um horror! Na histria da Humanidade
sempre o ser humano torturou outro ser humano. No incio, as lutas
eram por alimentos e territrios. Depois, vieram as lutas por simples
conquistas, nas quais os vencedores tornavam os vencidos eseravos
e os torturavam. Aps, houve as cruzadas, as lutas por religies, a
Inquisio, os eseravos na Amrica, as guerras modernas e os
campos de concentrao. Depois, pela poltica, por ideal, foram
tratadas com muita desumanidade pessoas que, certas ou erradas,
queriam o que achavam o melhor para sua Ptria.
Fui torturado com outros companheiros, de forma brutal e
cruel. Nada falei. Pensava em Mrita e na sua filhinha que amava
como se fosse minha. Num sofrimento maior desencarnei. Sa do

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

corpo de forma violenta. tonto e vendo tudo confuso. Levantei
cair no canto da sala. Vi meus carrascos e meu corpo ser,
amarrado e sangrando. Escutei os comentrios.
"Morreu a peste? Sujeito duro e idiota!"
"Morreu!" - disse um outro escutando meu corao.
"Coloque com os outros, iremos enterr-los nas valas.
Vi desamarrarem meu corpo e lev-lo para outro lado.
Confuso e com muitas dores. adormeci. Acordei mais confuso ainda
"Ei companheiro voc morreu, acorda!"
Tentei tanto entender o que ele me dizia como reconhecer
o sujeito que me dirigiu a palavra.
Ser nova forma de tortura? - pensei.
Mas no estava amarrado e no conhecia aquele homem.
tentando ser simptico. disse:
Venha, d a sua mo, ajudo voc. Morreu! Voc simplesmente
morreu como eu."
"Estranho!"
"Que nada! Logo voc acostuma."
Levantei com a ajuda dele. Levou-me para uma das celas.
vi com tristeza companheiros mutilados e gemendo.
Vamos ficar aqui."
Ele me ajudou. Deu-me para beber um lquido que me tirou
as dores e me fez curativos.
Engraado" - disse - "voc fala que morri, mas continuo
machucado."
" assim mesmo, voc  igual a seu corpo.
S quando fui estudar  que compreendi que me desligara
do corpo e pela falta de conhecimento continuei com todas as impl
ses da matria, como dores. fome, frio, etc.
Passei alguns dias deitado no cho da cela. vendo meus
companheiros encarnados sofrendo. O sujeito. Emlio. cuidou
de mim como lhe foi possvel. Melhorei.
"Vocj est bem. j  hora de passar a nos ajudar. Levantese
e venha conhecer os outros."

A casa do escritor 54

Pegou em minha mo, ajudou-me a levantar. Fomos andando
e me espantei ao atravessar com ele as grades e sair para o ptio.
Como fez isto?!" - indaguei curioso.
"Somos agora almas do outro mundo, ou melhor, desencarnados.
Temos l algumas vantagens como atravessar pela vontade
paredes e portas. Vou ensinar voc a fazer isto.  fcil, aprende-se
e pronto."
No ptio havia um grupo de desencarnados. Alguns homens
e mulheres em nmero menor.
"Clvis, voc aqui!"
Abracei comovido um deles. Era meu amigo, companheiro
das nossas reunies. Ele havia desaparecido e no conseguimos
saber o que ocorreu com ele.
"Morri tambm!"
"Torturado?"
No, com um tiro."
Fez-se um silncio de minutos que foi quebrado por um deles.
"Jos Luiz,  o seguinte: estamos todos desencarnados e
unidos. Aqui estamos tanto para ajudar os companheiros desencarnados
doentes, perturbados ou enlouquecidos pelas maldades sofridas
e os amigos encarnados, como tambm para nos vingarmos de
nossos carrascos."
"Podem passar anos, mas me vingarei. Nem que eu tenha que
esperar que estes caras morram, eu me vingarei!"- disse Clvis com
dio.
Sinceramente, no estava com vontade de vingar, mas de
ajudar os companheiros. Mas no disse nada, naquela hora parecia
no ter outra escolha.
Preferi ajudar outros companheiros desencarnados que estavam
perturbados e achavam que estavam ainda vivos no corpo

 N.A.E. - Volitar, atravessar paredes so atividades fceis a desencarnados,
porm, necessita-se aprender. Infelizmente, no so s conhecimentos dos
espritos bons, todos podem fazer, basta saber e ter principalmente conscincia
do seu estado de desencarnado.

56 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

carnal. Para mim, eles estavam enlouquecdos de tantas dores
e humilhaes. Tentava tambm ajudar os encarnados.
Meses passaram-se e no via resultado. Parecia que a
situao piorava. Os carrascos pareciam mais nervosos e maus.
Dos companheiros desencarnados s alguns melhoraram. Os pobres
encarnados sofriam muito. Um dia perguntei ao nosso chefe,
o Clvis.
"Clvis, ser que estamos ajudando mesmo? Ser que para
isto no  necessrio saber?"
No sei, Jos Luiz. Tenho pensado nisto. Mas podemos nos
contentar planejando nossa vingana."
"Voc no acha que eles colhero do que plantam?"
"Pode ser. Mas vingarei! Vingarei! Nem que Jesus me
aparea, eu no perdo! No somos bandidos, nem marginais e
fomos miseravelmente tratados por termos um ideal poltico, por
no pensarmos como eles. Saberei planejar e organizar esta vingana,
que no s ficar aos que cumprem ordens, mas aos que mandam
tambm."
"Voc disse Jesus? Ele por acasoj esteve aqui?"
"Ele no, mas alguns que trabalham para Ele sim.  s orar
que um deles aparece."
Pensei muito no que ouv. No estava satisfeito ali, lugar
trste, vendo sofrimento e sofrendo. Afastei-me do grupo, fui para
um canto do ptio e pus-me a orar as oraes decoradas que sabia.
Mas depois, a orao saindo do corao, pedi ajuda e chorei.
"Quer ajuda? Est disposto a perdoar?"
"O senhor  Jesus?"
"No, sou um desencarnado como voc, mas que tem outra
viso e entendimento."

 N.A.E. - Para ajudar, necessita-se primeiro estar bem, depois saber. Nenhum
deles tinha condes para isto. Aos desencarnados ainda se consegue uma ajuda
precria, mas aos encarnados s se atrapalha mais. Mas vingar, obsedar, sm,
conseguem, prncipalmente se estes vibram negativamente, igual, portanto.

A casa do escritor 57

"Perdo todo mundo. No quero vingana. Quero melhorar!"
Pegou em minhas mos e volitamos. Senti um frio na barriga,
mas amei voar.
Fui levado para um Posto de Socorro. Achei maravilhoso.
Logo estava curado dos meus ferimentos, mas tive que fazer um
tratamento psicolgico para que pudesse entender os traumas
que ficaram em mim pela tortura que sofri, e por ter visto tantos
companheiros mutilados.
Depois, fui encaminhado a uma Colnia onde fui entender o
Plano Espiritual e passei a ser til pelo trabalho.
Soube de minha Mrita, ela conseguiu fugir com a filhinha,
estava bem, casou-se de novo e tem mais filhos.
Quando senti que era capaz de ajudar, pedi para auxiliar
meus ex-companheiros. Voltei ao lugar em que estive quando
desencarnei. Encontrei tudo mudado, ali estavam alguns espritos
que no conhecia. Fixando minha mente neles, localizei-os. Receberam-me
com alegria. Quando comecei a falar de mim, prestaram
ateno no comeo, mas logo se desinteressaram. Por mais que
pedisse, implorasse, Clvis e o grupo, grande nesta poca, no me
atenderam. Fizeram um ncleo no Umbral e faziam um cerco
cerrado aos que julgavam culpados. Infelizmente, no consegui
convencer nenhum.
Jos Luiz,  nosso amigo, se quiser continuar a s-lo, no
defenda estes miserveis" - disse Clvis.
"No estou defendendo-os. estou querendo o bem de vocs."
"Nosso bem  condenar os culpados."
Fui embora, mas no desisto, sempre que posso vou at eles
na tentativa de ajud-los.
A est minha histria. Gosto muito de Literatura, amo o
jornalismo, fao este curso para depois trabalhar com encarnados.
Vou tentar intu-los na divulgao de artigos bons e bem feitos.
Jos Luiz quietou-se e foi a vez do professor Aureliano voltar
a falar.
- Sua histria  deveras interessante. Que exemplo bonito
voc nos deu, perdoando e no querendo vingar-se. Como tambm

58 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

de voc tentar, mesmo passando tanto tempo, ajudar seus
companheiros. Se voc tivesse lembrado de pedir de modo sina
como fez, ao desencarnar, teria sido socorrido antes.
- Ser que eles no iro perdoar? - indagou Adelaide.
- Temos nosso livre-arbtrio - respondeu Aureliano. - Sofre
muito quem no perdoa. Esperamos que um dia Jos Luiz possa
faz-los entender, para que possam ser felizes. Agora, vamos ao
trabalho. Escrevam sobre o que ouviram.
Todos escrevemos. Aps, cada um de ns leu e Aureliano deu
opinies.
- No  bom realar episdios negativos.
- O seu est muito extenso.
- Poderia ser maior.
- Este pedao no est bem. Assim fica melhor.
Vi o tanto que ele era rigoroso e como ensinava bem. Entendi
o que vinha ser a censura da casa. H episdios que no se pode
comentar. E que no so bons de serem relatados.
Depois de tantas observaes, escrevemos de novo. Novamente
foi ldo. Aureliano chamou ateno para algumas partes, mas
elogiou o trabalho.
- Agora, pensem como o mdium, ou como a pessoa encarnada
que iro inspirar, que ir receber esta histria.
- Acho que o mdium, desconhecendo esta parte, no
conseguir captar - disse Ruth.
- Tambm acho - disse Aureliano. - Assim, ter que mudar
este pargrafo.
Pensei bem no que os encarnados gostariam de ler.  uma
histria real, emocionante, mas teria que o ser tambm para eles.
Pensei na tia Vera, ela iria captar tudo? Escrevi pela terceira vez.
Percebi que todos voltaram aos seus esertos, reformulando-os.
Assim, foram todas as aulas de redao. Era eserita a
histria, censurada por todos ns com a coordenao do mestre
e, aps, eserita da forma como o mdium poderia receber. Um
verdadeiro aprendizado!
O curso decorria tranqilo, a professora Maria Adlia dava
aulas de Literatura. Comeou na parte histrica e acabou na
atual. Deu ateno especial  Literatura Esprita e  Espiritualista.
Estudamos juntos as obras de Allan Kardec. Muitoj tinha visto
e lido sobre o Codificador da Doutrina Esprita, mas como foi
agradvel estud-la com um grupo inteligente e com uma orientadora
de grandes conhecimentos. Maria Adlia falava com tanto
amor que a matria nos fascinava. Ter conhecimentos literrios 
importante para quem vai ou pretende trabalhar com a Literatura.
Tambm nas aulas de Aureliano aprendemos todas as leis da
censura da casa e passamos ns mesmos a censurar nossos trabalhos.
Aprendi muito bem os trs itens principais: escrever, o que
escrever e para quem escrever.
Nestes dois anos, vim muitas vezes  Terra. Vinha sozinha,
estive com familiares e amigos. Tambm conheci outras Colnias
e muito estive na minha querida Colnia So Sebastio. Conheci
todas as Colnias que se dedicam  Literatura, como a Casa do
escritor, por diversos pases da Terra. De fato, so parecidas, s
que cada uma tem um toque especial da arquitetura do seu pas. Em
todas se fala o Esperanto.  o idioma usado para a comunicao
com visitantes de outros pases. So encantadoras estas Colnias!
Aqui no Plano Espiritual muito se tem feito para que as boas obras
progridam.
A Casa do escritor  de fato movimentada. Gostava de
passear por suas reas e ver os detalhes de seus quadros, paredes e

60 Vera Lca Marinzeck de Carvalho

pisos. Mas de forma especial gostava de ficar nos seus ptios.
Admirava com muito carinho suas rvores e flores. Suas delicadas
flores so de vrios formatos e tamanhos, todas clarinhas, predominando
as brancas. Passava horas admirando-as. Que perfeio nos
seus contornos! Que maciez! Que beleza!
Mas o ptio oferece outro encanto.  um lugar onde todos si
renem para conversar, Ali vemos encarnados, os moradores E
visitantes. Como  gostoso reunir-se em crculo e bater aquele
"papo" edificante. So pessoas instrudas e amantes da arte, da
Literatura. Conhec tantas pessoas interessantes, muitos escritores
famosos.
Conversadeira, l estava nas minhas horas de lazer pelos
ptios e quase sempre enturmada em alguma roda e conversa vai...
Mas havia preocupaes tambm.
-  com muito penar que vejo a Literatura ruim ganhando
mercado! - disse um escritor conhecido dos encarnados que me
pediu para no citar seu nome e explicou o porqu.
- Quando encarnado, tinha outras idias que os familiares
encarnados conservam. No quero que eles se melindrem por haver
citado meu nome. Agora estou morto e acabado para eles.
Pensando nisto, cito neste livro poucos nomes, de preferncia
somente o primeiro. Porque poderia esquecer o de algum, o que me
parece injusto. Todos os que freqentam esta casa so grandes para
mim e maravilhosos. Mas, voltando  conversa, todos infelizmente
concordaram com ele.
- Sabemos que h equipes de irmos ignorantes, que tentam
fazer o mal, esforam-se mesmo para acabar com a boa Literatura
e ajudam, incentivam a ruim. A leitura modifica os pensamentos,
tanto para o bem como para o mal - disse o simptico Sr. Rolando
que, encarnado, foi um lutador fiel do livro Esprita e que continua
ativamente ajudando a causa.
- A literatura edificante tem que ser cativante e interessante
para motivar os leitores a lerem cada vez mais - completou com
sabedoria e smplicidade Jlio Csar, um escritor de talento.

A casa do escritor 61

- No podemos desanimar nunca. Nosso trabalho tem que
ser incessante - falou com alegria Jos.
- Mas estamos longe do ideal - acrescentou Rolando.
- Muito se tem que fazer e nossa ajuda  fundamental. Os encarnados
necessitam do nosso auxlio. No devemos negligenciar em nosso
trabalho.
E a conversa ia longe. Que gostoso participar, ouvir conversas
to interessantes.
Gostava tambm de meditar nos bancos confortveis que
esto quase sempre embaixo das rvores floridas. Numa tarde em
que meditava, aflorou em minha memria uma das conversas que
tive com meu pai. "Filha" - disse-me ele -, "no deixe que somente
o entusiasmo seja o motivo de seu trabalho. Cultive o amor pelo
que faz, pois o entusiasmo  da mente e o amor  do corao, do
sentimento. O que  da mente  passageiro, o amor  eterno. Procure
envolver com amor tudo aquilo que fizer com entusiasmo.
O cultivo da harmonia e fraternidade  o antdoto dos nossos
conflitos psquicos e at dores materiais, pois estes provm dos
conflitos psicolgicos.
E a felicidade verdadeira s existe quando estamos desapegados
de qualquer interesse particular. Nossa personalidade tem a
impresso de que, neste estado isento de egosmo, perdemos o
interesse pela atividade; isto realmente acontece quando s temos
como fim nossa satisfao ou nossos prazeres. Se procuramos
ver, amar e sentir Deus nas suas manifestaes, somos inundados
por um contentamento puro e de alegria no maculada pelo desejo
de satisfao prpria. Para mim, isto  a real felicidade.
Entre a maioria encarnada, felicidade  sinnimo de poder,
sejamental ou material, satisfao, ociosidade e prazer. Todos estes
estados so cultivo de futuras dores que no tardaro a florescer.
Observando tantos encantos que o Pai criou, como que numa
compreenso simultnea, vislumbrei um pouco das dificuldades da
vida humana, at que o homem se volte para viver como parte
integrante do universo. Quando esta integrao for realidade constante,
o ser humano viver o oposto de todo este sofrimento".

62 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

Graas a Deus, eu estava vivendo o oposto.
Como j disse, a Casa do escritor  mvel. Isto , ela se
locomove de acordo com as necessidades do momento. Ela pode
estar um dia no Sul e, no dia seguinte, no Norte do Brasil. Como
tambm estar na Crosta, onde esto os Postos de Socorro, ou ir para
esferas superiores onde esto as Colnias.  como se ela volitasse.
Quem est dentro da Colnia nada sente. Mas se for a um dos ptios
externos, que a circundam, pode ver a viagem como se estivesse
num avio.  muito interessante observar a Colnia locomovendo-se.
Esta locomoo  feita pelas mentes dos diretores, ou da equipe
de moradores da casa.
A primeira vez que vi, deliciei-me.  muito agradvel, a Casa
parece deslizar tranqila pelo espao.  por isto que se acha a casa !
por sua vibrao. Ao ficarmos dias em excurses ou mesmo em
outros trabalhos, para saber onde a Colnia se encontra, basta
mentaliz-la e somos levados at ela.
- Vamos ter uma reunio no Norte! - exclamou um dos
moradores. - Ser uma reunio com encarnados.
Alegrei-me muito por estar de folga. Assim fui ver a Casa
locomover-se e pude assstir  reunio. A Casa promove muitas
reunies com encarnados. Seu movimento aumenta.  necessrio
organizar, marcar com os convidados os locais onde a casa
dever ir.
Esperei ansiosa pela reunio. Que agradvel surpresa! A
Casa parou sobre a cidade de Manaus. Era de tardnha e a reunio
estava marcada para a noite, a uma hora da madrugada. Os
convidados seriam os encarnados da regio e tambm alguns
desencarnados. Todos trabalhavam na divulgao do livro Esprita.
s onze horas, um grupo da casa saiu para ir buscar os
convidados encarnados. O ptio da frente estava radioso, todo
iluminado. Uma msica suave e bonita se ouvia por toda a parte da
frente. A reunio ia ser em um dos sales de porte mdio,j que no
iriam muitas pessoas.
Fiquei no ptio, curiosa, tanto observando como conversando,
 meia-noite comearam a chegar os convidados. Os desencarnados
convidados normalmente chegam primeiro. Os encarnados

A casa do escritor 63

que deixaram seus corpos dormindo chegaram felizes. Uns totalmente
conscientes cumprimentavam todos alegres, outros chegavam
admirados, e alguns infelizmente um tanto alheios. Um dos
moradores que estava ao meu lado esclareceu.
- Vemos que nem todos esto amadurecidos igualmente.
Muitos esto acostumados a estes encontros, outros,  a primeira
vez que participam. Assim no podem estar igualmente conscientes
e interessados. No horrio previsto, todos estavam presentes.
Fomos convidados a ir para o salo. Todos acomodados, foi feita
uma prece muito bonita e a palestra comeou.
Qual no foi a surpresa quando levantou e ficou  nossa
frente o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, que cumprimentou a
platia sorrindo.
- Boa noite, caros irmos i Que Jesus esteja presente em
nossa reunio.
Falou, com sua voz sempre agradvel, da necessidade de os
encarnados estarem unidos e firmes no trabalho de divulgao da
Literatura Esprita. Da necessidade que temos de ler, aprender
por meio das boas obras. Disse conhecer as dificuldades existentes,
mas que com boa vontade tudo se resolveria. Brincou com
os presentes. Demos boas risadas. Como  bom ter conversas
importantes com alegria. Foi aberto o espao a perguntas. A platia
no comeo perguntou timidamente, depois se indagou muito e o
orador respondeu atenciosamente, magnificamente. Foi com pesar
que escutamos:
- Est terminada a reunio!
Houve abraos de despedidas. Dois dos encarnados ficaram
para uma reunio particular. Os moradores da Casa se aproximaram
dos encarnados para lev-los novamente aos corpos que
estavam adormecidos. Estes encontros particulares so atendidos
pelo diretor da casa. Se existem pedidos de ajuda. so anotados e
analisados imediatamente. O auxlio se inicia tendo em vista a
possibilidade da Casa. Se conselhos, opinies. o diretor com
sapincia e pacincia conversa com eles. Todos saem satisfeitos.
Alguns convidados desencarnados e alguns moradores ficaram
por ali. Todos queriam continuar desfrutando a presena deste

64 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

glorioso mdico, escritor e esprita brasileiro. Tambm fiquei e foi
com contentamento que dele escutei:
- Temos que incentivar as boas coisas, os fatos importantes.
Dar nfase a tudo que  lindo. O entusiasmo faz parte da vida!
Aos poucos todos foram voltando aos seus afazeres. A
reunio acabou. A Casa ficou dois dias ali atendendo consultas,
realizando ajudas. Depois partiu. Muitas reunies assisti com
proveito. E que proveito!
Depois de ter assistdo a muitas reunies, fui escalada para
fazer parte da equipe que vai buscar e levar os encarnados convidados.
O trabalho comea  tarde, s vezes at pela manh. Nas
primeiras vezes, acompanhei Otaclio, um amigo j experiente que
me explicou:
- Hoje vamos levar  reunio Suely, uma jovem que comea
a dedicar-se  tarefa de divulgar livros Espritas.
Logo que a vi, simpatizei com ela. Acompanhamo-la no seu
trabalho material na parte da tarde.
- Suely trabalha muito - esclareceu Otaclio. - Aqui estamos
para que tudo d certo, para que sinta nossas vibraes e fique calma,
para que possa dormir tranqila e ser desligada com facilidade.
Ficamos perto dela. Tarefa agradvel, ela  muito simptica.
Tudo deu certo. Suely dormiu tranqila. No horrio marcado,
Otaclio lhe deu um passe, ela se desprendeu fcil do corpo carnal,
nos observou e sorriu. Otaclio lhe explicou.
- Suely, viemos busc-la para uma reunio importante,
Lembra-se? Comunicamos-lhe na semana passada.
-Lembro sim. Estou pronta. Podemos ir. Mas com que roupa
devo ir? No posso ir em trajes de dormir.
- Certamente, troque de roupa se acha necessrio - dsse
Otaclio. - Esperaremos por voc.
Samos do quarto e Suely rapidamente trocou de roupa. Este
fato  interessante, quando encarnada estava sempre a pensar com
que roupa saa do corpo. Normalmente pessoas boas, instrudas,
vestem-se diseretamente e saem com roupas que costumam usar.
Raramente temos convdados nas reunies da Casa do Esertorcom

A casa do escritor

roupas de dormir. Suely era inexperiente, porque quem est acostumado
a sair do corpo j plasma a roupa que quer usar, faz isto
maquinalmente. O perisprito, neste caso, veste roupa plasmada,
idealizada. Suely, ao se trocar, pegou uma cpia, criou pela vontade
dela, trocou o pijama por outra roupa que lhe convinha.
No  agradvel ver convidados com trajes de dormir. Quando o
convidado est assim, quem vai busc-lo aconselha que se troque.
Suely estava disereta, mas quis ir bem arrumada, porque para cla
ia a um lugar importante, e tinha razo. Os quej esto acostumados
a sair do corpo e ir s reunies ou encontros com amigos, mudam
de traje automaticamente. Alguns preferem s um tipo de roupa,
outros, qualquer uma das que possuem.  comum ver,  noite
encarnados desligados pelo sono andando pela cidade, indo ao
Umbral, com vestes menores, seja com trajes de dormir, seja muito
enfeitados. Infelizmente se sentem bem assim, vibram assim. Mas
em lugares srios, de estudo, todos se trajam bem e com diserio.
Demo-nos as mos, Suely ficou no meio de ns dois,
volitamos at a Colnia. Aps a reunio, levamo-la de volta e
novamente com passes deixamo-la a sono solto.
Fui com o Otaclio fazer convites para a prxima reunio.
Estes so feitos dias antes da reunio. Volitamos at a regio onde
a reunio seria realizada e localizamos as pessoas a serem convidadas.
Para que o encarnado no se assuste, no tema ser encarnado.
notifica-se antes ao seu protetor, ou guia, um esprito em que o
convidado confia. Na hora do convite, este esprito amigo ficajunto
de ns e tambm quase sempre participa da tarefa do transporte,
alm das agradveis reunies. Esperamos o encarnado dormir,
desligamo-lo do corpo e conversamos com ele.  gostoso fazer
convites. Os que j esto acostumados nos recebem com alegria,
como um senhor que h tempo vende, divulga e ama os livros
Espritas. Seleciona com outros companheiros livros que so
vendidos nas bancas, clubes e feiras de sua cidade. O senhor Jos
Antnio nos abraou, sorrindo.
- Que convite agradvel! J sentia saudades das reunies. H
tempo que no vou. Temia ser esquecido. Quem conhece a Colnia
sente falta, no  mesmo?

66 Vera Lcia Marnzeck de Carvalho ! Patrcia

Para muitos convidados, o pessoal da Casa s faz o convite,
eles vm com companheiros desencarnados que trabalham com
eles. Muitos encarnados que no so filiados, mas so amantes da
Literatura Esprta, so em certas ocasies convidados e ficam
muito contentes com o que vem e ouvem nas reunies.
Mas nem tudo d certo. H contratempo tambm. Como
quando ao buscar uma convidada a encontramos com uma tremenda
dor de dente que no a deixava dormir. Otaclio e eu tudo
tentamos para ajud-la. Conseguimos que a dor amenizasse e que
dormisse, mas no foi possvel retir-la do corpo.
- Ela est agitada e cansada - disse meu companheiro. - Hoje
no poder ir. Ficar para uma prxma vez.
- Sentir por no ter ido? - indaguei ao meu companheiro.
- Sim, todos amam muito estes encontros fraternos. Mas no
corpo poder sentir somente uma leve impresso de que ia a um
lugar agradvel e no foi.
s vezes, a dificuldade  outra. Como um dos convdados
cujo pai hava desencarnado e ele estava no velrio. Tambm
encontramos um convidado que fora a uma festa e no estava
dormindo no horrio marcado. Outro, que havia bebido com os
amigos.
- No podemos levar ningum com emanaes de bebidas
alcolicas. Ele ir numa prxima vez.
Este trabalho de equipe consiste tambm em determinadas
ajudas aps as reunies. s vezes, os convidados fazem apelos,
pedem opinies e ajuda. So escaladas equipes que vo logo que
possvel at estas pessoas. As queixas maiores quando fiz o curso
foram: falta de poder econmico e ataque dos rmos ignorantes.

"N.A.E. - Ataques de irmos ignorantes ou espritos que temporariamente
seguem o caminho do mal tentamos resolver de muitas maneiras, pelo menos
tentamos suavizar estas presses. No posso descrever o que usamos ou o que
fazemos. Mas o principal  incentvar os encarnados a vibrarem melhor para no
entrar na onda das vibraes deles.

       A casa do escritor 67

Comevamos nosso trabalho indo at as pessoas e editoras,
estudvamos a situao, tentvamos junto com os encarnados
resolver os problemas. Tnhamos pedidos tambm para inspirar
capas, folhetos ou como fazer o melhor livro. Como tambm opinar
se este ou aquele livro deveria ser editado. Livros que passam pela
Casa do escritor j so aprovados, outros, nem sempre. Quando
surgem alguns bons escritores no filiados  Casa, trata-se logo de
convid-los para se filiarem.  gostoso este trabalho.
Indaguei ao Otaclio.
- Sabe de algum convite da Casa para filiao que foi
recusado?
- Sim, temos convites recusados. Tanto de escritores encarnados
como desencarnados. Muitos no querem seguir os regulamentos
da Casa e no se filiam. Temos recusas de mdiuns
psicgrafos tambm pelos mesmos motivos. A causa prncipal  a
pressa. Muitos no tm pacincia para um treino maior e muito
estudo. Nem todos os mdiuns psicgrafos preparam-se para ser.
- Mesmo sem preparo eles escrevem? - indaguei.
- Sim, tm o livre-arbtrio. Infelizmente, seus trabalhos no
saem como deveriam sair.
Fiz parte desta equipe com muito gosto. Como Antnio
Carlos havia me dito, a Casa do escritor  muito movimentada e
fazer parte desta equipe  estar sempre alerta. A equipe fica pronta
para atender qualquer pedido de ajuda de seus filiados, atendendo
chamados de companheiros que trabalham com as bancas, com
editoras, com as feiras do livro Esprita.
Foi um trabalho prazeroso e de muito aprendizado para mim.

VII
APRENDENDO SEMPRE

Comecei, no decorrer do curso a prestar mais ateno
pessoas e estava sempre a pensar: "Que ser que houve para
a pessoa ser assim? Que fato ter ocorrido para ter esta conseqcia?
Por que faz esta tarefa? Ser que repara erros? Comecei a ficar
tal qual meu amigo Antnio Carlos. um colecionador de histrias.
Foi com ele que comentei este fato.
- Antnio Carlos, todos ns temos uma histria. Ter
observado as pessoas e fico me indagando qual a causa que a leva
atal efeito. Tenho curiosidade, por exemplo de saber qual foi aa5
que levou tia Vera a ter esta reao. Ser medium psicgrafa. Tia
causa?
- So muitas as causas que levam s vezes a ter a mesi
reao. E nem todos os mediuns o so pelo mesmo motivo. Alguns
reparam erros, outros tm como uma oportunidade de trabalho para
o progresso. Mdiuns psicgrafos no fogem  regra. Falando
sua tia, ela repara erros. Por volta de 1700 ela estava encarnada
dedicou-se  Literatura. O esprito, que nesta encarnao e sua tia
h muito ama escrever e ler. embora tenha abusado desse don
Voltando  encarnao de 1700, na Frana, vestida no corpo carnal
de um homem, ela foi um escritor ateu. (neutiu nos seus leitores
idia de que Deus no existia e incentivou com seus eseritos
prazeres mundanos. Desencarnou assassinado por um de seus
inimigos. Sofreu muito. Teve outras encarnaes. perdeu o dom e
escrever pelo abuso e pelo remorso. Muitas vezes. Patrcia,

A casa do escritor 69

termos um dom, melhor dizendo, ao sabermos fazer algo e errarmos,
sofremos e o remorso faz com que rejeitemos este saber. Isto
ocorreu. Ao pedir para reencarnar desta vez, vendo este erro
irreparado, ela se preparou para construir o que destruiu no passado
com sua eserita. S que no faz por si mesma.  intermediria,
escreve pensamentos alheios. Se outrora exaltou o materialismo,
hoje prega o espiritualismo. Se tentou no passado negar a existncia
de Deus, hoje exalta o Criador com profundo Amor. Trabalha
construindo, repara erros e faz o Bem.
- Isto  timo! Em vez de sofrer por um erro, trabalha
reparando!
E quase sempre trabalhamos na rea onde erramos. Mas
este fato no  regra geral. Voc  a primeira vez que trabalha com
a Literatura e no est reparando erros,  somente mais uma tarefa
confiada. Por isso lhe digo que no  regra geral. Muitos trabalhos
so tarefas, oportunidades de aprender e crescer espiritualmente.
Meditei muito sobre este assunto e achei genial reparar erros
trabalhando no Bem, reformando-se interiormente para melhor.
Nossas aulas sempre foram muito interessantes. Muitas
histrias foram narradas para que escrevssemos, como a de Maria
da Penha.
- Fao este curso e depois farei outro que me preparar para,
encarnada, ser mdium - disse ela com seu jeito meigo.
- Devo, encarnada, psicografar. Sim, quero e pretendo ser uma boa mdium
psicgrafa.
- Voc tem motivos para isto? - indagou Henrique.
- Sim. Na encarnao anterior falhei como mdium, quero
voltar a ser, por isso me preparo para sentir-me mais forte e no
falhar. Narro a vocs minha histria. Nasci em uma famlia simples
e pobre, desde pequena tinha vises e escutava vozes. Minha
av era benzedeira e com ela aprendi a benzer logo na mocidade.
Casei jovem e tive um filho atrs do outro. Neste perodo, minhas
faculdades medinicas ficaram adormecidas. Tive dezesseis filhos.
Acho que  este motivo que leva as pessoas, logo que me conhecem,

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

a sentirem meu carinho maternal, ou tambm porque sinto por todos
um amor de me, explicando assim por que me chamam carinhosamente
de me de todos. Graas a este amor no sofri tanto. Meu
caula estava com cinco anos quando meu marido perdeu o pouco
que tinha e ficamos na mais negra misria. Passamos fome realmente.
Tinha comeado a sentir a mediunidade e fui a um Centro
Esprita e l eles me aconselharam a trabalhar na casa. No me
interessei, queria no momento arrumar uma forma de ganhar
dinheiro. Ajudada, aconselhada por espritos que no querem nos
ver no trabalho edificante, aos quais dei ouvido, achei uma maneira
de ganhar dinheiro, usando de modo errado minha mediunidade.
Passei ento a ler sorte, a benzer, tirar mau-olhado e quebrante.
Fazia isto na minha casa e cobrando sempre. Para olhar a sorte, o
futuro de uma pessoa, basta ter certa sensibilidade e aprender para
fazer. A maioria das pessoas que fazem isto lem o passado,
presente e futuro de outra pessoa; usam, de alguma forma, ritual
fisico, para ler a aura do consulente. Poucas pessoas sabem fazer
isto, assim mesmo nem tudo pode ser revelado. Outros sabem um
pouco e com este pouco vo enganando, acertando muitas coisas
mas errando tambm. Para benzer e impressionar, fazia oraes
com ramos verdes e receitava algumas simpatias que minha av me
ensinou. Mas minha av, embora pobre, nunca cobrou nada. Com
este dinheiro alimentei meus filhos. Os trabalhadores do Centro
Esprita em que fui algumas vezes tentaram me alertar dizendo que,
os bons espritos me davam de comer, era necessrio eu dar.
Nossa situao econmica melhorou, meu marido acertou-se novamente
e os filhos maiores passaram a trabalhar. Ganhei de um
senhor Esprita a coleo dos livros de Allan Kardec e tambm
preciosos conselhos. Dizia-me ele, bondosamente: "Voc no deve
cobrar, procure um Centro Esprita e trabalhe para o Bem. D de
graa o que de graa recebeste."
Mas a vaidade de ter ajudado muitas pessoas e de ser citada
como boa benzedeira e boa vidente me deixava orgulhosa. No quis
deixar o que fazia para ir aprender em um Centro Esprita. Mas,

A casa do Esertor 71

apesar de cobrar, ajudei de fato muitas pessoas. Sabia tirar fluidos
nocivos dos encarnados, fluidos que uma pessoa passa a outra como
projeo de nveja, cmes e dio. Com minhas oraes e rituais,
minha mente atuava resolvendo alguns problemas, era uma espcie
de magnetizadora. Certamente nem todos os problemas eu solucionava,
quando havia espritos com os encarnados, o que fazia era
orar por eles. E, achando que dinheiro  sempre bem-vindo, cobrava
sempre. No comeo me justificava dizendo que era para comprar
alimentos para meus filhos, depois, porque sempre estava necessitada
de comprar algo, mas eram sempre objetos suprftuos. O fato
era que sempre tinha algo a fazer com o dinheiro em meu prprio
beneficio, dos meus filhos e dos meus netos. S que esqueci de fazer
a caridade. Eu, que passara pela pobreza, deixei de auxiliar outros
que passavam tambm pela misria. Muitos podem fazer o que fiz
sem saber do erro enorme realizado. Mas soube, tive oportunidade
de ser advertida, no dei ateno. Li os livros de Allan Kardec, pus
a "carapua" nos outros, ou seja, coloquei para outras pessoas as
advertncias dos livros,justificando-me. O fato  que no os entendi
bem mas o suficiente para saber que no devera cobrar e que
deveria trabalhar com minha mediundade num grupo sro e fazer
o Bem. O que me consola  que no fiz o mal. Por muitos anos vivi
assim, at que desencarnei. Como disse, no sofri demasiado por ter
alguns fatores a meu favor, como ter pedido a oportunidade de
crescer e reparar erros do passado com a mediunidade. Porque,
recordando a existncia anterior, vi que fui uma freira severa que
perseguia no convento quem tivesse alguma mediundade. No se
deve chorar pelo passado, s tirar lies para o futuro. Anseio por
nova oportunidade e planejo reencarnar e novamente ser mdium.
Desta vez quero, pela psicografia, me educar e tentar educar
muitos. Devo ser pobre novamente e vencer a tentao de usar a
minha mediundade para ganho material.
Mara da Penha silenciou e deu um longo suspro, mas logo
sorriu e cheia de esperana. Sorrimos tambm. No  porque se
errou uma vez que no se pode vencer no futuro.

72 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

- Maria da Penha, voc vai saber ler a sorte de novo?
- perguntou Ruth.
- Amiga, quando sabemos algo, este conhecimento  nosso,
seja ruim ou bom. Certamente poderei lembrar ou aprender fcil.
Mas no farei por dinheiro, meu desejo  mesmo no fazer isto. Se
o futuro fosse para sabermos, cada um de ns veria o prprio. No
vejo como fazer o bem que almejo lendo a sorte. No, Ruth, no
quero fazer isto de novo.
- Voc, Maria da Penha, na encarnao anterior preparou-se
para encarnar? - indagou Osvaldo.
- Sim, preparei-me, mas no muito, como estou me preparando
para a prxima. Tento num esforo maior fixar estes
ensinamentos na minha mente. Tenho muito medo de errar, mas
tenho tambm muita confiana. H um amigo que permanecer
desencarnado e me acompanhar, ser meu guia, protetor, pessoa
severa e boa que me ajudar na psicografia. Preparamo-nos para
escrever obras lindas no futuro. Estas aulas de redao esto sendo
muito importantes para mim, aprendo a narrar histrias para no
futuro ser mais fcil escrev-las.
Com curiosidade sadia, indaguei ao mestre Aureliano:
- Maria da Penha aprende a escrever histrias. No seria
importante tambm que ela aprendesse a far datas e nomes para
que quando encarnada, mdium psicgrafa, tivesse facilidade de
escrever estes itens?
- Sua pergunta, Patrcia,  bem interessante. Ser que Maria
da Penha, que faliu anteriormente, na prxima encarnao tende
facilidade de receber, psicografar datas e nomes no teria sua
vaidade tentada? No seria um peso demasiado para seus ombros
fracos? Poucos esto preparados para este evento. Que bom seria
que todos os desencarnados pudessem, por intermdio de encarnados,
provar sua identidade com nomes e datas que o mdiun
desconhecesse. Mas para estes mdiuns no seria uma porta aberta
a sua perdio? No ficariam orgulhosos e vaidosos deste fato? De
fato, se todos pudessem, como Chico Xavier, escrever nas mensagens
datas e nomes que comprovam quem realmente  o evocado que

A casa do escritor 73

- escreve, seria timo  credibilidade de muitos. Mas, como disse, 
um pesado fardo que s ombros fortes agentam sem se perder.
Chico Xavier conseguiu isto com muitos anos de trabalho e estudo
s quando conseguiu vencer sua vaidade. Escrever fatos  o
bastante para comear, depois outros fatores vm com o tempo. E,
para quem quer crer, um pingo  letra.
- E voc, Aureliano. no ter tambm uma histria interessante?
- perguntou Henrique, sorrindo.
Aureliano sorriu e, com seu jeito simples, falou de si.
- Sou um esprito milenar. H muito descobri o gosto pela
leitura, pela eserita. Na minha memria, lembro das primeiras
encarnaes na Terra, grafando desenhos na pedra. Tambm
sempre gostei de ensinar o que sabia. Sou mestre de longa data. Nas
minhas andanas pela Terra, sempre nas minhas encarnaes,
aprendi a ler, escrever e fui apurando meu gosto pela Literatura.
Certamente tenho muitas histrias de amores. desafetos e vitrias
a relatar sobre mim. Nas ltimas encarnaes tentei procurar Deus
nas diversas religies. Encontrei-O dentro de mim mesmo. Estou h
trezentos anos desencarnado e neste perodo todo dedico-me a
ensinar. Quando esta Casa foi criada, foi com grande alegria que
vim para c. Leciono dezesseis horas por dia, aqui e na Colnia de
Estudo. O restante, oito horas, dedico  Literatura que tanto amo.
Ou seja, ajudando ex-alunos encarnados, lendo obras novas e
procurando aprender para melhor ensinar.
- No ir reencarnar, Aureliano? - quis saber Adelaide.
- No tenho planos. Devo continuar ensinando no Plano
Espiritual ainda por muito tempo. Preparar espritos que tem
necessidade de encarnar  o meu objetivo.
- Esta sua tranqilidade tem causa? - indaguei.
- Certamente, a da conscincia tranqila. Atualmente ao
recordar meu passado nada tenho para reparar. Se reencarnasse
seria para progredir, mas fao este progresso aqui mesmo. Aprendo
muito ensinando.
- Quando reencarnar, far falta aqui - disse Ruth.

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

- No! Ningum  insubstituvel. Digamos somente que
estou bem encaixado no meu trabalho. E me alegro com sua
carinhosa observao. Creio que, quanto mais forem os desencarnados
a preparar-se para a encarnao, mais chance tero de
progredir, de realizar boas tarefas. A Terra est necessitada de
muita aprendizagem.
Minha admirao por Aureliano cresceu ainda mais. Como
 agradvel encontrar pessoas dispostas a passar aos outros tudo o
que sabem.  fantstico ensinar!

VIII
A BIBLIOTECA

Um lugar que gostava e gosto muito de ir  a biblioteca. A
biblioteca da Casa do Escritor  realmente fantstica. Espaosa,
tudo bem clarinho, com lindos lustres e janelas redondas, grandes,
com alguns vidros coloridos formando delicados desenhos em tom
claro. Tem muitas estantes, tudo catalogado e muitas escrivaninhas
para pesquisas e sofs confortveis. Para achar o que se quer ler,
temos o auxlo de um avanado aparelho parecido com o computador
que se tem na Terra. Mas h tambm um bibliotecro 
disposio para atender os leitores.
A coleo de livros antigos  encantadora. Em destaque
esto a Bblia e os Evangelhos, com tradues diferentes, grandes,
pequenos, ilustrados, com desenhos dos apstolos que so maravilhosas
obras de artes. Em todas as bibliotecas do Plano Espiritual
em destaque esto os Evangelhos e alguns livros importantes sobre
os mesmos. Logo  entrada h uma estante com os livros de Allan
Kardec, em francs e em portugus. A Colnia d muito valor a
estas obras. Junto tambm encontramos a bibliografia do mestre
francs e tambm de seus principais companheiros e mdiuns que
o ajudaram. H um livro que o prpro Kardec escreveu quando
desencarnado, para as Colnias de Literatura em especial, falando
de si e de sua obra. O livro  pequeno e simples, fala das dificuldades
que encontrou durante seu trabalho, de suas dvidas, dos esclarecimentos
e de suas amizades.
- Que livro bonito! Poderia ser com mais detalhes, no acha?
- indaguei  bibliotecria. - Ele mesmo escreveu to pouco de si.

76 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

- Mostra a simplicidade do nosso codificador. Temos aqui
bibliografias suas bem mais estensas, escritas por outros companheiros.
Acredito que Kardec ao fazer este livro quis exemplificar
que ele tambm lutou com seus vicios e defeitos, que se esforou
para fazer seu trabalho e que foram horas, dias e anos de luta para
consegui-lo. No foi um trabalho fcil e nem o recebeu sem esforo.
Mostra-nos que, se ele conseguiu, todos ns podemos tambm fazer
algo de til.
- Ser que os encarnados podero ler este livro um dia?
- indaguei novamente.
- No est nos planos divulg-lo entre os encarnados. Este
livro s se encontra nas bibliotecas de Colnias de Literatura.
Certamente o emprestamos e muito. Todas as Colnias que se
dedicam, como a Casa do Escritor,  lteratura edificante, tm pelas
obras de Kardec um carinho especial e um lugar de destaque.
J vira por outras Colnias, bibliotecas e salas de vdeos bem
maiores e mais bem equipadas que na Casa do escritor, mas nem
por isto deixava de ser encantadora. Quando necessitvamos ou
queramos ler uma obra que l no havia, emprestvamos de outras.
O emprstimo  faclimo. Pedimos por um aparelho, que d uma
leve lembrana do fax, e em mnutos recebemos a obra.
 direita da biblioteca esto os livros espritas, todos os bons
j editados para os encarnados. Tambm h obras escritas por
desencarnados que os encarnados desconhecem. Algumas muito
importantes sobre o tema da Doutrna Esprita. Que gostoso ler! Na
Colnia todos amam aprender, se afinam pelo gosto literrio e tm
o objetivo comum: divulgar e fazer boas obras.
A matria dada por Maria Adlia exigia-nos muitas pesquisas
e fazamos muitos trabalhos. Nestas ocasies, amos os oito 
biblioteca. Que gostoso! Passvamos horas lendo e nos informando.
Fizemos lindos trabalhos.
Tambm ia muito  sala de videos. Revi muitas vezes as fitas
da formao da Terra e dos principais acontecimentos do nosso
planeta. O que gosto especialmente de ver  tudo que se tem sobre

A casa do escritor

Jesus. Foram gravados quando Ele estava encarnado. Podemos
ver os principais fatos acontecidos com Ele, todos seus ensinos e
parbolas. So encantadoras, seus dizeres so maravilhosos. A
primeira vez que O vi, chorei o tempo todo. Ainda agora, que j
perdi a conta das vezes que vi, me emociono, em certos pedaos,
choro. Tambm gosto de ver os vdeos que temos sobre Allan
Kardec. Ele trabalhando com sua equipe, tanto a encarnada quanto
a desencarnada. Organizando o Livro dos Espritos e o Evangelho
Segundo o Espiritismo. Para aqueles que gostam de aprender,
lugares assim so deveras atraentes.
Ia muito s reunies da Casa. A Colnia recebe visitas de
moradores de outras Casas e de diversos pases. Trocam-se muitas
idias. Recebem-se tambm muitas pessoas importantes na Literatura,
tanto os que esto encarnados, como desencarnados.
Quase todos filiados  Casa. De modo especial, encantei-me
com os escritores Espritas: Emmanuel, Andr Luiz e Joanna de
ngelis. Andr Luiz sempre que possvel brindava a Casa com suas
palestras instrutivas e cativantes. Foi uma alegria imensa ouvir
Emmanuel num encontro com todos os filiados do Centro-Leste.
 um prazer ver encarnados escritores e mdiuns em reunies
de incentivos e esclarecimentos. Para muitos, a Casa  como uma
fonte de energia e fora, onde se beneficiam, restauram e mais:
recebem o apoio espiritual que necessitam. Porque, s vezes,
encarnados passam por perodos difceis e precisam do carinho dos
amigos para no desanimarem.
Gosto muito de indagar, de saber, assim procurava sempre
companhia dos que poderiam me ensinar. Conversava muito com o
simptico e instrudo diretor da Casa. Assim soube tudo o que
queria.
- Sr. Diretor, fale-me um pouco da Casa, do seu trabalho,
dos filiados.
- Patrcia-disse ele sempre gentil -, amo este lar e temos nos
esforado bastante para que o nosso trabalho d frutos. Seus
objetivos. seus trabalhos so maravilhosos. Temos prestado muita

78 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

ateno em todos que trabalham com a Literatura Esprita. Nossa
lista de filiados  grande. Todos que divulgam, vendem, editam e
escrevem a Literatura Edificante tm nossa assistncia. Se por dois
anos contnuos fazem este trabalho, filiamo-los  Casa.
- Se uma pessoa trabalhar um determinado tempo e abandonar,
continua filiado?
- Tudo faremos para incentivar a no abandonar ou a voltar.
Mas ela sendo livre, certamente pode abandonar a tarefa comeada.
Se depois de uma insistncia de nossa parte ela abandonar realmente,
 estudada a causa que a levou a este abandono. Porque, s vezes,
tm justificativas, como doenas, algumas dificuldades srias.
Neste caso, continua filiado. Mas, se no houver motivo, pode ser
desligado, mas levar sempre em seu favor o trabalho j realizado.
- Ao desencarnarem os filiados recebem alguma ajuda
especial? - indaguei novamente.
- Aqueles que ajudam a boa Literatura costumam ler tambm 
e aprendem muito. A maioria, com algumas raras excees
 aproveita o que l para o bem de si mesmo. Faz por merecer ser
socorrido aps o desencarne. Fazendo-se merecedor, recebe ajuda,
sim. Quando prevemos a desencarnao de um filiado, nossa equipe
vai ajud-lo nos ltimos dias, no seu desligamento e leva-o para uma
Colnia de Socorro de sua preferncia ou do espao espiritual de
sua cidade material. Pode ser levado tambm para Postos de
Socorro. Depois desta ajuda, cabe a eles continuarem no local para
o qual foram transportados ou no. Todos temos o livre-arbtrio de
querer ou no o socorro.  dificl um caso em que o filiado no aceite
nossa ajuda. Como disse, para si faz ao ler, divulgar, vender, ou at
escrever boas obras.
- J aconteceu de um filiado no merecer esta ajuda? 
- perguntei curiosa.
- Infelizmente sim. Mas, graas  bondade do Pai,  rarssimo
o fato. Mesmo assim, ele  vigiado por ns e, quando possvel,
 socorrido.
- J ocorreu de espritos ignorantes tentarem vingar-se de
espritos filiados, quando esto desencarnados recentemente? Este

A casa do escritor 79

vingar que digo - expliquei - sei que no tem razo de ser. Porm,
j ouvi muito por aqui estes irmos vingarem, blasfemarem,
jogarem pragas; o que quero saber  se aconteceu de eles quererem
se vingar dos que fazem o Bem.
- Sua pergunta, Patrcia,  muito interessante. Estes irmos,
 tm cimes do esforo que fazem muitos irmos que
caminham para o progresso e fazem o Bem. Eles falam, mas fazer
 outra histria. No conseguem. S podero conseguir se esta
pessoa descuidar e vibrar como eles, assim mesmo tero oportunidades
de receber sempre ajuda e conselhos dos bons. Realmente,
escutamos muito estes irmos falarem assim. porque, s vezes, o
bem que se faz pode atrapalhar uma maldade deles. Como no nosso
trabalho, um bom livro so muitas sementes boas que tm frutificado
em muitos coraes. E pode incomodar. Mas, respondendo
diretamente sua pergunta, no podem. Primeiro, porquej disse que
nossos filiados recebem assistncia e, quando desencarnam, os
vingativos nem podem chegar perto.  justo que o trabalhador do
Bem receba seu salrio na hora da desencarnao. Quem fez bons
amigos trabalhando para o Bem, estes lhe so fiis, ajudam quando
necessrio. Quanto s maldies, pragas deles sobre os bons, a eles
retornam por no encontrar ressonncia.
- Aqui no h recm-desencarnado. No se pode traz-lo
para c?
- No, aqui  lugar para os que esto totalmente adaptados
ao Plano Espiritual. Mesmo a desencarnao para os justos traz
at necessidade de uma recuperao e descanso. Mesmo que seja breve
sua adaptao na vida Espiritual, deve ser feita em local prprio.
Por isto so levados  Colnia de Socorro. Muitos, aps um
perodo, podem escolher o que iro fazer depois. Temos muitos que
foram filiados encarnados e que depois preferem outras formas de
atividades.
- Pode-se filiar depois de desencarnado?
Indaguei e ri. No havia acontecido este fato comigo? Mas,
Este j que indaguei, este amvel senhor respondeu, gentil.

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

-Certamente. Voc, Patricia, se filiou agora. (quando encarnada,
embora gostasse da boa Literatura e dos livros espritas, no
chegou a trabalhar com eles para merecer um filiamento. Isto
acontece bastante. Muitos mio tiveram a oportunidade de filiar-se
quando encarnado e o fazem aps. Aproveito, Patricia, para lhe
dizer que  um prazer t-la conosco. mesmo sabendo que ser por
pouco tempo. Conheo seus planos e incentivo-a. Devemos sempre
lutar e nos esforar para conseguir o que queremos.
- Tenho visto aqui encarnados no filiados em reunies. Por
que?
- So todos amantes da boa leitura. .Aqui vem porque se
afinam com a Casa e com seus moradores. Vm receber incentivos.
Este fato acontece raramente. Nossa preocupao  com os filiados.
- Pode acontecer de en certas ocasies os filimios receberem
remunerao material
- Sim. Temos cincia: elue saio o anh;r-p;o de famlias.
n?os empregados de bancaa. livr;irias. duc rccchcm seu salrio
para sobreviver. Infelizmente. ca que faze,n s pelo salario. fazem
co:ro se fosse apenas um trabalho como outro qualquer. estes
no so filiados. Os que trabalham com amor. embora tenham a
remuricrao que na,itam. filiam-se

--a Casa do Escritor stio filiados s~ os n~cclmns p;icv~~ra-
  os outros.
O diretor viu coa; raa a nonha perunia.
- Todos os que tezem v F3cn~ s~ tliam au EW m. l odos qut
tazem o Bem tem posnbrluiadm de W rn,iren-se bons. Uc fato. 4
Coisa trata da parte literria. cios mediuns psicereraf~s. tas o:
vutos mediuns tem tambm sua proteo. f'ara evme~ar. quem faa
o E3cm. para si faz. Quem far sc:~r mercccr. eonquista scu bon~ lugar
O~ outros mduns ativos~ os que traball~am para o I3em. dele;
u~mos c de outros. tW scEo,~r; ami~os bens a 11~~s prcstar a ajuda
rd:~~,saria. Tcm tambcm o carinho de tcxlo o ~entro Eaprita que
tr~lcntam. Est cIn projeto a frnri~o de um,r C'~lemia dc apoic
todos os mdiuns. Seri r.ona casa mvel conw estr. duc volitar

A casa do escritor 81

sobre o Brasil, incentivando todos os mdiuns a estudarem e serem
teis ao Bem.
No me dei por satisfeita, havia muitas perguntas para fazer.
Temi ser importuna. Mas amvel como sempre ele me incentivou a
indagar.
- Pergunte o que quiser, Patrcia, responderei como me for
        possvel.
No me fiz de rogada e continuei.
- Que acontece com os que vendem bons livros, mas vendem
os ruins tambm?
- Procuramos incentiv-los a ficar s com os bons. Embora
o que se diz ruim possa ser classificado de vrias formas. Devemos
analisar de que tipo  a literatura ruim que se vende. Podem ser ruins
os livros de pssimo gosto e que no dizem nada de bom nem de mau.
Agora, se forem obras que incentivam o crime, os vcios, as drogas,
o sexo, estas so nocivas. Se esta pessoa no atender nosso pedido
de ficar s com a boa, no pode ser filiada.
- pode um encarnado pedir a um escritor desencarnado para
trabalhar com ele?
- Pedir pode, mas para atend-lo tem que ser analisado seu
pedido. Este encarnado tem condies de ser um instrumento? 
mdium psicgrafo? Se for,  estudioso? Paciente e perseverante
para treinar e afiar seu instrumento? Se as respostas forem positivas,
ainda temos que levar em conta se o esprto que pede est
disponvel e quer. Agora, se seu pedido  para qualquer escritor
desencarnado,  mais fcil atend-lo. So poucos os bons escritores
conhecidos dos homens, mas muitos os conhecidos de Deus.
Agradeci a este amigo por tanta delicadeza em responder a
tantas perguntas. Sempre fui grata s pessoas que bondosamente
respondiam as minhas indagaes, em minha nsia de aprender
cada vez mais. E era sempre um enorme prazer participar de to
agradveis conversas.
Naquela tarde estava eufrica, amos receber uma visita
importante para mim, embora todas as visitas que a Casa recebe
sejam importantes e no se faa distino entre seus convidados.

82 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

Mas sempre admirei o visitante daquela tarde, Francisco Cndido
Xavier, pela sua dedicao  Literatura Esprita. Foram horas e
horas de trabalho, renncia, de esforo para conseguir escrever
tantos livros. Lembrei de um dos comentrios que Antnio Carlos
faz sempre: "O mdium  parceiro do escritor. Podemos dizer que
escrevem em dupla."
Fiquei a esper-lo no ptio da frente. Veio com Emmanuel.
Fiquei maravilhada.
- No est to velho! Parece to saudvel!
Antnio Carlos, que estava ao meu lado, sorriu das minhas
esclamaes.
- Patrcia, nosso perisprito demonstra o que somos na
realidade. s vezes, uma pessoa m tem o fisico lindo, mas seu
perisprito  feio. E pode ocorrer o contrrio. No que seja o
perisprito totalmente diferente do corpo carnal, mas a harmonia e
a bondade do a perfeio. O desequilbrio e a maldade desarmonizam,
deformando. Voc olha o Chico e o reconhece, sente que 
ele. Sabe que seu corpo est desgastado pelo tempo e pelas doenas,
mas seu perisprito no. Ele  bonito pela harmonia e simplicidade
de que  portador. Realmente ele parece mais jovem. Seu esprito
com entendimento irrada ao perisprito sade e alegria de misso
cumprida. Voc j viu muitos desencarnados que tm nos perispritos
fortes reflexos de doenas, velhice e necessidades. Outros,
logo que desencarnam, pelo entendimento e merecimento,j tm seu
perisprito harmonizado. E, outros anda, mesmo encarnados, j
so desprendidos destas necessidades. Tm a sade espiritual
porque cultivam o verdadeiro, o eterno, a vivnca do bem, do
Esprito.
Logo que ele chegou foram muitos a cumpriment-lo. Tentei
aproximar-me. Acanhada, fiquei observando-o de perto. Ele andava,
eu andava atrs. Para todos tinha uma palavra carinhosa e uma
memria incrvel, indagava sobre fatos e sobre amigos comuns.
Num momento que ficou sozinho, criei coragem e aproximei-me.
Deu-me a mo para um cumprimento e me olhou com muito
carinho. Disse-lhe:

 A casa do escritor 83

- Obrigada, Chico, por voc no ter desistido de sua tarefa
e ter, junto com tantos escritores, nos legado livros maravilhosos.
Particularmente, estes livros muito me ajudaram e ajudam a tantas
pessoas.
Ele sorriu e indagou:
- Faz algum curso na Casa?
- Sim, estou me preparando para ditar aos encarnados.
- Voc, ento, acha que fiz algo de bom? Que fao?
- Acho sim.
- Faa ento como fiz!
Passou a mo delicadamente pelos meus cabelos e, sorrindo,
concluiu:
- Que os bons exemplos sejam seus objetivos. Que o Pai a
abenoe!
Emocionei-me tanto que senti meus olhos lagrimarem. Outros
companheiros se aproximaram e ele sempre atencioso voltou
para lhes dar ateno.
Todos fomos convidados a ouvir uma palestra. Humberto
foi o orador. Como sempre o assunto foi a Literatura. Falou das
dificuldades em se fazer bons livros. Que atualmente muitos bons
escritores estavam desencarnados. E que nem todos podiam usar da
psicografia por falta de bons mdiuns, de instrumentos que fossem
dedicados e corretos. Para fazer bons livros  necessrio coragem.
Materialmente est dificil e infelizmente se vende pouco. Mas
terminou incentivando todos ao bom nimo e ao trabalho incessante.
No discursou muito. Aps convidou Chico para falar. Sorrindo
sempre, este conhecido Esprita e mdium levantou-se e diante de
todos disse poucas palavras.
- Irmos, que Jesus esteja em nossos coraes! O que
umberto disse veio muito a calhar nos acontecimentos atuais.
Necessitamos de bons escritores encarnados e de mdiuns que
aceitem a tarefa fiel de intermedirios. Mdiuns sem vaidade, que
trabalhem com boa vontade e que no tenham pressa de editar, logo
que comecem a psicografia. H necessidade de se fazer um treino,

84 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

e de estudos da Doutrina e das obras de Kardec. Que no fiquem
com medo de fazer, nem com desnimo. E nem que pensem que no
vale a pena. Este trabalho no dar frutos materiais, sim espirituais.
Reunidos aqui, pensemos na necessidade de trabalhar sempre.
Se encarnados, qe se voltem ao estudo com seriedade e dedicao.
Nada se faz de um dia para o outro. Aos desencarnados,
incentivo-os a encarnarem e a dedicarem-se no plano fsico 
Literatura Esprita edificante. E que tambm se preparem para ser
mdiuns psicgrafos.
Deu uma pausa e um dos ouvintes indagou:
- Chico, acabei um curso que me preparou para quando for
encarnado ser mdium psicgrafo. Tenho medo de me perder, acho
que no serei capaz de dedicar-me tanto, de renunciar aos prazeres
da matria para dedicar-me ao treino, ao trabalho, aos livros. Que
me diz? Sei que sua existncia encarnada no tem sido fcil.
- Tambm no  dificil. No me sacrfiquei. Quando se faz
o que se ama, tudo  mais fcil,  nosso prazer. Fui e sou muito feliz.
Ganhei mais que imaginava. A tranqilidade e a Paz que sinto so
altssma recompensa. A amizade de que sou portador no tem
preo. Ame, tente amar mais, e ir fazer o que planeja. Ame e tudo
lhe ficar mais fcil.
A reunio acabou com uma linda prece.
Foi uma noite memorvel.

IX  NO UMBRAL

Foram inmeras as excurses que fizemos ao Umbral, em
grupo ou sozinhos, com a finalidade de auxiliar, e tambm
colecionar histrias que iramos escrever nas aulas de redao.
Depois de tanto tempo desencarnada, acostumei-me com o
Umbral, no tinha mais medo e nem me parecia um lugar horrvel
como achei nas primeiras vezes que o vi. O medo no tem razo de
ser quando entendemos que l esto nossos irmos.  um lugar feio,
 uma conseqncia da vivncia errada do ser humano. E, pelas
minhas recordaes,j tinha sido meu lar provisrio em existncias
anteriores.
Conversas com grupos so dificeis. Ou eles atacam ou
querem que voc faa parte da equipe deles. Assim, ns nos
dirigamos aos isolados ou agrupados pelo sofrimento. Chegvamos
com educao e oferecamos ajuda de modo sutil. Por exemplo:
- Voc deseja que o ajude a sentar aqui? Quer gua? D sua
mo para sair da.
Porque, seno, querem logo coisas impossveis: que os ajudemos
a se vingar, a ir perto dos encarnados, a se tornarem fortes para
serem maiores, etc. Mas encontramos sempre os carentes de
ajuda e dificilmente, nestas excurses, no voltvamos com muitos
socorridos que levvamos ao Posto de Socorro mais prximo.
Quando sozinha, sempre dei preferncia aos que me pareciam
sofredores e mais humildes. Deles aproximava-me e comeava
a conversar, facilmente lia seus pensamentos e ficava sabendo
da vida deles. Isto no era feito s pela histria, mas tambm para

86 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

ajudar. Como uma vez em que encontrei uma mocinha presa numa
caverna. Tirei-a de l e fomos sentar em uma pedra a uma pequena
distncia do lugar em que estava presa.
- Por que estava presa? No quer me falar de voc? - disse,
mostrando-lhe amizade e dando da gua fluidificada que trazia
comigo. Tomou a gua com a nsia dos sedentos, me olhou
demoradamente e indagou:
- Quem  voc? Tirou-me da caverna, no teme meu
carrasco?
Falava bem, mostrando ser instruda. Estava com os cabelos
desalinhados, armados, que lhe vinham at o ombro. Magra e com
as roupas em farrapos. Tinha alguns machucados.
- No tenho medo. Deixe-me passar esta gua em seus
ferimentos.
Ela deixou, submissa. Passei e, com a fora da minha mente,
fui curando-a.
- Puxa! Voc  espetacular! Est me curando!
Quase todos seus ferimentos fecharam.
- Voc no quer conversar comgo?
- Desencarnei h doze anos, aos trnta e sete anos. Logo que
deixei o corpo morto, este carrasco me pegou e tem me prendido. 
horrvel!
- Que fez a ele para mant-la assim? - indaguei.
-Nada de mais. Quando encarnados fomos amantes, mas ele
era casado. Resolvi deix-lo, ele no se conformou, deu para beber.
Culpa-me por muitas coisas ruins que lhe aconteceram. Ama-me e
odeia-me, prendeu-me por cimes e por no am-lo.
Bem, se eu no tivesse lido seus pensamentos e soubesse
s uma parte da histria, a que ela me contou, pensaria ser este
fato algo tremendamente injusto. Mas, por aqui, no h injustia.
Socorristas esto sempre pelo Umbral, socorrendo os que esto
prontos a vbrar diferente.
A histra que l nos pensamentos dela foi outra. Ela era
volvel e m, acabou conquistando um homem casado, bom esposo

A casa do escritor 87

e timo pai. Acabou com tudo que ele tinha financeiramente e queria
que ele abandonasse a famlia. Ele no quis e largou dela. Ela
planejou se vingar. At que um dia conseguiu envenenar a gua da
famlia dele. A caulinha de trs anos desencarnou envenenada.
Outra filha de cinco anos ficou com a laringe e a lngua danificadas,
quase no conseguiu falar mais. Ele, a esposa e outro filho sofreram
pequenas intoxicaes. Desconfiaram dela, mas no tiveram como
provar. Sua esposa o acusou por isto e foi embora com os dois filhos
para a casa de seus pais. Ele ps-se a beber e virou um farrapo
humano. Quis voltar para ela, que no o quis, ele no tinha mais
dinheiro. Para ter dinheiro, foi roubar e acabou preso, desencarnou
na priso. Ela ainda cometeu muitos outros erros. Ele, o carrasco,
como o chamava, esperou que ela desencarnasse para vingar-se.
- Voc no contou toda sua histria - disse-lhe. - No lhe
pesa na conscincia a morte de um inocente? Por que envenenou a
gua da famlia dele?
- Como sabe disto?  bruxa? L o pensamento? Est aqui
para me acusar?
Levantou-se e respondeu enrgica, deixou cair a mscara de
humildade. Respondi com calma:
- No, s tento ajud-la. Mas, para que possa auxili-la,
deve arrepender-se dos seus erros e repar-los.
- Est louca? Nunca reparei nada. Fiz e est feito! Mereceram!
No quero conselhos. Voc me  desagradvel. Odeio voc!
Odeio todos!
Saiu correndo. No fui atrs. O Umbral por enquanto era o
melhor lar para ela. Talvez seu carrasco no mais a encontrasse. Ele
tambm necessitaria reconhecer sua parte na culpa, traiu a esposa,
uniu-se a quem no prestava. Tambm deveria perdoar e tentar
reparar sua falta com os membros de sua famlia. Ela era fingida,
queria piedade sem mudar sua forma de pensar. Espritos assim
num local de socorro s aprontam confuses. Por isso os socorristas
do Umbral tm que saber a quem socorrer.
Uma outra vez, vi um senhor no muito velho, mas com os
cabelos quase todos grisalhos. Estava sujo e com as roupas em

88 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

farrapas. Usava uma bengala e arrastava a perna esquerda,
estava inchadssima e cheia de feridas.
- Bom dia! Como vai o senhor? - indaguei gentilmente.
Ele parou, sentou-se numa pedra e me convidou com a cabea
a fazer o mesmo e respondeu:
- Bom dia! Estou bem mal. A perna me di horrivelmente.
Tinha a ferida quando encarnado e agora, mesmo com meu corpo
morto, ainda sofro com ela.
- Por que a tem assim, ferida e inchada? - indaguei.
- Porque Deus assim quer.
Enquanto falava, li seus pensamentos. Vi que ele desde
jovem, sado, esmolava. Finga-se de doente, enfaixava a pernapara
dar pena s pessoas. Muitas vezes, chegou a cortar ele mesmoa
perna para que os ferimentos fossem autnticos. Desencarnou
devido a estes ferimentos que infeccionaram. Quando viu que eu o
observava, deixou de ser educado.
- Quem  voc, minha jovem? Alguma boboca que vem me !
dar sermes? Dizer que devo perdoar, pedir perdo? No fao nada
disto! Nada tenho a pedir perdo.
- Nem por pedir esmolas fingindo-se doente?
- Ora, ora! As pessoas me deram esmolas porque quiseram,
A perna  minha e uso-a como quero. Pedia esmolas em nome de
Deus. E cad Ele?
Levantou-se e com dificuldade foi andando e arrastando a
perna. Levantei-me tambm para tentar dialogar com ele.
- V se no me amola!
Cuspiu-me. Foi andando blasfemando, dizendo que nada
fizera de errado. Achando que no momento era intl tentar ajud-lo,
voltei, deixando-o ir no sei para onde. Devo explicar que a
cuspida que ele me deu no me atingiu. Depois que aprendemos,
estudamos como viver no Plano Espiritual, objetos de irmos com
vibraes inferiores no nos atingem.
- Ai... Ai...
Escutei um da em uma das minhas visitas pelo Umbral. Parei
para ver de onde vinham to doloridos ais. Achei. Vinham de uma

A casa do escritor 89

lama. Deitado no barro um esprito gemia tristemente. Peguei-o
pela mo e retirei-o da lama. Vi que se tratava de uma mulher, estava
nua, toda suja, cheirando mal.
- No me olhe, estou sem roupa - disse ela com dificuldade.
Tirei da minha mochila um lenol e enrolei-a. Todas as vezes
que amos ao Umbral, levvamos nossa mochila nas costas. Nela,
alguns apetrechos que sempre utilizamos, como lenis, gua,
alimentos, lanternas, cordas, etc.
- To limpo! Sujou-o todo.
- No faz mal. Quer gua?
- Limpa? Quero sim.
Peguei a gua e joguei um pouco sobre seu rosto e mos
limpando-os um pouco, depois dei para que bebesse. Bebeu com
avidez, aps me entregou o cantil e tentou sorrir, mas acabou
fazendo uma careta.
- Obrigada!
- Por que voc est aqui? Voc no lembra de Deus? De orar?
- No senhora. No posso orar, sou pecadora. Meu lugar 
na lama. Acho que devo voltar.
- Espere um pouco. Converse primeiro comigo.
- A senhora no se importa? Sou pecadora!
- No me importo. Est com fome? Coma este po.
Ofereci-lhe um po que pegou depressa e ps-se a com-lo.
Coloquei minha mo nas suas costas e ajudei-a, sem que percebesse,
a andar at uma pedra para que pudssemos sentar. Enquanto
comia, li seus pensamentos. Quando acabou de comer, agradeceu
novamente.
- No quer me contar o que houve com voc? - indaguei.
Olhou-me tristemente, agora mais refeita, e falou.
- Era adolescente quando comecei a namorar e fui para cama
com ele. Mas ele no queria nada srio comigo. Foi embora, arrumei
outro, mais outro. Meu pai descobriu e me expulsou de casa
dizendo: "Vai embora maldita! Vai para a lama que  seu lugar."
Temi sua ira e pedi: "Pai, pelo Amor de Deus, no me expulse!"

90 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

"No pronuncie o nome de Deus. voc no pode, no deve,  mpura
demais." Fui para a prostituio. Meu pai logo veio a falecer de
desgosto. Ento, nunca mais rezei ou falei o nome deste a que me
perguntou.
- Deus?
- Sim, no sou digna e, como meu pai falou, vim para a lama.
Penso que aqui  o meu lugar.
- No se arrependeu do que fez?
- Arrepender como?
- Se tivesse que voltar atrs, agiria diferente?
-No sei... No sei... Que fiz de errado? Cada um no nasce
com seu destino marcado?
Estava sendo sincera, acreditava que tinha nascido para ser
uma prostituta. O que no  verdade. Ningum reencarna para errar.
Apiedei-me.
- Venha comigo. Voc ir aprender muitas coisas. Por
exemplo, que Deus  Amor, quer bem a todos seus filhos. Voc 
filha Dele. No se envergonhe em pronunciar Seu nome. Orar far
bem a voc. No, minha irm, a lama no  lugar para ningum.
Vem comigo!
- Ser que devo mesmo? Meu pai ficar zangado.
- No, seu pai no ficar. Voc necessita de auxlio.
Levei-a para um Posto de Socorro perto, eu mesma a limpei.
cortei seu cabelo, suas unhas, alimentei-a e a deixei dormindo. Fui
muitas vezes visit-la. Era obediente, mas no comeo, mesmo
gostando demais de ficar no Posto, queria voltar para a lama que
dizia ser seu lugar. Foi com dificuldade que pronunciou o nome de
Deus e reaprendeu a orar. Muito tem que aprender. Foi com alegria
que um dia, ao vist-la, encontrei-a ajudando na lmpeza.
Muitos fatos vemos no Umbral que nos comovem, mas nem
sempre a aparncia de mrtir  real. Muitos presos soltamos e em
vez de nos agradecer eles nos odiaram e disseram blasfmias.
Quando vemos escravos, a vontade que d  de solt-los, mas so
escravos por afinidades com seus algozes. Soltos, mostram a

A casa do escritor 91

revolta e querem que os ajudemos a vingarem-se. Sabemos que
estes, infelizmente, so os mais necessitados, mas pouco podemos
fazer. Levar espritos revoltados para um socorro  imprudente. S
se pode dar auxlio aos que querem ser auxiliados. Mas, mesmo se
no podemos socorr-los, ao conversarmos, e darmos conselhos,
lanamos uma semente e quem sabe esta semente um dia florescer
como arrependimento e vontade de mudar.
O umbral nos leva a meditar na imensa bondade do Pai que
nos deu um local provisrio para morar. Aprendi a amar o Umbral
e tudo que h nele, especialmente meus irmos.

TRABALHANDO COM A EQUIPE
A Casa amanheceu em festa. Muito mais flores e convidados
deram-lhe um brilho todo especial. Um dos moradores ia reencarnar.
Isto mesmo! Fausto, um ativo trabalhador da Casa, ia vestir um
corpo carnal. Estava no ptio recebendo abraos, incentivos e votos
de xito. Participei da festa, embora o conhecendo h pouco tempo.
Ele  simptico, inteligente e muito sorridente. Estava contente com
a demonstrao de carinho, embora s vezes leve preocupao
brilhasse em seus olhos.
Ficou o dia todo rodeado de amigos, passei a fazer parte da
roda, escutvamo-lo com prazer.
- Meus futuros pais so filiados da Casa. Donos de uma
pequena Editora Esprita, lutam para mant-la e ampli-la. Terei
uma irm e um irmo, ambos lindos e amigos. Vou reencarnar
esperanoso!
- Conseguir vencer amigo! - disse-lhe um dos companheiros.
- Conseguir fazer o que planeja!
- Preparei-me muito. Fiz cursos, trabalhei aproveitando todo
o meu tempo. Sinto deixar a Casa, amo-a tanto. Mas ser por tempo
determinado. A ela voltarei, se Deus quiser. Vou confiando na ajuda
de tantos amigos. Continuo filiado  Casa. Espero fazer tudo que
planejei e contribuir encarnado em prol da boa Literatura.
Antnio Carlos estava conosco, afastei-me com ele alguns
passos do grupo, para perguntar:
- Ele continuar filiado  Casa?
- Sim.

A casa do escritor 93

- Se ele vier a falhar na carne, o que acontecer? Ele
preparou-se para se dedicar  Literatura Esprita, se as dificuldades
o levarem a outras atividades, continuar filiado?
- Criana e adolescente receber nossa ateno como filiado
que . Na fase adulta, os cuidados sero redobrados. Ter apoio e
incentivos para fazer o que lhe cabe por escolha. Mas ele tem seu
livre-arbtrio, poder se envolver em outras atividades, e no fazer
o que se props. Depois de muitas tentativas de nossa parte para
cham-lo  realidade e ele recusar, a Casa retirar sua ajuda. Mas
ficar sempre como amigo. Porque ele os fez. Quanto  filiao, no
caso dele, que muito trabalhou pela Casa, ficar cancelada, mas
podendo voltar quando quiser.
- Isto j ocorreu? Alguma filiao foi cancelada?
- Infelizmente sim.
- Acho que  porque nem todos se preparam para reencarnar,
no ?
- Sim. Infelizmente no acontece com mais freqncia do
que deveria ser. A preparao se d com uma pequena parte. Vemos
milhares de reencarnaes ocorrerem todos os dias e uma pequena
frao somente recebe preparo. Lembro-lhe que o livre-arbtrio 
respeitado. O desencarnado tambm tem a sua vontade. A reencarnao
 oportunidade para todos. Quem gosta de aprender, o faz
encarnado ou desencarnado. Este preparo inclui estudos, dedicao
e nem todos esto dispostos a isto. Patrcia, mesmo espritos com
dom literrio no aceitam o ensino da Casa. Tanto que vemos
muitos escritores com talento escrevendo tantas barbaridades.
- Antnio Carlos, outro dia conversei com um visitante
desencarnado que est em outra Colnia estudando e trabalhando.
Veio aqui conhecer e inscrever-se em cursos da Casa. Disse-me que
cometeu muitos erros no campo literrio. Que se via num terreno s
de plantaes ruins. Plantou muitas coisas ms. A colheita o
incomodou. Pensou: se me dedicar s  colheita, no terei tempo
para mais nada. Mas os ensinos que recebeu no Plano Espiritual o
incentivaram. No precisaria necessariamente colher da plantao
ruim, pelo trabalho no Bem, ele poderia limpar seu terreno e plantar
boa semente. E evitar a colheita ruim. Que acha disto?

94 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

- Que pensa que sua tia Vera e eu fazemos? Pelo trabalho
estamos "roando" a plantao ruim. Mas, pelo trabalho, realmente.
E, mesmo assim, ferimo-nos tantas vezes com os espinhos. Se
fizermos o trabalho todo, evitaremos a m colheita. Nos pedaos
limpos, j plantamos a boa semente que germna. A boa planta
nasce com amor e nos sustentar na luta com sua colheita bendita.
Patrcia, se todos trocassem a colheita ruim pelo trabalho no Bem,
pela transformao interior para melhor, a colheita de dores e
sofrimentos sumiria da Terra.
Voltamos nossa ateno ao Fausto que recebeu amigos o dia
todo numa demonstrao de confraternizao e carinho.  noite, ele
partiu, ia para o Departamento de Reencarnao, numa Colnia de
Socorro. Partiu feliz e confiante. Desejei ardentemente que tivesse
xito nos seus propsitos.
Durante o tempo que estive na Casa do escritor vi algumas
reencarnaes. Todos com muitos ncentivos e esperando realmente
que cumprissem o que planejaram.
A equipe fora chamada para assistir a uma desencarnao de
um dos seus filiados. Fui, feliz.
Nosso amigo prestes a desencarnar estava doente, hospitalizado.
J h alguns dias um companheiro da Casa o acompanhava,
tambm estava com ele o companheiro desencarnado de muitos
anos de trabalho. Chegamos ao local e fomos cumprimentados
pelos amigos desencarnados. Agora ramos cinco. Nosso companheiro
que h das estava com ele nos informou:
-Nosso amigo piora. Sente a desencarnao e est tranqilo.
Nestes dias eu o intu para que deixasse seus assuntos em ordem.
Atendeu-me, organizou papis, tudo que um encarnado tem que
deixar certo para facilitar a vida dos familares.
- Tem dores? - indaguei.
- Sim, tem tido. Mas no reclama.
- Ele no poderia ficar mais tempo? - indaguei novamente.
- Faz um trabalho to bonito e no est velho.
- Ele mesmo, antes de reencarnar, marcou o tempo de sua
desencarnao. Est indo na data certa. De fato, fez um trabalho
lindo, isto justifica nossa presena ao seu lado.

A casa do escritor 95

No tardou a ter outra crise. Familiares encarnados e o
mdico atenderam-no solcitos. Nosso trabalho de desligamento
comeou to logo seu corao parou. Ele adormeceu, nada sentiu
ou viu. Horas depois, levamo-lo para a uma Colnia de Socorro e
deixamo-lo bem instalado num quarto. Ali, a equipe da Colnia, do
Hospital, cuidaria dele. Seu companheiro iria ficar com ele e
acompanh-lo nos primeiros passos como desencarnado.
- Quando estiver bem ir para a Casa do escritor?
- indaguei.
- Depender de sua vontade, mas este amigo  amante da
Literatura, creio que continuar a trabalhar com ela.
- Que bonita a desencarnao de pessoas vitoriosas em suas
tarefas! De pessoas boas! - exclamei.
Mas tivemos uma desencarnao de um filiado que no
queria a desencarnao. Estava revoltado com os familiares e com
os assuntos financeiros. Cumpriu pela metade o que se propusera.
Sua desencarnao foi mais dolorosa, porque se esforou para no
desligar. Mas o corpo morre, o esprito tem que abandon-lo.
Adormecemo-lo com passes, desligamos e foi levado para um Posto
de Socorro. Cabia a ele aceitar ou no o socorro oferecido.
- Se ele no aceitar? - indaguei a um dos meus companheiros
de equipe.
- Poder voltar para o lado da famlia ou vagar. Mas como
fez muitos amigos, tanto encarnados como desencarnados, no
ficar desprotegido. Os amigos encarnados pediro por ele e os
desencarnados iro at ele oferecer ajuda. Ele  uma boa pessoa,
inteligente, saber definir o que lhe  bom.
Curiosa, indaguei ao meu companheiro.
- Flvio, muitos dos filiados so ativos em outras reas
tambm. Muitos, alm de se dedicarem com carinho ao livro

" N.A.E. - Guia, protetor, o desencarnado que trabalhou com ele no trabalho do
bem.

96 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

Esprita, so mdiuns trabalhadores em Centros Espritas. Outros
trabalham em reas sociais. Quando desencarnarem, quem vir
ajud-los?
- Como  bom fazer e ter amigos. E ter quem nos ajude neste
momento importante que  a desencarnao. Isto ocorre realmente.
H filiados que trabalham ativos em outras reas. Bem, quanto a
quem ir ajud-los na desencarnao depender dele e do seu
companheiro desencarnado. O importante  ter perto bons amigos
na hora do desligamento. Depois ele escolher a atividade que r
cultivar.
Fomos chamados para auxiliar na desencarnao de uma
filiada diferente. No era Esprita. Por muitos anos dedicou-se  boa
Literatura, a infantil, e com muito carinho. Sempre se esforou para
passar nos seus livros a boa moral. Como teve uma religio que no
explica o que seja a morte do corpo, temia a desencarnao e isto
dificultou nosso trabalho. Por dias acalmamo-la com passes.
Desencarnou tranqila e foi levada para uma Colnia. Certamente
iria estranhar, mas como era inteligente e boa acreditvamos que
logo estaria bem. Quanto  sua ida  Casa do escritor, se quisesse
ir, iria demorar, antes necessitara aprender muito e adaptar-se 
nova mao.
A equipe da Casa estava sempre alerta aos pedidos de ajuda
de quem lida com livros Espritas. Com carinho especial auxiliam
Feiras, Baneas e as Editoras.
Ia acontecer uma Feira do Livro Esprita importante. Era a
primeira que o grupo realizava. Fomos convidados a participar para
incentvar e para proteg-los, porque a equpe do Umbral da regio
estava furiosa com o evento e prometia tumultuar o local. Mas tudo
deu certo. Durante a feira, uma equipe da Casa ficou o tempo todo
nas barracas e foi um sucesso. Os irmos do Umbral bem que
observaram de longe. Foram convidados a aproximar-se para ver
melhor. Uns vieram, a maioria foi embora ou ficou olhando de
longe. Os que vieram, olharam os livros e conversaram, muitos
pediram socorro. No final, os organizadores da feira ficaram felizes
e ns tambm. A Feira do Livro Espirita  sempre uma distribuio


A casa do escritor

de bens, de ajudas e de instrues, que leva muitos a procurar
caminhar rumo ao progresso.
Ia tambm muito ao Centro Esprita que minha famlia
freqenta. Que grande aprendizado  para o desencarnado trabalhar
num Centro Esprita. Com os problemas dirios surgidos, a ajuda
 constante tanto a encarnados como a desencarnados necessitados.
Artur, companheiro desencarnado de trabalho de meu pai, 
meu grande amigo. Est sempre sorrindo,  muito instrudo e
inteligente. Gosto de v-lo em atividades no Centro.  para mim um
exemplo a ser seguido.  querido por todos. H tempo observava-o
e pensava: "Ser que Artur tem uma histria interessante? Que
acontecimentos o teriam levado a ser to dedicado?"
Numa tarde em que o Centro estava com pouco trabalho, e
isto acontece raramente, os trabalhadores conversavam no ptio.
Entrei no salo onde se realizavam os encontros de encarnados e
desencarnados. Entrei devagarinho e vi Artur diante de um quadro
que retrata o Mestre Jesus. Estava distrado, encantado, seu rosto
sereno irradiava harmonia e amor.
- Oi, Artur, atrapalho?
- No, menina Patrcia. Deseja algo?
Respondeu sorrindo e olhando para mim.
- Lindo quadro! Ama muito Jesus, no ?
- Sim.
- Teria ocorrido com voc um fato especial pra am-lo
assim?
- S por ter nos deixado estes ensinamentos maravilhosos
seria o bastante para que todos ns o amssemos. Mas voc tem
razo, existe algo particular entre Jesus e mim.
- Posso saber que fato  este? - disse.
Sentei numa cadeira. convidando-o com a mo a sentar-se ao
meu lado. Ele o fez.
- Voc est me saindo uma caadora de histrias...
Rimos.
- H muito tempo, Patrcia, fui um esprito rebelde, zombava
de tudo e de todos, s pensava em prazeres e em mim da forma mais

97 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

egosta possvel. Era terrvel, encarnado, e horroroso, quando
desencarnado. Desencarnado, uma vez me uni a um grupo de
amigos afins, formamos uma legio para obsediar uma pessoa.
Tudo estava bem para ns, judivamos do pobre encarnado numa
farra. Devo dizer que, para ser obsediado, o encarnado vibrava
igual e tudo que sofria tinha como conseqncia uma m colheita.
Tudo corria bem para ns, quando nos vimos numa enrascada.
Senti-me preso, sem poder me mover, como todos os outros
companheiros. S ouvamos e vamos o que acontecia. Uma fora
maior, muito grande, nos prendera. Vimo-nos cercados por vrias
pessoas, umas encarnadas e outras desencarnadas. Mas esta fora
que nos prendia nos fazia tremer, e ao mesmo tempo nos maravilhava,
vinha de um encarnado. Este homem fenomenal colocou a mo
sobre a pessoa que obsedivamos e disse: "Tua f o salvou!" Olhei
para este encarnado, vi uma imagem humana de rara beleza e
tranqilidade. Nunca vira pessoa assim. " Jesus!" - disse um dos
encarnados que o acompanhava. " Ele, Jesus Nazareno, que curou
este homem!" Jesus me olhou com profundo amor, no me condenou,
me amou. Seu olhar meigo e bondoso me olhando  um fato no
esquecido. Fomos retirados de perto daquele obsediado por uma
equipe desencarnada e levados para um Posto de Socorro. L
fomos orientados para o Bem. Mas ramos livres para ficar ou no.
Se voltssemos, estvamos proibidos de nos aproximar do ex-obsediado. 
A maioria ficou, eu fiquei e fiz um voto de me modificar.
Nunca esqueci que por momentos vi Jesus. Este encontro ficou forte
em mim. Depois de um preparo, reencarnei. No foi fcil minha
luta. Tinha muitos vcios e maus costumes como uma colheita bem
amarga. Encarnei muitas, muitas vezes nestes quase dois mil anos.
Sempre procurando melhorar. A imagem do meu encontro com
Jesus vinha de modo vago, quando estava encarnado. Sempre, na
carne, gostei de olhar imagens. quadros do Mestre Nazareno, tinha
sempre uma saudade sem entender o porqu. Quando desencarnado,
lembrava do ocorrido, este fato sempre me deu foras para
melhorar e progredir. Nosso encontro me marcou muito, tanto que

A casa do escritor

memorizo e a cena com todos os detalhes me vem  memria. Posso
ainda sentir seu olhar de amor. Nestas minhas romagens pela Terra,
fui sacerdote catlico, pastor protestante, sempre tentando seguir
Jesus. Tantas vezes me enganei. Mas, nas ltimas encarnaes,
melhorei realmente e foi na ltima que encontrei a Doutrina Esprita
e entendi melhor os ensinamentos do Mestre Jesus. Tento s,
Patrcia, seguir seu exemplo. Amo meu trabalho junto aos nossos
irmos que esto nas trevas da ignorncia, que temporariamente
esto entrelaados no erro, com o mesmo Amor com que Jesus me
olhou por segundos.
Abracei-o. No conseguimos falar mais nada. Entendi.
Todos ns temos nossa histria e, quem sabe, um fato particular que
nos leva ao Amor.

XI EXCURSES

Fizemos muitas excurses a muitas Colnias e uma que me
encantou de modo especial, por parecer com a Casa do escritor, foi
a Colnia que se dedica  Msica e  Pintura.  lindssima,
mvel, temtambm muitos filiados por todo o Brasil. Seu trabalho
assemelha-se com o nosso. Tentam auxiliar sempre os que se
dedicam  arte musical e  pintura.  rodeada por lindssimas
rvores e flores. Por toda a Colnia vemos quadros famosos, cpias
ou originais. H muitos sales dedicados  msica. Sua biblioteca
e salas de vdeos so sobre os assuntos com que se trabalha na
Colnia. Fomos brindados com lindas msicas num dos seus sales
e foi emocionante ter visto lindos quadros.
Em todas estas Colnias, como tambm nas de estudo, fala-se 
muito o Esperanto.  muito agradvel, o som das palavras 
suave e harmonioso. Aqui se incentiva muito a aprendizagem desta
fabulosa lngua.
Partimos para ver na Terra o trabalho de encarnados com a
Literatura. Ou seja, tudo que se escreve. Assombramo-nos com o
nmero de revistas de fofocas e erticas, com sua quantidade e
preos altos. Fomos visitar suas editoras. So lugares de trabalho
como outro qualquer. So sempre visitados por uma equipe da Casa
do escritor, como a nossa, com os oito alunos e Maria Adlia.
Depois de vermos tudo, fomos observar as pessoas que l trabalham.
Pessoas normais, umas inteligentes, que ali estavam pelo
salrio. Algumas estavam sendo influenciadas por espritos bons ou

A casa do escritor 101

maus. Muitos espritos bons ali trabalham, como ia tentar fazer
nosso companheiro Jos Luiz, tentam instruir as pessoas para que
escrevam artigos bons. Outros espritos, maus, ali estavam para
guardar o territrio, que de fato era mais deles que nosso. Costumam
instru-los a escrever mais fofocas e maledicncias. Nenhum
deles obsedia por este motivo, s tentam instru-los. Tudo estava
calmo. Nestas revistas que tm como objetivo assuntos banais,
nosso trabalho  dificil, s vezes, impossvel. Tanto que a maioria
das visitas so apenas de reconhecimento, para aprender. Para que
pudssemos observar mais, Maria Adlia se fez visvel  equipe de
espritos trevosos que ali estava. Eram espritos maus, porm
instrudos. Logo um deles veio conversar com ela.
- Ol, boneca! Que quer? Deseja ficar conosco? Voc  uma
beleza!
Mais trs cercaram-na, todos se puseram a examin-la,
rindo.
- Estou s observando o local - respondeu nossa instrutora.
- Que fazem aqui?
- Podemos dizer que trabalhamos aqui. Veja esta matria, foi
inspirada por mim - disse um deles com orgulho, mostrando uma
reportagem. Era uma matria muito ertica. Maria Adlia deu uma
olhada.
- Mas consta s o nome do encarnado na reportagem - disse
ela.
- Isto que incomoda! Mas no faz mal. O prazer  o mesmo.
- Tem chefe? Obedecem algum? - indagou Maria Adlia.
- Voc  intrometida! Pergunta demais. Temos, sim, uma
organizao. Se voc quiser fazer parte, podemos dar umjeito, uma
ajuda a voc. Sabe escrever? Digo, fazer reportagens? Voc tem
cara de inteligente. S que est muito mal vestida. Parece beata
- Sei escrever sim. O trabalho  dificil
- Aqui  bem fcil. A parte dificil  quando somos mandados
a atrapalhar pessoas que fazem outro tipo de escrita. A Literatura
Esprita, por exemplo.

102 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

- Vejo to pouco. Coisas que dizem ser boas no mercado, por
que se preocupam com isto?
Quem respondia era um deles, o mais orgulhoso e arrogante.
- Vejo que a menina entende disto.  verdade, mas h os
teimosos que escrevem tentando ensinar a boa moral.
- Venha c, me d um abrao - disse um outro tentando
agarrar Maria Adlia.
Minha mestra se fez invisvel a eles.
- Sumiu a garota! Que pena! - disse o que ia abra-la.
- Ou ela no gostou de voc, ou deve ser uma abelhuda do
Cordeiro. No sei o que veio fazer aqui - resmungou um outro.
Assim, de forma parecida, fomos a muitas editoras, encontramos
sempre um esprito bom que l trabalha. Se eles acham
difcil atrapalhar os bons, ns achamos dificil ajudar estes encarnados.
Alguns at querem mudar, mas os objetivos destes escritos so
outros,  o que d vendagem, infelizmente. E vivem do comrcio.
- Estas pessoas esto comprometendo-se com este trabalho?
- indagou Osvaldo a Maria Adlia.
- Tudo que fazemos destruindo nos cabe a reconstruo.
Mas depende de cada caso. Algumas pessoas aqui esto pelo
salrio, outros gostam do que fazem. Aquele que grafa seus
pensamentos em escritos ruins que venham prejudicar a outros 
responsvel por eles. Mas a maioria so escritos de pssimo gosto
somente, no faz mal nem bem. Lembro a vocs que esta Literatura
existe porque tem quem a consome. Fazem e vendem.
Vimos uma pessoa, um escritor, escrevendo fatos ruins. Ele
estava obsedado por uma entidade horrvel. Vimos que esta
entidade o influenciava de forma bem acentuada, fazendo-o escrever
besteiras, melhor dizendo, de forma ruim. Novamente Maria
Adlia fez-se visvel ao obsessor para conversar, para que pudssemos
entender alguns fatos.
- Oi - disse Maria Adlia.
- Ol.
- Voc est trabalhando com ele?
- Estou, que voc tem com isto?

A casa do escritor 103

- Nada. S que acho que ele escreve to mal!
Diante desta observao, ele sorriu satisfeito. Ficou mais
amvel.
- Voc acha? Que bom!
- Pensei que ia zangar-se, vejo-os trabalhando juntos.
-  para isto que estou aqui. Para fazer ele trabalhar mal,
escrever besteira que ningum editar.
- Vinga-se, por acaso?
- Sim. Quem  voc? Pergunta demais.
- Sou s uma pessoa que gosta de ler. Estava passando e li
a bobeira que ele escreveu. S isto. Adoro histrias. Fiquei curiosa.
Como pode voc um cara to inteligente, v-se logo que  um
intelectual, ficar perto deste boboca.
Riu contente e respondeu.
- Voc tem razo. Sou nteligente e instrudo. Escrevo muito
bem. Quero que ele se afunde. Merece!
- No quer me dizer o que houve? Voc fala to bem!
Maria Adlia, lendo os pensamentos dele, viu que ele era
vaidoso, incentvou-o para que falasse, para que pudssemos ouvi-lo
e para tentar ajud-lo.
- Est bem. Vou falar s porque voc soube reconhecer que
sou inteligente. Sou filho nico, minha me viva deu um duro
danado para que fosse estudar. Meu sonho era serjornalista ou um
escritor famoso. Tinha um amigo com os mesmos desejos. Um dia,
apareceu uma oportunidade, um jornal fez um concurso e o
vencedor ira ter um emprego dejornalsta. Entusiasmado, fiz uma
matria genial. Este cara tambm. No dia de entregar, minha me
ficou doente e pedi a ele para entregar a minha matria. Confiei.
Mame melhorou e esperamos aflitos o resultado. Ele ganhou.
Alegrei-me por ele. Mas, ao ver a matria que ele apresentou,
estremeci. Era a que eu havia escrito. S com algumas pequenas
modificaes. Fui at o jornal e constatei que minha matria, a do
meu nome, no foi entregue. Ele me enganou. Pegou a minha
matria e entregou como se fosse dele. Odiei-o. Fui atrs dele tirar
satisfaes. Fui recebido com ironias. Disse-me que foram suas

104 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

modificaes que o fizeram ganhar o concurso. Riu de mim por
confiar nele. No tinha como provar sua culpa. Louco de raiva,
avancei sobre ele e brigamos de murros e socos. Fomos separados,
ele foi embora rindo. Entrei num bar e bebi. No estava acostumado
a beber e embriaguei-me fcl, sa para a rua, fui atropelado e
desencarnei. Minha me sofreu muito e eu vaguei sem rumo por
anos, culpei-o por todos os sofrimentos. Minha me desencarnou,
mas os bons a levaram, no pude nem falar com ela. Um dia soube
que no Umbral havia uma escola para aprender a vingar-se. Fui at
l, contei minha histria e fui aceito. Aprendi fcil. Agora vingo-me
deste safado. Ele no ter mais glria, fao-o escrever s porcaria.
Alegro-me com seu desespero ao ver rejeitados seus trabalhos.
Ento, garota, v como tenho razes?
- Voc no sofre aqui? No gosta dele e fica perto dia e noite.
No  melhor ir para um bom lugar, talvez junto de sua mezinha?
- disse Maria Adlia risonha e gentil,
- Qual  "meu"? Por no gostar dele que estou aqui, para
vingar. Quanto  minha me, ela que venha para perto de mim.
- Por que voc no analisa os acontecimentos de outra
forma? Pela lei das reencarnaes, voc teria que desencarnar
jovem. Por m colheita, teria que sofrer uma traio.
- Voc comea a me enfurecer. Sei bem que j vivi outras
existncias, meus erros do passado pouco me importam e acho que
no tm nada a ver com o que fao. O que importa para mim  o que
fao no momento. Vingo-me dele porque ele merece. Pensa que ele
 bom? Nada faz de bom e s pensa nele. Por que voc est me
falando isto? Veio aqui defend-lo?  melhor sair daqui. Fora! Saia
depressa!
Falou aos gritos, ameaando-a com a mo. Maria Adlia
saiu, samos. Nossa nstrutora explicou.
- Como v, fazemos mal a ns mesmos quando prejudicamos
algum. Este obsessor foi ao Umbral, em lugares denominados
escolas, aprender a vampirizar e a obsediar. Muitos so os ncleos
de do.

A casa do escritor 105

- Ser que a me dele no vela por ele? - indagou Carlos
Alberto.
- Acredito que sim. Mas, enquanto ele estiver to endurecido,
ela no pode ajud-lo. Ns no viemos aqui para socorr-lo.
Viemos ver como se processa uma obsesso com um literato. Este
fato que vimos  uma minoria e tambm um acontecimento de
vingana particular. Muitas obsesses neste ramo so para escrever
exaltando erros. Aqui, ningum pediu ajuda, no nos cabe intrometer.
O encarnado  frio, calculista e egosta.
- Leva-nos a crer que esta obsesso no  de todo ruim para
ele - disse Adelaide.
- Obsesso no  bom a ningum. O obsessor perde tempo
e o mal que faz a ele mesmo se reverte. O obsediado pode odiar cada
vez mais. O encarnado com estes defeitos vibra como o desencarnado,
por isso torna-se alvo mais fcil  obsesso. Ele, no
conseguindo escrever mais nada de bom, no sentido literrio, ter
um castigo ao seu orgulho. Vamos desejar que ele aprenda a lio.
- Se ele fosse uma pessoa religiosa, que orasse e fosse bom,
o desencarnado poderia obsedi-lo? - indagou Carlos Alberto.
- Ele errou com o desencarnado. Traiu o amigo, roubando-lhe
a matria. Mas para todos os erros h perdo, quando o errado
pede com sinceridade. Ele tem que sentir que, se voltasse o tempo,
ele no faria o que fez novamente. S pedir perdo  fcil demais.
H ainda a necessidade de reparar. Neste caso, ele, o encarnado,
arrependido, pediria perdo ao ex-amigo. Mas, respondendo a sua
pergunta. Se ele tivesse se tornado bom, orasse com f e sinceridade,
dificultaria esta perseguio. Se orasse com f e sinceridade,
oraes de corao, ficaria bem dificil obsedi-lo. Neste caso, j
teria sido socorrido por alguma equipe de socorro.
Fomos ver algumas pessoas que escrevem inspiradas por
espritos trevosos. O encarnado imprudente quase sempre est 
procura de glria e fama, e estes desencarnados querem propagar
seus objetivos que so levar a Terra mais ainda ao caos, e mais
pessoas  perdio. Mas quero deixar claro que a culpa  de ambos.
Todos temos nosso livre-arbtrio que  respeitado. Estes desencarnados
quase sempre cuidam do encarnado, fazendo-lhes favores e

106 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

desfrutandojuntos de prazeres. Digo prazeres, porque das dores o
desencarnado no quer nem saber, o encarnado que se vire.
No h um ncleo no Umbral que cuida especialmente da
Literatura, emtodas as cidades Umbralinas h bibliotecas, algumas
bem organizadas. Revistas e livros obscenos so manchetes l.
Fomos a uma cidade do Umbral, numa festa, promovida para
homenagear um escritor encarnado. Disfaramo-nos e l fomos
os dez, ns, os oito alunos, e os dois instrutores. O salo da festa
estava enfeitado com bandeirinhas e por toda parede havia quadros
obscenos. Tudo muito colorido. O encarnado homenageado, que
fora desligado enquanto seu corpo dormia, ora parecia um tanto
alheio, ora mais consciente.
- Estes livros que vemos aqui so cpias dos seus livros e
artigos que so editados na matria. So cpias plasmadas
- explicou Aureliano.
Uma msica alta se ouvia, msicas quase todas erticas,
algumas conhecidas dos encarnados, outras no. No fomos percebidos
no meio d multido, e pudemos observar tudo. Muitos
encarnados estavam presentes como convidados. Conversavam e
gargalhavam muito. Depois de termos andado por l e visto tudo
que desejvamos para nosso conhecimento, fomos embora.
- Este encarnado sabe que est sendo usado? - indagou
Henrique.
- Acredito que no.  muito orgulhoso e vaidoso para
desconfiar. Deixo bem claro que nem todos os escritores escrevem
inspirados, sejam obras boas ou ruins. Muitos tm talento e fazem
sozinhos. Os que so inspirados tm que ter tambm dom para
escrever, se no fosse assim, o desencarnado no conseguiria fazer
o trabalho sozinho.
- Quanto a este escritor que vimos no Umbral, que acontecer
com ele quando desencarnar? - indagou Maria da Penha.

"N.A.E.- O desencarnado que ajudava a escrever estava perto do escritor todo
orgulhoso, dando tambm autgrafos.

A casa do escritor 107

- Isto depender de como estiver sua vibrao no momento.
Se desencarnasse agora, iria para o Umbral, pois est vibrando com
ele. Mas estamos sempre mudando e esperamos que ele mude para
melhor.  uma pessoa de talento. J estivemos incentivando-o a
escrever boas obras. No momento, prefere continuar escrevendo o
que vimos.
Aureliano fez uma pausa e completou emocionado:
- Vigiai e orai, disse-nos sabiamente Jesus, prudentes so
aqueles que assim procedem.

XII FATOS INTERESSANTES

Aprendi muito tomando parte nas conversas pelos ptios.
Eram conversaes sadias e cheias de conhecimentos. Grupos
afins, estudiosos e amantes da boa Literatura. Quase todos ali
estavam por amar os livros, mas havia algumas excees. Nzo que
estas etcees no amassem a literatura. mas ali estavam tambm
por outra finalidade ou por motivos diferentes da maioria.
- Patrcia - disse Marcelo - sou uma destas excees.
Gostava e gosto muito de ler. Tentei aprender a escrever, mas no
deu, estou desistindo.
- Por qu? - indaguei.
- Queria aprender por amor. No por amor  Literatura, mas
a uma pessoa. Amo muito uma mulher. estamos juntos ha muitas
encarnaes. Faz cinco anos que desanelrllci e ela ainda est
encarnada, fomos casados por trinta e dois anos. Vivenmos felizes e
unidos. Tenho saudades dela aqui e ela l de mim. Quando ela
desencarnar estaremos juntos, demorar ainda alguns anos, enquanto
a espero. tento estudar e ser til. Vim aqui estudar. porque
ela gosta muito de poesias e reclamava por no conseguir escrever
nenhuma a ela. Pensando em agrad-la, quis vir aprender aqui. para
Clle, qllalldo estivesse llOS ClealrilldOS, CLI pudeSSE  flr belas
poesias. Mas vi logo que este estudo no  para banalidades
romntcas. No devo ocupar lugar de outro e nen o meu. tenlpo.
-- Marcelo, como sabe que estaro juntos voc e c, na
prxima encarnao?

A casa do escritor 109

- No temos porque nos separar. No erramos, no temos
carma negativo a quitar. Temos um pelo outro um amor sincero,
somos companheiros de progresso. Depois, somos realmente almas
gmeas.
Conversamos mais um pouco e ele se despediu.
- At breve, amiga! Desejo-lhe xito nos seus planos. Devo
partir logo.
Marcelo saiu, fiquei pensando no que me disse e querendo
saber de mais detalhes. Foi uma felicidade encontrar o diretor e, aps
os cumprimentos, demonstrei vontade de fazer algumas perguntas.
- Patrcia, pergunte o que quiser, responderei como puder
- disse rindo.
- Conversava com Marcelo, que se despediu. Abandona o
curso? - indaguei, sorrindo, e contente por achar algum para me
esclarecer.
- Abandonar no  o termo certo. No ir conclu-lo por no
ter vocao, dom para escrever, ou mesmo interesse sincero.
- A Casa do escritor no sabia deste detalhe ao inscrev-lo?
- Sim, sabamos. Tanto que o colocamos como excedente no
seu curso. Aceitamos porque estava entusiasmado dizendo querer
muito. Costumamos aceitar casos assim, como este de Marcelo.
Alguns, ao nos procurar, dizem desejar conclu-lo e que esto
realizando seus sonhos. Sabendo-se da possibilidade de no concluirem
o curso, colocamo-los como candidatos a mais na sala de
aula, para no ocuparem o lugar de outro. Mas, no decorrer do
curso, alguns podem concluir com xito e outros, logo que o curso
comea, vem por si mesmos que esto deslocados, que no so
capazes de curs-lo e pedem para sair. Patrcia, se no aceitarmos
suas inseries, podemos estar recusando a um destes que acabam
por conclu-lo e que podem vir a ser timos escritores e trabalhadores
da Casa. Como tambm podemos estar impedindo algum de
estudar e ser til neste campo. Marcelo queria aprender para fins
particulares, como agradar o esprito que ama. Este nosso estudo,
que envolve trabalhos de tantos, s pode dar certo para fins teis a
muitas pessoas.

110 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

- Ele me disse que na prxima encarnao encontrar e
ficarjunto com a sua amada. Isto  mesmo possvel?
- Sm, os dois esto unidos e caminhando para o progresso.
So dois espritos abnegados que cuidaram com amor por muitos
anos de um asilo de idosos, com muita honestidade, caridade e
pacincia. No tem por que, se  da vontade deles, separ-los.
Certamente quando forem reencarnar combinaro para se encontrarem
e ficarjuntos.
- Existem muitos casos como o dele? De pessoas que
combinam ficar juntas?
- Existem, sim, mas no so a maioria. Nem todas as pessoas
esto juntas por afinidades de sentimentos sinceros. Tenho visto
muitos casais que encarnados so exemplos de carinho e de ajuda
mtua. So casais como Marcelo e sua amada. No precisam ser
exatamente bondosos como eles foram. Se no for por aprendizado
ter de separ-los, ficam juntos como  da vontade deles.
- Ele me disse que so almas gmeas.
- Patrcia, almas gmeas  uma expresso, um modo romntco
para designar pessoas afins. Mesmo irmos gmeos na
carne podem ser bem diferentes, costumamos dizer que espritos
afins so aqueles que combinam, tm os mesmos gostos e ideais e
que s vezes esto juntos h muitas encarnaes. Tanto podem ser
bons ou maus. Devemos amar cada vez mais a todos, tentando nos
educar moralmente, progredir e ajudar o maior nmero de pessoas
a progredir tambm para o Bem. Amar todos como i rmos  evoluir.
E no se deve ter este amor a nmero limitado de pessoas.
- O que voc me diz do que esto fazendo algumas pessoas
casadas encarnadas que se separam, dizendo que encontraram sua
cara-metade e querem ficar juntos?
- Na carne, deveriam levar a instituio do matrimnio mais
a srio, no casar sem pensar e nem separar sem pensar duas vezes.
Principalmente tendo filhos. Os casais deveriam se conhecer
melhor, casar conscentes do que seja viverjunto. Uma vez casados,
tudo deve ser feito para que a unio dure. A desculpa dada de ter
encontrado sua outra metade no  vlida. Mesmo que tenha

A casa do escritor 111

acontecido este fato, no se deve construir nossa felicidade sobre a
infelicidade de outras pessoas, principalmente de filhos, que so
sempre os que mais sofrem com os erros dos pais.
Agradeci a este meu simptico amigo, diretor da casa, estava
sempre a indagar e ele sempre gentilmente me atendendo.
Numa tarde, estudava no ptio embaixo de uma rvore
frondosa, cheia de flores perfumadas e brancas.
- Bom dia! - cumprimentou-me um senhor em Esperanto.
- Posso me sentar aqui?
- Bom dia! Fique  vontade.
- Tenho que ler este livro e resumi-lo.
Sorri ao meu companheiro dando-lhe as boas-vindas, respondi
tambm em Esperanto, gostamos de conversar neste idioma.
O livro que trazia consigo era Renncia, de Emmanuel, psicografado
por Francisco Cndido Xavier. Leu algumas pginas em
silncio, depois voltou a conversar comigo.
- Chamo-me Norberto. E voc?
- Patrcia.
Conversamos sobre cursos, falei o que fazia e por qu.
- Eu - disse ele - preparo-me para escrever aos encarnados.
Logo que o curso termine e iniciar outro, irei curs-lo. Por enquanto,
estou lendo a Literatura Brasileira, principalmente a Esprita e
aprendo a Lngua Portuguesa. Venho de um pas da Europa. Vivi
l na ltima encarnao, onde fui escritor. Escrevi sob a orientao
de um esprito muito querido. Ele desencarnado me intua a
escrever. Agora, eu estou desencarnado e ele encarnado no Brasil,
por isso vim estudar aqui.
- Gosta daqui? - indaguei.
- Sim, muito. O Brasil  muito bonito. Mas o que mais
encanta  a Literatura Esprita, ela  farta e rica. No s quero intuir
meu amigo como tambm trabalhar junto ao meu pas de origem,
motivando-os a traduzirem obras Espritas para instruir meu povo.
- Voc disse meu pas, meu povo. Voc ainda separa. No
sente a Terra por moradia?

112 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

- Estou chegando l, riu. Foi uma forma de dizer. Corrijo-me:
quero levar a Literatura Esprita para todos os outros pases da
Terra. Como este livro que estou lendo. Para melhor aprender a
Lngua Portuguesa, estou fazendo trabalhos assim, leio livros e
resumo em Portugus. Aprendo duas vezes, porque as lies que
estes livros nos do so encantadoras.
- Que tal falarmos em Portugus? - disse-lhe. - Leia e o
corrigirei.
Assim fizemos, ele leu e eu ia ensinando-lhe a pronncia. A
Lngua Portuguesa  de fato muito dificil. Mas nosso amigo estava
com vontade e aprendeu.
Uma vez ao sair do teatro encontrei Laura, j  a conhecia, mas
foi a primeira vez que trocamos confidncias.
- Sabe, Patrcia, matriculei-me no curso que prepara para
ditar aos encarnados. Enquanto espero, estou tendo aulas de
Portugus e Literatura. Gosto muito desta Colnia, amo-a mesmo.
Mas encontro dificuldades, no gosto de ler nem de escrever.
- Por que quer fazer este curso, ento? - indaguei curiosa.
Laura  moa, desencarnou aos vinte e cinco anos,  muito
bonita.  morena clara, cabelos negros longos, olhos azuis sombreados
por longos clios.
- Quando encarnada namorei um escritor, vivemos juntos
alguns anos. Fui a musa inspiradora dele. Ele s escreveu e escreve
bobeira. Quero aprender a tentar intu-lo.
-  melhor fazer o que gosta, Laura; s quando amamos
fazemos bem feito.
Despedimo-nos. Dois meses depois, ela me procurou para
despedir-se.
- Vou embora, Patrcia. No consigo render nos meus
estudos. Gosto mesmo  de lidar com crianas. Volto muito feliz
para minha tarefa de cuidar dos nens no Educandrio da Colnia
Amor Divino, de onde vim.
- Ir deixar seu escritor?
- Bem, a equipe da Casa ir visit-lo e oferecer ajuda, se ele
aceitar. Um esprito competente e com talento ir fazer o que eu

        A casa do escritor 113

almejava. Se ele no quiser, pelo menos se tentou. Acho que eu no
conseguiria ajud-lo.
- Boa sorte, Laura!
- Obrigada!
Uma tarde estava no ptio da frente e vi o diretor conversando
com um senhor. Meu amigo me chamou e me apresentou.
- Este  Jos e esteve conosco uns meses, agora volta  sua
Colnia de origem.
Aps os cumprimentos, o diretor convidou Jos a falar de seu
problema.
- Desencarnei por um acidente. Tinha alguns conhecimentos
Espritas, mas no o suficiente para me ter libertado do fascnio
material. Mas, tudo bem, no posso me queixar, logo estava bem.
Fui estudar e trabalhar. Desejando ditar aos encarnados, vim para
tentar fazer o curso, mas desisto.
- E por qu? - indaguei.
- No gosto nem de ler nem de escrever. Desisto por achar
tudo muito dificil.
- Por que desejou faz-lo? - perguntei novamente.
- Minha esposa  mdium psicgrafa, embora no se interesse
em trabalhar com seu dom. Queria estudar para tentar fazer
com que ela trabalhasse com sua mediunidade e fosse til. Fico
pensando o que ser dela quando desencarnar e vier com o seu
talento enterrado. No produziu, no multiplicou. Mas, como o
diretor me dizia, todos temos o livre-arbtrio.
- Mas ela no tem um orientador desencarnado? - indaguei
curiosa.
- J teve. Um esprito bondoso e instrudo tentou por muitas
vezes ajud-la no seu trabalho, mas ela desiste sempre arrumando
desculpas. Como este esprito  laborioso, afastou-se e foi trabalhar
com outra pessoa. Mas, se ela quiser voltar ao trabalho, poder
atrair um outro esprito capaz e instrudo para ajud-la. Isto
tambm vai depender de sua inteno, porque nem estudar nem ler
ela quer.
Jos se despediu e se afastou. O diretor me disse ainda:

114 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

- Nenhum dos dois tm vontade firme. Tanto que se ele
quisesse e se esforasse conseguiria estudar. Ler  um hbito
adquirido. Aprenderia a escrever o suficiente, se quisesse, para
trein-la. Quanto  esposa,  pena deixar de fazer.
Outra que conheci quando se despedia foi Florinda.  moa
ainda. Este moa ou idosa a que me refiro  o aspecto, quase sempre
 como desencarnou.  bonita e simples. Depois das apresentaes,
me disse:
- No quero escrever, no tenho dom, no sei. Tambm no
gosto de estudar. Queria s fazer parte da equipe da Casa.
- Por que seu desejo de trabalhar na equipe? - indaguei.
- Acho lindo os livros, admiro quem gosta de ler. Queria
incentivar as pessoas a lerem bons livros. S assim poderia salvar
muitas pessoas com a boa leitura. Mas no deu certo. Os professores
so gentis, mas no me interesso. Acho que vou estudar na
Colnia de Socorro e trabalhar com equipes de socorro.
Desejando votos carinhosos de sito, despedimo-nos.
Mas indaguei o professor Aureliano que estava a par de seus
problemas.
- Por que, Aureliano, Florinda no pde ficar conosco?
- Para fazer parte da equipe da Casa do escritor  preciso ter
preparo e conhecimentos. Infelizmente nosso trabalho  com intelectuais.
Como ajudar sem o ser? Como incentivar a boa leitura, se
no l?
Pensei muito neste fato. S damos o que temos, s ensinamos
o que sabemos, s podemos incentivar outros a fazer, se fazemos.
Mas, num ponto, Florinda tem razo, a boa leitura ajuda muitos, ah,
como ajuda!
No final de uma palestra, Ana declamou uma linda poesia de
sua autoria. Encantou a todos. Quando terminou a reunio, ficamos
conversando e Ana estava presente. Ela j estudou em nossa
Colnia, atualmente faz parte do grupo de organizadores da casa.
Encarnada, foi uma excelente poetisa. Escreveu com muito talento
obras belssimas.
- Ana - indagou uma companheira -, voc teve dificuldades
para escrever quando encarnada?

A casa do Escrtor 115

- Para escrever, no. Sempre amei a poesia. Mas para editar,
sim. Anos atrs o preconceito contra a mulher era grande. Usei at
um pseudnimo. Mas valeu lutar pelo que amo.
- Que voc faz atualmente? - indagou outro companheiro.
- Estudo poesias e as escrevo. Trabalho junto com a equipe
da Casa. Logo, no ano vindouro, tambm lecionarei em cursos aqui.
- Voc ir reencarnar logo? - perguntou um senhor.
- Certamente, daqui a alguns anos voltarei  carne e pretendo
ser escritora e poetisa. Espero exaltar as belezas do Criador nos
meus escritos.
Um companheiro me disse baixinho:
- Ana  muito culta e instruda. Fez os cursos da Casa todos
de uma s vez, mas s para t-los concludos, porque sabia tudo que
os cursos oferecem. Ser uma sbia instrutora.
Na Casa do escritor s vemos adultos, uns mais jovens
outros mais idosos. Raramente vemos crianas freqentando cursos
da Casa. Estas, sim, enfeitam a Casa, quando vm em excurses
que so verdadeiro aprendizado.
A primeira vez que vi uma criana ali estranhei. O diretor me
apresentou.
- Esta  Rosngela, nossa companheira de aprendizado.
Nosso diretor afastou-se e ficamos conversando.
- Patrcia, desencarnei h um bom tempo. Estava com oito
anos de idade. Fui levada para um Educandrio. Amo lidar com
crianas, sentir-me criana. Logo estava tima. Por estudos de
outras existncias, tenho uma inteligncia desenvolvida. Encarnada,
era excepcional de QI elevado. Nesta poca em que me achava
recolhida no Educandrio, um grupo de trs garotos estava com
problemas de adaptao. Comecei a conversar com eles e os ajudei.
E meu trabalho por anos ficou sendo este. Muitas vezes, uma
criana ajuda mais outra criana que um adulto. Estudei, trabalhei
e no mudei meu perisprito. Porque, se quisesse, poderia crescer,
tornar-me jovem ou adulta. Prefiro ficar assim. Sempre gostei de
escrever, interessei-me em aprender e aqui estou pronta a comear
logo a estudar. Pretendo escrever histrias para crianas. Histrias

116 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

com enredo interessante que distraia e eduque. E nada como uma
criana escrever para outra criana. Assim, sinto que s vezes sou
adulta e, s vezes, criana.  com esta minha parte infantil que
quero escrever a muitas crianas.
- Pretende escrever desencarnada ou encarnada?
- Quero fazer os dois. Quero, se possvel, ditar pela psicografia.
Depois reencarnar e ser uma escritora.
- Voc se sente bem?  feliz?
- Muito! Sou realmente muito feliz!
Aqui nosso livre-arbtrio  respeitado. Rosngela tem realmente
muito talento.
Osvaldo, nosso companheiro de curso, narrando sua histria
 classe, disse que veio para a Casa por amor a sua noiva.
- Estava noivo com casamento marcado, quando desencarnei
por um acidente. Era catlico, mas a famlia de minha noiva era
Esprita. E foram eles que me ajudaram. Fui socorrido e aceitei a
desencarnao, logo estava bem. Minha ex-noiva tinha um parente
que psicografava. Fui evocado, gostei demais de escrever. Assim,
sempre estava dando notcias a minha noiva e minha famlia, que
aps virou Esprita. Fui convidado a estudar para aprender como 
a vida no Mundo Espiritual. E o tempo passou e eu a escrever. Para
melhor escrever e impressionar minha amada me inscrevi no curso
e concluo. S que muita coisa mudou. Passei a amar a Literatura e
a querer dedicar-me a ela com carinho. Atualmente, mensagens
particulares escrevo s para a famlia e isto raramente. Minha
ex-noiva casou-se e est muito bem. Aprendo aqui e o mdium l,
treinamos e quem sabe editaremos mais tarde. Como v, vim  Casa
por um fato particular e aqui aprendi a pensar em fazer o bem a mais
pessoas com a facilidade que tenho para exprimir.
- Voc, quando reencarnar, vai querer se dedicar 
Literatura?
- Isto so planos para um futuro mais remoto. Quero, sim,
ser um escritor encarnado. Afinal, trabalhar com a Literatura  to
agradvel e ser til atravs dela  prazeroso!

XIII
MEU PAI

Nos ltimos seis meses de curso, comecei a escrever os
rascunhos que iria logo mais ditar a minha tia Vera e que mais tarde
iam transformar-se em lvros. Sent em certas partes algumas
dificuldades e dvidas. Como sempre, nestas ocasies, quando
encarnada, buscava ajuda de amigos, mas de forma especial ia at
meu pai para receber suas opinies sbias e ensinamentos profundos
e valiosos.
Um dia conversando sobre este assunto com Antnio Carlos,
este disse:
- Patrcia, muitos se enganam ao achar que s os desencarnados
podem orientar e ensinar. Saber  do esprito ativo que
trabalha e estuda. Que pode tanto estar encarnado como desencarnado.
Aquele que sabe  porque aprendeu. E para aprender no
poupou esforos. Para que h tantos cursos que preparam para a
reencarnao?  verdade que o encarnado no se lembra de tudo que
aprendeu, mas fica em sua memria mais do que imagina. Logo, nas
primeiras leituras e estudos, a recordao vem como aprendizado
rpido e fcil. Depois, exstem tantos cursos para encarnados e
tantos livros fantsticos que s no aprendem os que no querem.
Assim, encontramos muitos encarnados com tantos conhecimentos
que superam os de muitos desencarnados, at, s vezes, os que
trabalham com ele.
Antnio Carlos tem razo, meu pai  um estudioso h muitas
encarnaes. Tem muitos conhecimentos e  a ele que recorro quase
sempre para resolver uma questo mais dificil.

118 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patricia

Jos Carlos Braghini, meu pai nesta existncia,  umapessoa ,
que respeito e amo. No  mdium. Mas nem por isso torna
impossvel nosso intercmbio. Todos ns temos nossa sensibilidade
que pode ser apurada com o exerccio da mente, estudos e at mesmo
trabalhos que envolvem a mediunidade.
Meu pai medita muito. Nestas meditaes, em que quase
sempre est com a mente voltada a um dos ensinamentos do Mestre
Jesus, sempre que posso fico perto. E seus pensamentos vm at
mm. Escuto elevada suas concluses, tal como fazia quando
encarnada.
- Pai, papai, como o senhor escreveria sobre este assunto?
Digo-lhe de mente a mente. Raramente no pode me atender.
Nem ele mesmo sabendo o porqu muda seus pensamentos e comea
a pensar no assunto sugerido. Eu, rapidinho, tomo notas. Quantas
sugestes precosas!
Este fato  bem possvel. No pensem os encarnados que s
os que tm mediunidade podem se comunicar com seus entes
queridos desencarnados. O amor  um lao forte. Pe forte nisto. s
vezes  atado com n. Mas este pode prejudcar os que amamos. O
amor que une tem que ter o entendimento, tem que ser sem egosmo.
Temos que desejar sempre aos que amamos felicdades e que eles
estejam bem, melhores que ns. Seno, pode acontecer de o n ser
to forte que torna prisioneiros os que amamos. Como fazem muitos
encarnados aos seus ternos desencarnados. Em vez de ajud-los a
enfrentar a nova existncia, choram, reclamam, desesperam-se,
chamando-os para perto de si, fazendo mal aos que amam.
Ns, os desencarnados, sentimos muito os pensamentos dos
que nos amam. Muito se fala na obsesso de desencarnados a
encarnados, mas temos que falar tambm que muitas vezes  o
encarnado que no deixa o desencarnado seguir seu caminho.
Ata-o com n e no quer abrir mo de sua presena, embora nem
sinta direito esta presena pelo estado que difere o encarnado do
desencarnado.
Como  bom quando nossos entes queridos entendem e nos
ajudam. Como  triste sofrer com o sofrimento deles. Presenciei

A casa do escritor 119

muitos companheiros desencarnados desesperarem-se com a agonia
dos seus entes queridos encarnados. Chegando s vezes a se
perturbarem com os chamamentos dos encarnados. Como  bom ter
conhecimentos Espritas! Como  confortador desencarnar com
estes conhecimentos!
Ns, os desencarnados, podemos nos comunicar com os que
amamos, sejam estes mdiuns ou no. Se for mdium  mais fcil.
Se no, pode ser pelo desligamento durante o sono, ou pelas
conversas atravs do pensamento. Infelizmente, quase sempre o
encarnado no percebe. Mas, se aprendem a sentir pelo Amor,
confiando, sentem nossa presena sim. Mas, para que este intercmbio
seja bom, tem que ser uma conversa edificante e agradvel.
O desencarnado precisa estar bem, consciente do seu estado de
desencarnado. E o encarnado, consciente do que seja a desencarnao,
compreender para ajudar sempre. Se uma das partes estiver
perturbada, seja pela dor, desespero, inconformao, no  bom
para nenhuma delas. Pode ser at prejudicial ao desencarnado,
principalmente se o encarnado estiver revoltado. Se ambos esto
bem,  maravilhoso.
Assim, sempre estou com meus entes queridos, com a
mame, meus irmos, amigos e com meu pai.
Fui ensinada a ver meu pai como ele , no como queramos
que fosse. A nossa mente s se interessa pelo que toca, pela sensao
e prazer dos sentidos. Por esta razo, no chegamos a compreender
e a viver os ditos do magistral Nazareno ou de outros grandes
homens que passaram pela Terra. Tudo que se repete se torna para
ns enfadonho e sem motivao. Neste sentido, a atuao  a
sustentao da vida. A Onipresena de Deus  algo sutil e no
relacionado aos sentidos. Por isto nos passa despercebida, perdemos
assim a oportunidade de participar com Deus do seu concerto
universal.
Como  comum na vivncia da carne, em muitas ocasies,
ramos envolvidos por vibraes negativas, e, como  natural,
sentamos. Mas sabamos que, com uma simples mentalizao de
meu pai, aquelas vibraes poderiam ser dissolvidas. Mas tambm,

120 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

de antemo, sabamos da sua resposta: "J os ensinei, faam vocs,
no quero que continuem a ser mendigos espirituais. Faam por si
mesmos." Aparentemente nos deixava sozinhos, mas, na sua aparente
ausncia de socorro, no deixava de estar vigilante e em pouco
tempo estvamos livres da atuao negatva.
Assim  sempre meu pai, bondoso e sbio, tentando sempre
educar todos que o rodeiam. Muitos espritos do astral inferior o
chamam de Feiticeiro pelo seu passado em outras existncias e
depreciando-o por ser um estudioso das verdades eternas.
Meu pai no  esprito de pedir por qualquer coisa. Ensinou-nos
que precisamos agir sempre com perseverana e convico por
aquilo que queremos. Atuar sempre com total ausncia de dio ou
revolta, mesmo quando estamos sendo acuados. Que precisamos
transformar e no destruir.
Um dia, quando estava ao seu lado, ele perguntou:
- Patrcia, minha filha, gosta da Casa do escritor? L 
lindo?
- J vi Colnias mais bonitas.
Respond, pensando que realmente j vira Colnias muito
mais encantadoras. Meu pai me respondeu:
- Quando no mundo fisico, a maiora de ns no tem
condies de avaliar o quanto est condicionada a resultados. A
beleza, por exemplo. Quando  que achamos algo belo? Quando este
algo est ligado ao extraordinrio e nos leva a sentir que o possuindo
passamos a ser mais importantes ou poderosos. Quando voc
visitou a Colnia Tringulo, Rosa e Cruz, sentiu uma emoo
indescritvel, pois  extraordnrio o visual, algo incomum. Para os
desavisados, esta sensao de poder e beleza  to incomum e
poderosa que poder lev-los a se perder no orgulho e na vaidade.
Quando voc deparou com a viso da Casa do escritor,
estranhou pela diferena entre uma e outra. Mas, filha, veja a
manifestao de Deus tanto no extraordinrio como tambm no
simples e necessrio. Esta Casa que  seu lar no momento 
absolutamente necessria, pois se encontram ali espritos que se
dedicam ao aperfeioamento psicolgico dos homens. Neste mster,

A casa do escritor 121

a simplicidade no  s necessria mas realmente imprescindvel,
pois no seu interior o homem precisa se assemelhar a Deus que 
realmente profundamente simples.
A beleza que encanta os olhos em muitas ocasies  passageira.
A beleza do simples, mas necessrio para a sustentao da
maioria,  sempre pura e eterna.
A beleza da manifestao de Deus est justamente no
contraste dos opostos. A beleza que encanta os olhos e a mente no
est dissociada da simplicidade daqueles que, por estarem integrados
e serem melhores, so agentes atuantes do movimento de
evoluo de seus irmos em humanidade. Sentem alegria em ser o
que so, no necessitam de ostentao. No quero dizer que os
integrantes da Colnia Tringulo, Rosa e Cruz fazem ostentao,
mas, sim, que nos mostram com simplicidade as possibilidades de
criatividade do ser humano na sua vida externa.
Nesta casa esto os que trabalham no burilamento do ser
interno do homem.
- E, agora, Patrcia, que me responde? A Casa do escritor 
linda?
- Sim,  realmente encantadora! - respondi, beijando-lhe a
testa.
Como v, ajuda-se sempre quando queremos, estejamos
encarnados ou desencarnados. E a ajuda dos que amamos nos 
muito valiosa. Principalmente ns que pela desencarnao nos
defrontamos com um mundo diferente que desconhecemos. A ajuda
dos encarnados que amamos  sempre de muita importncia.

XIV
A HISTORIA DE LORETA

Tinha que fazer uma redao, uma histria para que pudesse
apresentar  classe. J tinha feito trs e no saram do meu gosto,
Um colega pediu que fosse a uma Colnia para ele. Fui lhe fazer o
favor com alegria, Esta Colnia  muito bonita. Passando por uma
praa, no pude deixar de parar para olhar um enorme chafariz de
pedras azuis. Encantador! Sentei num dos bancos confortveis da
praa e fiquei a admir-la. De repente, percebo perto de mim uma
moa tambm embebida com os encantos do chafariz. Observo-a.
Linda, lindssma. Loura, olhos azuis esverdeados, sombreados de
longos clos, traos perfeitos e harmoniosos, pele morena clara,
delicada e tmida.
Sentindo-se observada, olhou-me e me cumprimentou.
- Oi, sou Loreta.
- Oi, eu sou Patrca. Como est? Desculpe-me por observ-la.
Achei-a to linda!
- Est preocupada com alguma coisa? - indagou delicadamente.
- Tenho que fazer uma redao para apresentar amanh a
minha classe. No fiz nada de bom. Procuro uma boa histria. Voc
sabe alguma que seja interessante para me narrar?
Loreta sorriu, seu sorriso  encantador.
- Se tiver tempo, falarei a voc de minha vida.
- Se voc pudesse me fazer este favor, agradeceria - falei
animada.
Sentei mais perto dela e esperei ansiosa pelo seu relato.

A casa do escritor 123

- Sou filha de pais separados. Quando criana, raramente via
meu pai, depois no o vi mais. Tinha s um irmo, mais velho que
eu e que aos treze anos saiu de casa e no se soube mais dele. Minha
me casou-se novamente, meu padrasto, at ento, era razovel e
trabalhador.
Logo que comecei a entender, percebi que minha beleza fsica
muito me atrapalhava. Tive poucas amigas, as meninas tinham
cimes de mim, porque os coleguinhas da escola queriam me
namorar. No gostava dos garotos, porque eles sempre me diziam
gracinhas. Quando estava com onze para doze anos, os problemas
se agravaram. Estava tornando-me uma bela mocinha. Meu padrasto
comeou a me cobiar. Foi horrvel, tinha medo dele e ficava
sempre trancada no meu quarto. Evitava ficar a ss com ele. Mas
ele me olhava muito, minha me desconfiou do esposo e achou que
eu atrapalhava.
Nesta poca no tinha nenhuma amiga, acabara os quatro
primeiros anos da escola e no estudava mais, s ajudava minha
me nos trabalhos de casa. Tinha cada vez mais medo do meu
padrasto. Minha me achou uma soluo, arrumou para mim um
internato, onde estudaria e trabalharia no colgio.
Gostei do colgio, l era calmo e me entusiasmei em estudar.
Tinha um quarto bem pequeno, mas fiquei contente por ser s meu.
Os anos se passaram, no saa do colgio para nada, nem nas frias.
Minha me raramente me visitava. Sentia-me muito s e trabalhava
muito, tive poucas amigas, a maioria no queria amizade com uma
moa to bela e por trabalhar para se manter. Tudo corria bem, at
que veio transferida de outro colgio uma freira e meu sossego
acabou. Comeou a assediar-me. No comeo no entendi bem o que
ela queria, era inocente. Clarinha, uma das poucas amigas que tive,
colega de internato, me alertou. Comecei a fugir desta freira e tive
depois de ser clara e dizer que no queria o que me propunha. Ela
comeou a me perseguir me sobrecarregando de trabalho. Fiquei
desesperada, no tinha a quem recorrer, estava com dezesseis anos.
Clarinha me ajudou, arrumou-me um emprego de balconista
numa loja de sua tia, onde poderia morar nos fundos do estabelecimento.

124 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

Fiquei triste por parar de estudar, mas era uma soluo.
Minha me no me queria em casa e no tinha para onde ir, no
podia ficar mais no Colgio.
Sa do Colgio, fui trabalhar com D. Mara, a tia de Clarinha.
Ela era uma solteirona muito boa que me empregou, deixando que
morasse no quarto dos fundos. Gostei do lugar e do emprego, deu
certo. Passei um tempo tranqila.
Mas minha beleza era um atrativo tanto para a loja como
para muitos homens que me diziam galanteios, uns grosseiros,
outros mais por brincadeira. Ao saberem que era s e uma simples
empregada, fui alvo de muita cobia.
Conheci Geraldo quando entrou na loja para comprar um
presente para sua irm. Era tmido, educado e respeitador. Voltou
outras vezes para conversarmos. No se referiu a minha beleza,
parecia at que no me achava bonita. Convidou-me para sair, foi
um passeio agradvel. Ao seu lado sentia-me segura. Achava-o
diferente dos outros, no me fez nenhuma proposta. Comeamos a
namorar e logo aps noivamos. No tinha certeza de am-lo, mas,
pensando estar segura com ele, aceitei casar. Tinha dezoito anos.
Casamos e fomos morar numa casinha nos fundos da casa de
sua irm. Geraldo s tinha esta irm como parente. Chamava-se
Dulce, era boa e amvel. Tornamo-nos amigas.
Sentia-me to feliz em ter meu cantinho! Nossa casinha era
linda e acolhedora. Mas, para minha surpresa, Geraldo modificou,
no me deixou trabalhar mais e tinha por mim um cime incontrolvel.
Prendeu-me dentro de casa. Raramente saa e, quando o fazia,
era com ele e quase sempre na volta havia brigas. Muitas vezes
me surrou, sem que nada houvesse feito de errado. Depois ele
sempre se arrependia, pedia perdo, eu o perdoava. Sofri muito,
ningum podia me olhar. Mesmo vestindo-me simplesmente, sem
nenhum enfeite, era alvo dos olhares masculinos, isto o deixava
louco de cimes. Para evitar brigas, preferia mesmo no sair de
casa.
Estava com vinte e trs anos. Tivemos dois filhos, um casal,
e estava grvida de trs meses. Um dia meu menino, o mais velho,

A casa do escritor 125

estava febril. Geraldo sempre chegava em casa s dezoito e trinta,
s vezes se atrasava. Estes atrasos eram porque ele fazia as compras
da casa. Minha cunhada estava viajando e o menino piorava.
Resolvi ir  farmcia, que era perto de casa, buscar um remdio.
A farmcia j estava fechada, o proprietrio, pessoa boa,
morava nos fundos. Era um vivo de meia-idade. Recebeu-me
gentil, pediu para entrar que ia pegar o remdio. Tive medo, se
Geraldo soubesse que entrei na casa dele ia me surrar. Mas, pensei,
ele no vai saber, no tem nada demais comprar um remdio para
o filho doente.
Mas Geraldo chegou e na frente da casa foi surpreendido por
uma vizinha fofoqueira, invejosa e maliciosa, que s para atiar
cimes nele comentou:
"Geraldo, Loreta no est, foi  farmcia. Vi-a entrar na casa
do proprietrio. Voc sabe,  vivo e bem bonito. A esta hora, a
farmcia est fechada, no sei o que ela est fazendo l."
Meu marido nem respondeu e foi verificar. Estava muito
nervoso, foi entrando sem bater. Quando entrou na sala, o farmacutico
estava me entregando o remdio. No existiu nenhuma m
inteno de nossa parte. Geraldo s andava armado. Costume que
recriminava, mas ele dizia que era para evitar assaltos. Ao nos ver
perto um do outro, sem indagar, sem ao menos confirmar qualquer
suspeita, tirou o revlver e descarregou em ns dois. Os ferimentos
que recebemos nos fizeram desencarnar na hora.
Senti o impacto, uma dor forte no peito, uma sensao to
horrvel, que pensei ter desmaiado de dor, porque no vi mais nada.
Acordei numa enfermaria e julguei estar num hospital de
encarnados. Mas estava num Posto de Auxlio no Plano Espiritual.
Estava magoada com a atitude do meu esposo, no quis conversar
com ningum, nem com os gentis enfermeiros quis manter um
dilogo. Mas estranhei logo, no achei meus ferimentos. Tinha
certeza de que fora ferida, preocupei-me com a criana que esperava.
Indaguei  enfermeira.
"Que aconteceu com meu nen?"
"A senhora o perdeu por causa dos ferimentos."

126 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

"Onde esto meus ferimentos?"
"Curamo-los, mas no pense neles, seno podem voltar."
Achei tudo bem estranho. Naquele dia,  tarde, uma das
enfermeiras fez uma linda orao que me comoveu at as lgrimas,
mas que me levou a pensar muito. Achei que algo diferente
acontecera comigo. Novamente perguntei  enfermeira.
" Que aconteceu comigo? Mom com os ferimentos?"
"Seu corpo morreu, vive em esprito."
Bondosamente ela me explicou que desencarnei, estava
socorrida, etc...
Chorei muito e reclamei:
"Tudo que me aconteceu foi por ser bonita. Se fosse feia,
Geraldo no ia ter cimes de mim. No me mataria s pelo fato de
ter ido comprar remdios."
Ao recordar dos remdios, lembrei do meu filho doente, quis
v-lo, quis ir para casa. Fui aconselhada pela enfermeira a no
desejar ir. Ela, carinhosamente, disse que ele havia sarado, que eles
estavam bem com a minha cunhada. No acreditei e desejei ir
ardentemente para casa e fui impulsionada pela minha vontade.
Quando vi estava na minha ex-casa. Mas tudo era diferente, outro
casal morava ali. Fui  casa de Dulce e vi meus filhos. Minha
cunhada e o marido eram pessoas boas, tinham trs filhos moos
ficaram cuidando dos meus dois filhos. Foi com alegria que os vi
bem e amados por estes dois amigos bondosos.
Ali soube que Geraldo fora preso em flagrante, estava numa
priso e, como todos diziam, no sairia de l to cedo.
Sabia que estava desencarnada, mas resolvi ficar ali e no
sair para nada. Estava acostumada, era muito caseira e ali fiquei
como escondida. Evitava todos os encarnados, temendo que eles me
vissem ou me sentissem. Os ferimentos apareceram, eram quatro.

 N.A.E. - Quando um esprito socorrido em Postos quer ir ardentemente
para
junto dos seus encarnados queridos, sua vontade forte o impulsiona, isto ,
volta sem saber como ocorreu.

A casa do escritor 127

dois no peito, um no brao e outro no ombro esquerdo. Doam muito
e s vezes sangravam. Isto muito me incomodava.
Mas meus fluidos no estavam fazendo bem a Dulce e 
famlia. Via-os inquietos, queixando-se. No julguei ser eu a causa.
Dulce tinha alguns conhecimentos Espritas e resolveu ir ao Centro
Esprita. Achei certo e fiquei a cuidar da casa. Estava quieta num
canto, quando vi dois desencarnados me pegarem pelo brao e me
levarem. Assustei-me, mas a viagem foi rpida, em segundos
estvamos no Centro Esprita onde Dulce fora.
Colocaram-me perto de uma senhora e de um homem, ambos
encarnados. Este senhor foi conversar comigo.  Explicou-me bem
minha condio, fazendo-me ver que fazia mal aos que estavam em
casa. Estranhei, no queria fazer mal a ningum, ainda mais aos que
amava. O encarnado que conversava comigo disse que isto 
comum. O desencarnado volta sem preparo para perto dos que ama
e faz mal a eles. Disse com bondade da necessidade que tinha de
ir para o Plano Espiritual. Revoltei-me e recusei ir para o hospital,
para o Mundo Espiritual. Mas prometi no voltar para a casa de
Dulce.
Com meu livre-arbtrio respeitado, sa do Centro Esprita e
pus-me a vagar pelo bairro. Fui parar numa praa onde descansei
num canto. Senti fome, s ento percebi que o orientador do Centro
Esprita tinha razo, alimentava-me junto com os familiares.
De repente, um menino derrubou um sorvete e corri para
peg-lo.

 N.A.E. - O esprito saindo sem permisso e sem entendimento pode sentir os
reflexos das suas doenas ou ferimentos como aconteceu com nossa amiga.
 N.A.E. - Como Dulce foi pedir ajuda, dois trabalhadores do Centro Esprita
foram  casa dela verificar o que estava acontecendo. Ao encontrar Loreta, eles
levaram-na ao Centro para que recebesse orientao.
 N.A.E. - Recebeu doutrinao pela incorporao.
 N.A.E. - Fluidos de espritos sem compreenso prejudicam os familiares.
N.A.E. - S est livre das necessidades de encarnado o desencarnado que
compreende e aprende a viver como tal. No caso de Loreta, ela alimentava-se dos
fluidos vitais dos alimentos.

128 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

" meu!"
Uma desencarnada, senhora idosa e feia, me bateu com fora
na mo. Voltei para onde estava e chorei.
A senhora me observou curiosa e se aproximou.
"Voc est sofrendo?"
"Estou, a senhora no est?"
"Ora, ora, h anos sofro e nem ligo mais. Pode tomar o
sorvete, dou a voc. Fale o que se passa que talvez possa ajud-la.
Chamo-me Lal. E voc?"
"Loreta" - respondi.
Tomei o sorvete, Lal sentou-se perto de mim, contei toda
minha vida para ela.
"Sua beleza foi sua perdio - comentou. "Voc se vingou
deste Geraldo?"
"Vingar?"
"Ora, no seja burra, o cara mata seu corpo jovem e belo,
voc  inocente e vai deixar por isto mesmo? Se quiser, ajudo voc
a se vingar."
Nem sei se quero, ou o que quero, ou fao."
"Se quiser ficar comigo, cuido de voc."
"Quero."
Dois desencarnados mal-encarados, espritos ociosos passaram
por ali e mexeram comigo, tentaram me agarrar. Lal, para
meu alvio, os enfrentou e os ps para correr.
"Tenho medo, minha beleza me atrapalha at desencarnada.
Obrigada, voc foi corajosa. No pensei que desencarnados fossem
mexer comigo."
"Depende dos desencarnados. Os bons no fazem isto, nem
encarnados nem desencarnados. Os maus fazem mesmo. Mas como
 engraada a vida. Uns querendo ser bonitos e a outros a beleza
incomoda. Voc  bonita realmente. Conheo estes dois, so ruins
mesmo, se no estivesse aqui... Voc quer ficar feia?"

 N.A.E. - Um desencarnado pode bater e acariciar outro desencarnado. So da
mesma matria. Sentem-se mutuamente.

A casa do escritor 129

"Quero."
"Vou maqui-la. Venha comigo at minha casa, l tenho os
apetrechos."
Lal foi comigo at a sua ex-casa terrena, seu marido agora
casara com outra e ela odiava a segunda esposa dele. Aps
conhecer a casa, Lal comeou a me maquiar. Ela me enfeiou,
sujou, descabelou, tingiu a pele de preto azulado. Maquiou-me a
boca, tornando-a torta e grande e fez uma horrvel cicatriz na face
esquerda.
Ela plasmou o material que usou na maquiagem.
Ao olhar no espelho, levei um susto, estava bem feia, mas
sentia-me tranqila, nenhum desencarnado vadio me olharia mais
com cobia.
"Ento, est contente agora?" - indagou.
"Estou horrvel! Voc  uma artista!"
Fiquei a vagar com Lal, amos passear, pois ela sabia onde
podamos ir, alimentvamo-nos na ex-casa dela, vampirizando a
sua rival. Lal sabia que fazia mal a ela e estava ali por este motivo.
No fui mais  casa de Dulce, via meus filhos s de longe.
Saber que estavam bem me deixava tranqila.
Um dia, Lal insistiu tanto que fomos ver Geraldo na priso.
Um esprito que guardava a porta nos barrou. Lal lhe explicou que
queramos fazer uma visita a Geraldo de...
"So parentes?"
"Sim" - respondeu Lal.
"Este moo  bem comportado, recebe sempre a visita da me
desencarnada. Venham, levo vocs para v-lo."

 N.A.E. - Em prises, delegacias, penitencirias, existem equipes de trabalhadores
do Bem, que do assistncia tanto a encarnados como aos desencarnados
que ticam ali. Porm, espritos maus ali vo tambm, uns para se vingar, outros,
como este guarda, tomam conta da portaria, por no terem algo mais interessante
a fazer, ou mesmo por gosto, at podendo ser a mando de alguma organizao
do Umbral.

13 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

No gostei do que vi, tanto encarnados como desencarnados
vibravam negativo, o ambiente era horrvel. Logo estvamos na
cela de Geraldo, este lia um livro.
Lal, ao contrrio, estava gostando, passeava  vontade.
Logo que o viu, avanou sobre ele xingando-o.
"Assassino! Covarde!"
Geraldo parou de ler, sentiu-se mal, ficou nervoso. Um
companheiro lhe perguntou o que tinha.
"No sei" - Geraldo respondeu triste. "Acho que vou enlouquecer,
sou um ordinrio, matei minha esposa inocente e um homem
honrado."
"J sei sua histria, esquece!" - disse-lhe o companheiro.
"No posso, o remorso me mata, sofro muito. Se pudesse
pedir perdo a ela, ajoelharia aos seus ps."
Tive d dele, fora sempre infeliz, agora sofria mais do que eu.
Ento, falei  minha amiga:
"Acho, Lal, que no preciso me vingar. Geraldo j sofre
muito. Vamos embora, aqui  horrvel!"
Ao sair da prso, dois espritos horrveis nos pegaram.
Esperneamos, lutamos, mas eles eram mais fortes e no conseguimos
nos soltar. Fomos levadas para uma caverna no Umbral, o
local era horrvel, sujo e ftido, fomos colocadas num canto. No
estvamos sozinhas, espritos horrveis agrupavam-se. Apavorei-me,
a cena que vi era pior que um filme de horror.
Lal me disse baixinho:
Loreta, procure no conversar, s fale quando for indagada
e use a nteligncia para se sair bem. Vamos nos separar, fuja logo
que puder que vou tratar tambm de sair daqui."
"Onde estamos?"
"Na Zona Inferior, no Umbral, somos prisioneiras".
Zona Inferior, que  isto? Somos prisioneiras de quem?"
"Zona Inferior  o mesmo que inferno. Somos prisioneiras
deles, dos que moram aqui. No sei ao certo e nem por que nos
prenderam. Acho que  para nos tornar escravas. Quando eles

A casa do escritor 131

necessitam de que faa o trabalho para eles, aprisionam os que
vagam para servi-los."
"Vai me deixar sozinha?" - falei com medo. "Foi voc que
me colocou nesta situao."
"Ingrata! Ajudo-a e voc me trata assim."
Lal sumiu.
Fiquei sentada num canto sem coragem de sair do lugar.
Senti um medo horrvel e me arrependi por no ter seguido os
conselhos que me deram no Centro Esprita e por no ter ficado no
Posto de Socorro. No consegui saber quanto tempo fiquei ali, o
local estava napenumbra, clareava-o s uma pequena tocha fincada
na parede. Meus ferimentos doam muito e sentia fome e sede. Acho
que depois de dois ou trs dias vieram me buscar. Um sujeito
horroroso me pegou pelo brao e me levou a uma outra caverna to
horrvel quanto a primeira, s que estava mais clara e enfeitada por
inmeras caveiras. Num trono estava sentado um homem que me
olhou observando, gelei. Mas, seguindo o conselho de Lal, tentei
ficar calma e pensei: "Se este cara est no trono  porque pensa ser
rei ou algo parecido, devo me dirigir a ele como quer." Ajoelhei aos
ps do trono e abaixei a cabea. O sujeito que me trouxe disse alto:
"Chefe, pegamos esta quando saa da penitenciria, foi
visitar um detento.
"Que estava fazendo l,  infeliz?"
Sua voz parecia um trovo, grossa e forte, respondi com voz
trmula.
"Senhor, fui dar uma lio no maldito que me matou."
"Vingana ento? Adoro os que se vingam. No me meto em
vinganas particulares. Vingue-se como quiser,  seu direito.
Deixe-a ir,  to feia que enoja v-la!" - falou, fazendo uma careta
de nojo.
Levantei, o sujeito foi andando na frente, eu atrs, atravessamos
outras cavernas e samos.
"Vai, infeliz!" - meu acompanhante disse.
Ele voltou. Fiquei sozinha. O local estava escuro, uma
pesada nvoa me impedia de ver onde estava. Sentia-me perdida,
mas, mesmo assim, andei, queria afastar-me dali com medo de ser

132 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

presa novamente. Estava cansada, com dores, fome, frio e sede. s
vezes, via outros desencarnados a gemer, eram to horrveis que me
davam medo. Apavorada, continuei a andar.
"Vem por aqui, filha."
Senti algum pegar meu brao e andamos por minutos. Logo
vi uma claridade, mais alguns passos e estava na cidade. Soltei-me
num puxo e corri.
Era noite, andei at a praa, tomei da gua do chafariz.
Aps me deitar na grama, procurei descansar. Dormi, acordei com
a luz do sol. Fitei-me nas guas do chafariz, estava horrvel. Aquela
sujeira e a maquiagem me incomodavam, mas saba que era
prefervel. Se no estivesse assim, no teria sado do Umbral.
Bonita, seria cobiada por algum deles. Sentia-me muito sozinha,
minha nica amiga era Lal, estranha amiga, mas era minha
companheira. Fui procur-la no seu ex-lar e achei-a.
"Como saiu?" - ela quis saber.
"Acharam-me feia. E voc?"
"Sou esperta, conheo tudo por l. Venha alimentar-se.
Depois levo-a para ver seus filhos."
Como prometeu, Lal me levou para ver meus filhos. Chegando
l, Dulce conversava na calada com uma vizinha.
"Dona Ivone, desde que fui ao Centro Esprita, tudo melhorou
aqui em casa, meus sobrinhos esto bem, com sade, no
choram mais. Meu mardo e eu os amamos como se fossem nossos.
Eu me sinto bem e com sade. Acho que Loreta entendeu que estava
nos prejudcando e foi embora. Que Deus a ajude!"
Emocionei-me, vi meus filhos de longe, eles estavam brincando.
Peguei na mo de Lal e fomos embora.
"Meus filhos, Lal, j sofreram demais. No posso prejudic-los
e nem a Dulce, ela e o marido cuidam bem deles."

 N.A.E. - Um socorrista a ajudou, certamente. Se ela no corresse,
este poderia t-la auxilado melhor.
 N.A.E. - Certamente da parte fludica da gua.

A casa do escritor 133

"Por causa do Geraldo  que esto  maos!"
"No quero me vingar, que me importa ele? Sofre mais que
eu! No quero nem visit-lo,  perigoso. Fomos presas l."
Voc diz que ele sofre, e voc no? S que ele  culpado e
voc inocente! Afinal que voc quer? Voc  muito bonita e s me
atrapalha. No a quero mais perto de mim. Estou com muitos planos
e voc no faz parte deles. Adeus!"
Lal foi embora, voltei  praa e pus-me a chorar, chorei
tanto que as lgrimas me lavaram o rosto.
"Que estranho! Voc parece fantasiada de feia! Venha c,
boneca, vou lev-la" - disse um desencarnado, que fora mau
quando encarnado, pegando-me pelo brao.
Tive que lutar com ele. Quando me largou, sa correndo e me
escondi, ele ficou xingando. Quando vi que ele foi embora, voltei e
me fitei nas guas do chafariz, estava com a maquiagem danificada,
aparecia uma parte bonita do meu rosto. Pensei e resmunguei:
"Meu Deus! Se fico bonita de novo no sei o que acontecer
comigo. Odeio ser bonita! Na Terra entre os encarnados no h
lugar para mortos do corpo. Acho que tenho que ir para um lugar
prprio. Necessito de ajuda, mas ajuda mesmo. Acho que vou
naquele Centro Esprita, l me trataram to bem, talvez eles possam
me ajudar."
Senti vergonha de pedir ajuda, depois de t-la recusado e ter
sido mal-educada. Mas o medo e a vontade de ser socorrida foram
maiores e fui. Temi encontrar com desencarnados arruaceiros. Era
dia e o Centro Esprita estava fechado. Bati na porta e aguardei.
Uma pessoa desencarnada de aspecto agradvel me atendeu.
"Por favor, pelo amor de Deus me socorre, necessito de
ajuda" - disse a chorar.

 N.A.E. - Em quase todos os Centros Espritas, juntamente com a construo
material, h uma construo da mesma matria de que so feitas as Colnias,
cidades Espirituais. Esta trabalhadora abriu a porta desta construo e Loreta
com ajuda dela atravessou a porta material.

134 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

"Entre, sente aqui e tome isto. Voc sofreu muito para
entender e pedir ajuda. Vamos ajud-la. Logo a levaremos para um
hospital."
Senti-me melhor, ali sentia proteo. De fato, logo me
levaram para um hospital em um Posto de Socorro. Desta vez, foi
diferente, fui obediente e logo me recuperei. Quando fiquei boa,
passei a aprender e a trabalhar.
Loreta calou-se. Suspiramos juntas e sorrimos. Perguntei:
- E Geraldo e seus filhos?
- Meus filhos esto bem, j esto mocinhos. Geraldo ainda
est na priso. Tenho ido v-los quando tenho permisso.
- E o farmacutico?
- Ele foi socorrido. Pessoa boa, aceitou o socorro e est
muito bem, est tentando ajudar o Geraldo.
- E Lal?
- A esposa de seu ex-marido foi a um Centro Esprita
buscando ajuda, assim ela foi orientada e socorrida, est bem em
outra Colnia. Patrcia, h muitas encarnaes tenho sido vaidosa.
J fui casada com o esprito que  Geraldo nesta e tra-o muitas
vezes, fazendo-o sofrer muito por cimes.
Calamos e meditamos. Mas logo lembrei que tinha de
escrever a redao. Despedi-me de minha amiga.
- Loreta, tenho que ir. Obrigada!
Loreta sorriu, de fato  belssima, uma das mais perfeitas
belezas humanas que j vi.

 N.A.E. - Deu-lhe gua fluidificada.

XV

NO TRMINO
No final deste curso, em meio  emoo e  euforia pelo
objetivo alcanado, um novo sentimento comeou a tomar conta de
mim. No estava este sentimento ligado  vitria e  conquista. Era
um sentimento de plenitude, um prazer imenso de "viver", sentir em
plenos poros da alma o amor que Deus tem pelo homem e por tudo
que  seu. Como sempre, no pude deixar de me lembrar das
recomendaes de meu pai, que muitas vezes no cheguei a
compreender. Em certa ocasio, j desencarnada, e com imensas
oportunidades de conhecer e estudar o que almejo fazer, ele me
disse: "Patrcia, devemos buscar o conhecimento sem cessar e com
todo empenho, mas ele no deve ser tido como fim e sim como meio.
Pois arquivos mentais so coisas do passado e Deus no est no
passado e nem no futuro, Deus  atemporal. No seu tempo, o
importante  viver a vida pela vida, o amar, o viver pela prpria
beleza do viver este imenso, infinito e amoroso Deus."
Naquele momento estava sendo agraciada sentia-me parte
una com o Pai. Feliz de ser o que era, ansiava profundamente
atualizar todos os meus talentos para que nesta ao pudesse
demonstrar todo o meu amor e carinho por aquele que  o Criador
e Pai de todos ns.
Como o tempo corre depressa quando estamos felizes! O
curso j acabava e fazamos planos para o futuro. Cada um de ns,
com muito entusiasmo, planejava o que faria depois. Todos animados
com as novas tarefas e contentes com o trabalho pela frente. Eu
tambm fazia meus planos com muito carinho. J tinha escrito meus

136 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patric

livros que iria ditar  mdium. Livros estes feitos com cuidado
e muito amor, trabalho que os orientadores da Casa aprovaram
Logo minha tia e eu trabalharamos juntas. Tudo que comea tem
continuidade, e trmino. Iria por tempo determinado trabalhar com
a Literatura, ditando minha vivncia aos encarnados. Planejei
tambm o que iria fazer aps este trabalho. Vou continuar a estudar
em Colnias de Estudo. Mas meus conhecimentos no vo ficar sem
dar frutos. Irei tambm ser instrutora, ensinar em cursos. Isto  que
desejo e sonho. E querer desencarnada  quase sempre poder,
principalmente para o esprito que quer progredir e ser til. Eu
quero e muito.
Meu trabalho em ditar os livros fao em horas dirias. Digo
trabalhar, sim, porque todos que exercem uma atividade intelectual,
mental ou material esto trabalhando. E foi um trabalho que fiz,
fizemos com muito gosto. No s trabalhava quando ditava e a
mdium escrevia. Ficava com ela mais horas, enquanto ela trabalhava
materialmente na sua casa, nas tarefas dirias de dona-de-casa;
conversvamos mentalmente, falando de fatos, trechos que
amos escrever  tarde. E no foi um ditado somente. No mnimo,
foi escrito trs vezes cada captulo, alguns pedaos muitas vezes
mais. Tudo isto tentando fazer o melhor possvel. Neste tempo tive
tambm o encargo de cuidar dela, da mdium, de sua casa e famlia.
Mas tive muito tempo livre e no ficava ociosa. Ia muito ao
meu lar terreno, ao Centro Esprita, s Colnias onde tenho amigos.
Fiz parte da equipe de ajuda a filiados na Casa do escritor. Meu
cantinho continuou l. Freqentava as reunies to agradveis que
a Casa promove. Conversava nos seus ptios, onde o entusiasmo 
constante.
amos muito visitar as bancas do Livro Esprita por todo o
Brasil, como tambm ajudar, sempre que solictada, as Editoras, os
revendedores e tambm alguns leitores. Muitas pessoas ao ler
pedem ajuda ao escritor, ao mdium, se o livro  psicografado. Estas
ajudas so particulares e quase sempre os pedidos nos chegam por
meio de oraes. Dificilmente o mdium ou o escritor encarnado
pode ajudar e nem sempre o escrtor desencarnado pode ir no

A casa do escritor 137

momento ao seu auxlio. Mas a equipe vai, estuda, analisa o
problema e, na medida do possvel, a ajuda  realizada. Claro que
no se pode fazer tudo que nos pedem. Na maioria das vezes, cabe
ao encarnado resolver o problema. Mas s o fato de a equipe visit-lo,
o pedinte recebe fluidos salutares, bons, de entusiasmo e nimo.
Nesse tempo, participei de muitas reencarnaes de filiados.
Muitos moradores que se preparavam h tempo decidiram encarnar
e continuar a tarefa na carne. Houve tambm desencarnaes
esperadas que mereceram nossa ajuda. Muitos voltaram vitoriosos,
outros cumpriram pela metade o que se propuseram.
Muitas e muitas vezes, fomos aos filiados encarnados dar
foras e entusiasmo nos trabalhos desenvolvidos. Se espritos maus
os desanimam, cabe a ns anim-los. Porm, o encarnado tem seu
livre-arbtrio e escuta quem quer.
Foi um trabalho proveitoso, no qual aprendi muito.
Certamente, quando partir, meu cantinho ser ocupado,
tratei de deix-lo como antes de ocup-lo.
Mas, voltando ao trmino do curso, fizemos planos e pela
bondade do Pai tudo deu certo, a euforia era grande. No terminamos
o curso como comeamos. Nossos conhecimentos aumentaram,
tornamo-nos mais capazes e amadurecidos. No houve festa,
mas uma reunio em que amigos e moradores da Casa estavam
presentes. Convidei muitos amigos e - que surpresa agradvel!
- quase todos eles compareceram. Frederico me presenteou com um
lindo ramalhete de rosas azuis. Antnio Carlos, meu maior incentivador,
no escondia seu contentamento. Vov e amigos da Colnia
So Sebastio foram tambm me cumprimentar. Amigos da
Casa do Saber, do Centro Esprita, enfim, muitos ali estavam para
me desejar xito no trabalho que eu iniciara. No achava fcil ditar
aos encarnados, mas dois anos de estudo me davam um pouquinho
de confiana. Ns oito, os formandos, estvamos felizes e emocionados,
neste tempo juntos tornamo-nos realmente amigos.
- A tarde parece diferente! - exclamou Ruth. - Talvez, se
fosse outro dia, no notaramos a diferena. Mas como  hoje o

138 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho / Patrcia

trmino do nosso curso, sinto-a diferente. Acho que  porque estou
muito feliz!
Ruth iria tentar, tanto como eu, ditar aos encarnados.
- Estou pronta a escrever. Mas a parte encarnada estar?
- disse com um sorriso.
- Confie e trabalhe! - respondi.
Ruth estava pronta, era tima em redao, fez o curso com
louvor. Mas preocupava-se com a mdium que iria servir de
intermediria, esta estava desanimada e no perseverava nos treinos
necessrios. Todos ns tnhamos conscincia das dificuldades
que encontraramos. Nada se realiza facilmente. Mas o entusiasmo
em construir, em realizar, era forte em ns.
Todos reunidos no salo principal que estava enfeitado com
muitas flores, a reunio comeou com uma prece agradecendo a
oportunidade que o Criador nos dera.
O diretor da Casa, que estava na direo h dois meses,
porque, comoj foi dito, a direo faz rodzio, agradeceu a presena
de todos e incentivou os presentes ao estudo para que pudssemos
cada vez mais ajudar com sabedoria.
Tambm ouvimos Aureliano e Maria Adlia, estes dois
mestres competentes e estudiosos que nos cumprimentaram, motivando-nos
a seguir sempre em frente e no parar diante das
dificuldades.
Andr Luiz veio nos apadrinhar. Abraou um por um dos
que concluram o curso, dizendo palavras de carinho e incentivo.
Brindou-nos com suas palavras.
- Caros convidados e caros companheiros! Uma nova tarefa
os espera, no pensem que no tero dificuldades a vencer. Dificuldades
solucionadas so degraus que subimos no progresso. Faam
seus trabalhos com entusiasmo e carinho. Insistam e realizem! Que
seria de ns, se Jesus no tivesse encarnado? Se ele, achando que
seria intil e que no valeria o esforo, no tivesse se revestido do
corpo de carne para nos ensinar? Como estaramos sem seus ensinos
fabulosos? No nos igualemos ao Mestre, mas exemplifiquemos a
sua conduta. Vamos fazer o que nos compete, mesmo que seja uma

A casa do escritor 139

obra considerada pequena, porque,  fazendo, que um dia poderemos
dizer: Est feito!
Sintamos sempre na tarefa realizada a oportunidade que
recebemos para progredir atravs do fazendo, realizar! Que todos
consigam!
Palmas se ouviram pelo salo. Fomos abraados e abraamos.
A alegria era nica. Grata, guardei os acontecimentos em
minha memria e no meu corao. Sentia-me sempre e cada vez
mais feliz!

FIM

Se voc gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras
pessoas venham a conhec-lo tambm? Poderia coment-lo com as
pessoas do seu relacionamento, dar de presente a algum que voc
sinta estar precisando ou at mesmo emprestar quele que no tenha
condies de comprar. O importante  a divulgao da boa leitura,
principalmente a literatura Esprita. Entre nessa corrente!

A Casa do escritor  um relato simples
e encantador com que a jovem Patrcia nos
presenteia. Fala da Colnia que se dedica a
instruir pela Literatura, principalmente a que
educa, ensina com sabedoria: a Literatura
Esprita.
A Casa do escritor  uma Colnia
mvel. Como  gostoso deslizar com ela pelo
Espao, atravs dos relatos de Patrcia vajamos
juntos.
Ajovem autora nos desvenda muito do
Plano Espiritual Superior, fala de modo encantador
de suas Colnias maravilhosas e de
seus estudos fantsticos.
Patrcia tambm nos narra seu passado
a bonita histria de final romntico.
Vale a pena l-lo, todos ficaro encantados
com todas as maravilhas aqui escrtas!

ISBN 85-7253-001-0
9 788572 530019

Fim
